Antes de uma paciente com câncer de mama entrar na sala de cirurgia, a equipa de cuidados segue uma lista extensa de verificações. Avaliam função cardíaca, hemograma, alergias a medicamentos - mas, na maioria das vezes, não conferem vitamina D, apesar de a deficiência poder intensificar a dor durante a recuperação.
Num hospital do Egito, pesquisadores quiseram entender o que essa ausência nos protocolos poderia representar. Eles acompanharam pacientes com câncer de mama submetidas à mastectomia e às difíceis 24 horas seguintes, monitorando um indicador que muitos roteiros cirúrgicos simplesmente não incluem.
Uma deficiência simples
Mahdy Ahmed Abdelhady, M.D., Ph.D., da Universidade de Fayoum, no Egito, liderou uma equipa interessada em saber se um único marcador sanguíneo seria capaz de antecipar quanta dor uma paciente sentiria após a cirurgia. Para isso, escolheram analisar um pós-operatório exigente.
A deficiência de vitamina D aparece com mais frequência em mulheres com câncer de mama do que na população geral. Essa coincidência já incomodava clínicos havia anos, sem que alguém conseguisse demonstrar com clareza o que, exatamente, ela mudaria - se mudasse - nos resultados do tratamento.
Entre 184 pacientes, metade apresentava níveis de vitamina D abaixo do limiar de deficiência. A outra metade estava acima desse limite. As demais características - idade, plano cirúrgico e estado de saúde de base - ficaram equivalentes entre os grupos, com médias na faixa dos 40 e poucos anos.
Monitorização da dor hora a hora
O estudo foi realizado no hospital universitário de setembro de 2024 a abril de 2025. Todas as participantes tinham mastectomia programada - a remoção cirúrgica de toda a mama - um procedimento de grande porte e recuperação lenta.
Os médicos e enfermeiros da unidade não sabiam a que grupo cada paciente pertencia. Todas receberam o mesmo esquema de controlo da dor: fentanil, um analgésico opioide, durante a operação, e paracetamol intravenoso num cronograma fixo no pós-operatório.
Para alívio adicional, as pacientes utilizavam uma bomba acionada por botão que liberava tramadol, também um opioide. A equipa de enfermagem registrou a dor numa escala de 0 a 10 logo após a cirurgia e em mais quatro momentos ao longo das 24 horas seguintes.
Três vezes mais dor
O desfecho principal foi a dor pós-operatória 12 horas após o procedimento, definida como pontuação acima de 3 na escala padrão. As pacientes com deficiência tiveram cerca de três vezes mais probabilidade de atingir esse patamar em comparação com as que tinham níveis adequados.
Nenhuma das mulheres, em nenhum dos grupos, relatou dor intensa - 7 ou mais na escala. A diferença apareceu exclusivamente na faixa moderada, entre 4 e 6, o nível em que a dor é suficiente para levar a paciente a procurar mais alívio.
Esse ponto torna o resultado mais preciso. As pacientes com deficiência não evoluíram para dor de urgência; ficaram, sim, presas ao desconforto persistente de pontuações moderadas - o tipo de dor que faz a pessoa em recuperação apertar o botão repetidamente a cada poucas horas.
Opioides preenchem a diferença
A separação mais nítida entre os grupos foi no consumo de opioides. Durante a cirurgia, quem tinha vitamina D baixa precisou, em média, de apenas cerca de 8 microgramas a mais de fentanil do que as demais - um aumento discreto que a equipa não considerou clinicamente relevante por si só.
No entanto, após a operação, a distância cresceu de forma marcada. No primeiro dia, as pacientes com baixos níveis de vitamina D apertaram o botão o suficiente para consumir, em média, 112 miligramas a mais de tramadol do que as pacientes com níveis adequados.
A náusea também acompanhou a deficiência. Um número maior de pacientes do grupo com pouca vitamina D relatou náusea durante a recuperação, em linha com a maior carga de opioides. Vómito ocorreu apenas nesse grupo, embora os números tenham sido pequenos demais para apontar significância estatística.
Vitamina D e dor cirúrgica
Antes deste trabalho, já existiam indícios de que a vitamina D faz mais do que sustentar a saúde óssea. Artigos anteriores, envolvendo dor lombar crónica e recuperação após cirurgia de vesícula biliar, associaram níveis baixos a pontuações de dor mais altas - nem sempre de maneira consistente, mas com um padrão que voltava a aparecer.
O mecanismo provável parece passar pela inflamação. Acredita-se que a vitamina D reduza sinais químicos que aumentam a sensibilidade em tecidos lesionados, e um estudo recente ligou esse efeito à sua ação em células imunes e nas moléculas que amplificam a dor.
A dor pós-operatória em cirurgia de câncer de mama entra agora nessa lista em expansão. Até este estudo, ninguém havia quantificado essa relação nessa população específica de pacientes, em que a deficiência de vitamina D já é comum antes mesmo do diagnóstico.
Limites do estudo
A equipa de Abdelhady deixa claro o que o desenho do estudo não permite concluir. Um estudo observacional - mesmo bem conduzido - não prova que a deficiência, por si só, tenha causado uma recuperação pior; mostra apenas que as duas coisas caminharam juntas nesse conjunto de pacientes.
Algumas variáveis ficaram de fora da análise. Saúde mental, estadiamento do câncer, tratamentos prévios e qualidade do sono influenciam a forma como a dor é percebida no corpo. A equipa não coletou dados sobre nenhum desses fatores, e qualquer uma dessas lacunas pode explicar parte da diferença.
Também não foram colhidas amostras de sangue para medir níveis de inflamação. Sem esses dados, o mecanismo proposto continua sendo uma hipótese plausível, mas não algo confirmado diretamente pelos números. Para testá-lo, será necessário um desenho de estudo diferente.
O que poderia mudar
Mesmo com essas limitações, a questão prática para os clínicos envolve uma intervenção simples. O exame de sangue para vitamina D é barato, rápido e já é rotineiro. Quando indicado, suplementar é uma das medidas mais simples na medicina.
Se um ensaio clínico com dose pré-operatória em pacientes com deficiência confirmasse a ligação, centros de cirurgia de câncer de mama poderiam incluir essa verificação na preparação padrão. Pacientes que entrassem no centro cirúrgico com níveis corrigidos talvez enfrentassem menos dor e precisassem de menos opioides no pós-operatório.
Este trabalho descreve um padrão claro. Vitamina D baixa antes da cirurgia de câncer de mama aparece associada a mais dor e a maior uso de opioides depois. O próximo estudo não será uma questão de decidir se deve ser feito, e sim de quão cedo será realizado.
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