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Como a IA está ajudando a combater o tráfico de animais marinhos

Policial inspecionando mala com raio-x digital mostrando uma tartaruga e objetos marinhos em porto.

O tráfico de vida selvagem costuma ser lembrado por marfim, chifres de rinoceronte e animais exóticos vendidos como pets.

Bem menos atenção recai sobre o comércio ilegal de espécies marinhas - apesar de ele colocar em risco alguns dos animais mais vulneráveis do oceano.

Todos os anos, barbatanas de tubarão, cavalos-marinhos e pepinos-do-mar atravessam fronteiras internacionais de forma clandestina. Muitas vezes, vão secos e escondidos em bagagens comuns ou em encomendas, o que torna a identificação um desafio para as autoridades.

Para reagir a esse cenário, um grupo de cientistas na Austrália resolveu contra-atacar: eles treinaram um computador para reconhecer esses animais ocultos sem depender exclusivamente do olhar humano.

Tráfico de vida selvagem de animais marinhos

O comércio ilegal de vida selvagem movimenta bilhões de dólares por ano, o que o coloca entre os crimes mais lucrativos do planeta. Espécies do mar também fazem parte desse mercado, mas costumam passar despercebidas.

“O comércio de vida selvagem é cruel e antiético”, afirmou a Dra. Vanessa Pirotta, da Macquarie University, que liderou o estudo.

Quando animais marinhos são contrabandeados, populações já pressionadas ficam ainda mais frágeis.

Parte desses animais é vendida para consumo; outra parte, para uso medicinal ou como adorno; e alguns ainda são transportados vivos - e podem se tornar invasores caso escapem.

“Para muitos, esta pode ser a primeira vez que ouvem falar de tráfico ilegal de vida selvagem marinha”, disse Pirotta.

Ela acrescentou que o problema vai muito além de alvos mais conhecidos, como o chifre de rinoceronte e o marfim de elefante, e que o Dia Mundial dos Oceanos era uma oportunidade de trazer o tema à tona.

O maior obstáculo é flagrante. Se os agentes não conseguem localizar a carga ilegal, não conseguem interromper o fluxo - nem sequer estimar o tamanho do dano.

Três criaturas, um problema

A equipe direcionou o trabalho para três animais frequentemente movimentados por contrabandistas. Cada um deles representa um pedaço diferente desse mercado.

As barbatanas de tubarão têm grande procura para alimentação e correspondem à maior fatia conhecida do comércio marinho ilegal. Já os cavalos-marinhos secos são vendidos para a medicina tradicional e aparecem em dezenas de países.

O terceiro integrante do trio é o pepino-do-mar. Sabe-se que a espécie sofre com a sobrepesca, e os pesquisadores suspeitam que o contrabando seja muito maior do que os registos oficiais indicam.

Scanners emprestados de aeroportos

Em vez de criar uma solução do zero, os cientistas optaram por uma tecnologia já presente no dia a dia.

O Rapiscan Real Time Tomography 110 é usado em aeroportos e centros postais, onde normalmente inspeciona malas em busca de explosivos.

Esse equipamento faz várias radiografias (raios X) de um único objeto e as combina numa imagem completa em 3D. O operador consegue girar a visualização e analisar itens escondidos por qualquer ângulo.

Essa dimensão extra faz diferença. Um cavalo-marinho seco enrolado dentro de uma meia pode parecer uma coisa de lado e outra completamente diferente visto de cima.

Ensinando um computador a ver

Os investigadores alimentaram essas imagens 3D com um tipo de inteligência artificial (IA) que aprende padrões de forma semelhante ao modo como aprendemos a reconhecer rostos: quanto mais exemplos observa, melhor fica.

Ao todo, foram escaneadas 68 amostras reais - incluindo 18 barbatanas de tubarão, 30 cavalos-marinhos e 20 pepinos-do-mar - muitas delas obtidas em apreensões ligadas ao tráfico.

Cada amostra passou por cinco digitalizações em posições distintas, e o grupo também reproduziu estratégias típicas de contrabandistas, escondendo os itens em roupas, recipientes metálicos e brinquedos infantis.

Como amostras reais eram limitadas, os autores recorreram a um atalho engenhoso: um software inseriu os animais escaneados em imagens de malas normais e inofensivas, criando milhares de exemplos verossímeis para treinar o sistema.

Os números parecem promissores

Depois veio o teste de verdade. O sistema recebeu bagagens que nunca tinha “visto” e os cientistas acompanharam o desempenho.

Os resultados foram altos. O sistema de IA identificou barbatanas de tubarão em 95% dos casos, cavalos-marinhos em 96% e pepinos-do-mar em 86%, chegando a uma taxa geral de acerto de 92%.

Os alarmes falsos também permaneceram relativamente baixos: 13% no conjunto. Segundo os investigadores, estas seriam as primeiras ferramentas de detecção desenvolvidas especificamente para vida marinha traficada.

Onde o sistema falha

Alguns animais podem ser pequenos demais ou leves demais para aparecerem com nitidez no scan, e assim a máquina ainda pode deixá-los passar.

“Só conseguimos simular cenários de tráfico do mundo real com base no que já foi detectado antes”, afirmou Pirotta.

O estudo também dependeu de um conjunto reduzido de amostras reais. Por isso, a ferramenta pode comportar-se de outro modo quando for confrontada com a variedade caótica de uma fronteira real.

Um ajudante, não um herói

A proposta do software é apoiar o trabalho humano - não substituí-lo. Mesmo com uma taxa baixa de falsos positivos, um agente ainda precisa abrir as malas sinalizadas e confirmar tudo manualmente.

“A IA não é uma bala de prata para a detecção, nem um substituto para a detecção humana e por cães farejadores”, disse Pirotta.

Cães de detecção e buscas manuais continuam essenciais. Além disso, há a questão do custo: esses scanners 3D são caros, e muitos aeroportos ainda dependem de equipamentos 2D mais antigos, que não conseguem executar o novo programa.

Futuro do controlo do tráfico marinho

Mesmo com essas limitações, o potencial é concreto. À medida que aeroportos e centros de triagem modernizem os seus scanners, os mesmos aparelhos que procuram explosivos poderão também actuar como guardiões do mar.

Os pesquisadores esperam que a ampliação do conjunto de amostras torne as próximas versões ainda mais precisas. Um scanner que não se cansa pode dar à vida oceânica ameaçada uma oportunidade real na fronteira.

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