Produtores de leite conhecem bem o próprio rebanho e conseguem antecipar, com alguma margem, como será um verão difícil: muito calor, muita humidade, e menos leite a recolher. Essa ligação é observada há décadas, e o sector aprende a ajustar o planeamento.
O que quase ninguém tinha verificado com o mesmo cuidado era se o próprio leite se altera sob stress térmico - não apenas a quantidade produzida.
Um novo estudo da Universidade Cornell foi directo a essa questão, e a resposta aponta para um problema duas vezes maior do que os produtores imaginavam.
Um segundo custo oculto
Há anos, a pecuária leiteira sabe que, em dias quentes e húmidos, as vacas reduzem a produção.
Quando o calor do verão passa de certo limite, o volume cai rapidamente - e as fazendas já se preparam para esse baque.
O que não tinha sido medido de forma precisa era se o leite também “afinava”, perdendo parte da gordura e da proteína que determinam o seu valor.
O novo trabalho mostra que o aumento das temperaturas não só diminui o que vai para o tanque: também dilui o que está dentro dele.
A investigação foi liderada pelo economista Ariel Ortiz-Bobea, professor associado na Escola Dyson de Economia Aplicada e Gestão, da Universidade Cornell.
“Essa diluição induzida pelo calor desses componentes valiosos do leite está a acontecer um pouco fora do radar”, afirmou.
Um padrão preocupante aparece
Para detectar um efeito tão discreto, o grupo precisou de uma base de dados massiva. Foram analisados registos de leite de cerca de 6,5 milhões de vacas entre 2007 e 2016.
Cada registo foi associado a dados meteorológicos locais recolhidos em grelhas de aproximadamente 4 km de lado, cobrindo a maior parte dos Estados Unidos.
Só em produção de leite, isso resultou em aproximadamente 120 milhões de pontos de dados distintos.
O primeiro autor do estudo, Jeisson Prieto, doutorando, passou seis meses a estruturar uma forma de processar números nessa escala.
A equipa recorreu a um servidor de pesquisa da Cornell com capacidade para executar os modelos que ele construiu.
O padrão encontrado confirmou a parte já conhecida: o volume de leite mantém-se relativamente estável até que calor e humidade ultrapassem um patamar; a partir daí, a queda é acentuada.
Já o teor de gordura e proteína contou outra história - e, até então, quase ninguém tinha acompanhado isso com tal nível de detalhe.
Quando a qualidade do leite cai
A qualidade do leite começou a deteriorar-se em faixas de temperatura que nem chegam a afectar o volume.
“Se for um dia na casa dos 15 a 20 e poucos graus Celsius, não se vê efeito nenhum no rendimento, mas o leite começa a diluir-se gradualmente”, disse Ortiz-Bobea.
Essa diferença muda o formato do risco. A quebra de volume é um fenómeno de verão, concentrado nos períodos mais extremos de calor. A diluição, por sua vez, vai-se instalando também em dias amenos.
Com isso, o prejuízo acumula-se em épocas em que o produtor nem está à procura do problema - naquele tipo de tarde agradável que parece inofensiva.
O peso económico
Nos Estados Unidos, o pagamento ao produtor não depende apenas do volume entregue.
O valor recebido está fortemente ligado à quantidade de gordura e proteína no leite; portanto, um leite mais “ralo” reduz o cheque mesmo quando os litros parecem normais.
A equipa converteu o impacto em dinheiro: um aumento de 10 pontos no índice de temperatura e humidade reduziu a produção anual de leite em um pouco mais de 1%, mas diminuiu a receita em quase 3%.
Somado em todo o sector, isso equivale a cerca de US$ 1,65 bilhão em perdas para uma actividade responsável por um quinto de todos os produtos de origem animal no país.
Em outras palavras, a perda por qualidade custa aproximadamente tanto quanto a perda por volume. “Basicamente, isso duplica o dano”, disse Ortiz-Bobea.
As vacas não estão a adaptar-se
Seria razoável esperar que, com o tempo, as vacas ficassem mais resistentes - ou que as grandes fazendas modernas tivessem animais seleccionados para aguentar melhor o calor. Os dados, porém, não indicam isso.
Os investigadores observaram quase nenhuma diferença na resposta ao calor entre vacas de idades distintas, entre fazendas de tamanhos diferentes ou entre regiões.
A adaptação que apareceu de forma clara foi geográfica: o sector lida com o calor sobretudo colocando rebanhos em áreas mais frias, o que ajuda a explicar a concentração de operações leiteiras em estados do norte.
Como Prieto destacou, é por isso que tantos rebanhos acabam em locais como Nova Iorque e Wisconsin.
Ortiz-Bobea aponta um ponto cego na forma como o progresso foi perseguido. Durante décadas, a selecção e o melhoramento focaram em extrair mais leite, enquanto a resistência ao calor ficou fora dos critérios.
A produtividade subiu, mas também aumentou a sensibilidade do rebanho a um clima em aquecimento. Uma vaca mais produtiva que “murcha” no calor é um tipo frágil de sucesso.
O que muda a partir de agora
Até este estudo, o custo do calor na actividade leiteira era tratado como uma história de rendimento: menos litros no verão.
Aqui, a conta é ampliada, porque se mostra que a qualidade do leite também se desgasta - inclusive em dias comuns - e isso atinge a renda do produtor com força semelhante.
Trabalhos anteriores já tinham sugerido que o calor mexe na composição do leite, mas a escala do fenómeno e o seu peso económico ainda não tinham sido quantificados dessa forma.
Isso abre novas linhas de investigação. Se algumas vacas conseguem manter melhor os teores de gordura e proteína sob calor, programas de melhoramento podem passar a seleccionar essa característica, em vez de olhar apenas para produção. A equipa quer dados diários mais finos para identificar esses animais mais resistentes.
Para produtores já pressionados por preços baixos do leite, o recado é duro. O aperto não vem apenas dos dias escaldantes de verão, que todos conseguem prever.
Ele também vem dos dias amenos que vinham sendo ignorados - e reconhecer isso é o primeiro passo para criar e gerir rebanhos que consigam lidar melhor com o calor.
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