Pular para o conteúdo

Estudo da Universidade de Vermont mostra que H1N1 e H3N2 da influenza entram de formas diferentes nas células

Pesquisador em laboratório analisando imagens de vírus no computador com líquido colorido em tubos de ensaio ao lado.

Uma equipa do Larner College of Medicine, na Universidade de Vermont, chegou a um resultado inesperado que desmonta uma ideia repetida há décadas sobre a influenza: nem todos os vírus da gripe invadem as células humanas da mesma maneira.

O trabalho, divulgado no Jornal de Virologia, indica que H1N1 e H3N2 - as duas variantes mais comuns da influenza A - usam percursos celulares diferentes para infetar o tecido pulmonar. Essa diferença pode mudar a forma como antivirais são pensados e desenvolvidos.

Na prática, os cientistas observaram que cada vírus depende de proteínas distintas para conseguir entrar. Quando a proteína “certa” é removida, aquele vírus específico deixa de conseguir atravessar a barreira celular.

A investigadora principal, Emily Bruce, e os seus colegas não estavam à procura disso. O foco original era entender como os segmentos de ARN da influenza se deslocam dentro de células infetadas para, no local e no momento adequados, montar novas partículas virais. O achado surgiu como um desvio - e por acaso.

“Estávamos a investigar como os segmentos de ARN do vírus da influenza são transportados dentro das células até ao local e ao momento exatos para gerar novas partículas virais”, disse Bruce. No meio desse percurso, a equipa identificou uma via celular que impedia os vírus de romperem a entrada em células do pulmão.

O elemento central acabou por ser uma proteína chamada Rab11B. Ao acompanhar um defeito associado a essa proteína, os investigadores perceberam que H1N1 e H3N2, afinal, entram por caminhos diferentes.

“Os vírus são como piratas de países diferentes a sequestrar um navio. Cada vírus, como cada tipo de pirata, usa métodos diferentes para embarcar no navio”, disse Bruce à Imprensa Médica.

Por que a descoberta importa

A influenza continua a impor um grande peso no mundo. A Organização Mundial da Saúde estima que entre 10% e 20% da população global apanha gripe todos os anos, e que o vírus é diretamente responsável por 250.000 a 500.000 mortes anuais por infeções respiratórias. Há tempo que novas terapias são necessárias.

“Há uma necessidade urgente de melhores medicamentos para impedir que os vírus da influenza se repliquem e infiltrem novas células no corpo humano”, disse Bruce.

Existem três tipos de vírus da influenza, identificados como A, B e C. Os tipos A e B são os que sustentam as epidemias sazonais mais relevantes para a saúde pública, enquanto as infeções em animais - sobretudo porcos e aves - acrescentam um motivo extra de preocupação.

O tipo A está por trás dos surtos mais graves. O tipo B, por sua vez, tende a provocar episódios mais localizados. Já o tipo C causa apenas doença ligeira, com poucos sintomas, e raramente é detetado.

Dentro da influenza A, H1N1 e H3N2 são os subtipos predominantes.

Portas diferentes, chaves diferentes

Ao trabalhar com vírus isolados das passagens nasais de pacientes que tiveram teste positivo para gripe em 2022, a equipa de Vermont recorreu à genética reversa para separar, passo a passo, como H1N1 e H3N2 se comportam no interior das células. O que surgiu contrariou o modelo clássico apresentado em muitos materiais didáticos.

“Nós costumávamos pensar que todos os vírus da influenza usavam a mesma via para entrar numa célula, mas descobrimos que não é assim”, disse Bruce. “H1N1 e H3N2 precisam de proteínas diferentes para entrar e, se remover a proteína certa, um vírus específico não consegue entrar.”

O estudo relata que as duas variantes “entram por rotas diferentes, que não dependem dos níveis de ácido siálico”. Os autores colocam o trabalho como uma base importante para um grupo em expansão de vírus associados à Rab11.

“Os nossos dados fornecem informação fundamentalmente importante para o número crescente de vírus dependentes de Rab11”, afirma a introdução do artigo.

Um alvo para antivirais futuros

A implicação prática é direta. Se cada subtipo depende das suas próprias “chaves” moleculares para destrancar a entrada na célula, essas chaves tornam-se potenciais alvos de fármacos. Ao bloqueá-las, a replicação é travada.

“Esperamos que pesquisas como esta, guiadas pela curiosidade, ajudem a abrir caminho para novas estratégias de tratamento e prevenção de infeções por influenza”, disse Bruce.

Essa perspetiva tem impacto clínico. Os testes diagnósticos atuais não diferenciam H1N1 de H3N2, e os médicos tratam as duas variantes com os mesmos antivirais.

Uma próxima geração de medicamentos específicos por subtipo exigiria diagnósticos mais precisos e também uma reformulação dos protocolos terapêuticos.

Os resultados obtidos em Vermont surgem enquanto equipas no mundo inteiro procuram tratamentos que ultrapassem o guião, já antigo, dos inibidores de neuraminidase.

Ao revelar uma espécie de linha de fratura biológica entre as duas variantes de gripe que mais circulam a cada inverno, o estudo aponta para uma camada de biologia que os desenvolvedores de fármacos ainda não exploraram por completo.

O estudo completo foi publicado no Jornal de Virologia.

Perfil ORCID da investigadora Emily Bruce: https://orcid.org/0000-0001-8391-370X

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário