O Megane RS tem algo de bipolar. Parece pouca gentileza dizer isso, mas é um elogio e tanto. Esta é a nossa primeira volta com o Megane RS sem o chassi mais rígido “Cup” - vamos chamá-lo de NonCup - e ele entrega uma dupla personalidade em escala Tyler Durden.
Renault Megane RS NonCup: calma no uso comum
No NonCup, se você conduz sem pressa, dá até para esquecer que está num hot hatch. Para um tração dianteira com 250bhp, ele é surpreendentemente sossegado. Num passeio por estradas comuns, mostrou um rodar macio e sem batidas secas, lembrando um sedã francês a diesel. Coloque no banco do passageiro idosos com a coluna já castigada e observe o espanto: eles não “perdem” alguns centímetros de altura a cada buraco.
O que muda em relação ao Cup
Olhando os números, talvez essa docilidade não seja tão inesperada. Em comparação com o Cup - que, por si só, também não é um esmagador de cóccix - as molas dianteiras e traseiras do NonCup são 35 e 38 por cento menos rígidas, respectivamente, enquanto a rigidez anti-rolagem cai 15 por cento. Além disso, o NonCup vem de fábrica com pneus um pouco mais estreitos e mais tolerantes.
Quando você provoca: desempenho e aderência
O que realmente pega de surpresa é o que acontece depois que o NonCup já te embalou numa serenidade quase de Qigong: basta despachar o tal Passageiro Idoso de Ossos Frágeis e soltar seu Stig interior para a chave virar. A troca de humor é, sinceramente, meio desconcertante - como descobrir que a bibliotecária simpática do bairro, nas horas vagas, é vocalista de death metal e arranca a cabeça de patinhos.
E não é só a velocidade do Megane, por mais especial que ela seja. O motor 2.0 turbo permanece igual ao da versão Cup e empurra o Megane de 0 a 100 km/h em seis e poucos segundos, quase um segundo mais rápido que o Golf GTI e apenas alguns décimos mais lento que o Focus RS. A sensação ao volante acompanha exatamente o que os números prometem, mas é a aderência absurda quando você o enfia em sequência de curvas que parece desafiar a física.
Não aparece aquela inclinação desajeitada nem a sensação de folga que você esperaria de um carro tão relaxado em baixa. Pelo contrário: essa maleabilidade é a maior arma do NonCup, porque permite que ele se agarre até aos pisos mais ruins - justamente onde carros mais duros acabam quicando e saindo da linha. Talvez falte aqueles últimos microns de “plano” e de comunicação que o chassi Cup oferece, mas ainda assim ele é sublime - e (momento de tapinha autoindulgente nas costas) uma ótima confirmação da nossa decisão recente de dar à RenaultSport o nosso Manufacturer of the Year Award alguns meses atrás.
Criar um hot hatch à la Jekyll-and-Hyde assim, sem apelar para botões esportivos que mexem em amortecedores e afins, é coisa de gênio. Sinceramente, não me vem à cabeça outro carro que acerte essa história de personalidade dupla com tamanha naturalidade. O Focus RS continua sendo a nossa escolha de hot hatch mais hardcore, mas o Renault Megane NonCup talvez seja o all-rounder definitivo.
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