Quando as temperaturas sobem, a vontade de ir pra trilha volta junto - e os parques nacionais nos EUA ficam cheios de novo.
Caminhos na floresta que passaram o inverno em silêncio voltam a receber, dia após dia, caminhantes, corredores de trilha e mochileiros.
Só que outro padrão sazonal costuma vir logo na sequência: pedidos de resgate.
Só em abril, as White Mountains, em New Hampshire, tiveram sete caminhantes resgatados em uma única semana. Outro foi encontrado morto depois de não retornar de uma viagem solo de mochilão.
Histórias assim se tornaram comuns em todo o país, especialmente em áreas com terreno íngreme, clima instável e grandes altitudes - uma combinação que pode transformar um passeio simples ao ar livre em emergência rapidamente.
Hikers aren’t prepared for the wilderness
Um novo estudo investigou uma dúvida que muita gente experiente no mundo outdoor já se fez, ainda que em silêncio.
As pessoas estão mesmo preparadas para a natureza selvagem - ou só acham que estão?
A pesquisa foi liderada por John Lambert, da School of Public Health da Boston University.
A equipe entrevistou mais de 600 visitantes no Rocky Mountain National Park, no Colorado.
Os resultados indicam que muitos caminhantes e corredores de trilha entram nas trilhas sem água suficiente, sem itens de emergência, sem ferramentas de navegação ou sem suprimentos médicos para lidar com uma situação ruim, caso ela aconteça.
“Do ponto de vista da saúde pública, sinceramente, qualquer tempo ao ar livre é ótimo”, disse Lambert. “Dito isso, ainda é preciso agir com inteligência, e estar preparado pode salvar a sua vida ou a de outra pessoa.”
Feeling prepared versus actually being prepared
Uma das descobertas mais marcantes do estudo foi o descompasso entre confiança e realidade.
A maioria dos caminhantes e corredores de trilha acreditava estar adequadamente preparada.
Mas, quando os pesquisadores avaliaram o que eles realmente carregavam, apenas 15,7% dos caminhantes de bate-volta e 25% dos corredores de trilha atingiam os padrões de preparação definidos pelo estudo.
Os participantes eram considerados preparados se levassem pelo menos um litro de água, vários itens de emergência da lista “Ten Essentials” do National Park Service, um mapa ou dispositivo de navegação e suprimentos de resgate ou primeiros socorros.
Packing for comfort, not emergencies
Lambert disse que muita gente provavelmente entende “estar preparado” de um jeito diferente.
“Uma parte disso é, com certeza, julgamento”, afirmou. “As pessoas podem achar que estão preparadas, e a definição de preparado para elas pode ser diferente da definição que usamos.”
O problema, segundo ele, é que muita gente arruma a mochila pensando em conforto, não em emergência.
“As pessoas talvez nem pensem nisso quando estão montando a mochila; podem simplesmente jogar comida e água e não considerar todas essas outras coisas que poderiam ser realmente úteis.”
Isso importa porque problemas pequenos ao ar livre podem ficar sérios rapidamente. Uma torção no tornozelo a vários quilômetros do início da trilha pode deixar alguém preso por horas.
Tempestades repentinas, queda de temperatura, desidratação ou mal de altitude podem derrubar até pessoas saudáveis.
Equipes de busca e resgate nos Estados Unidos têm alertado repetidamente que muitas ocorrências começam com erros simples: pouca água, calçado inadequado, falta de lanterna ou ninguém sabendo para onde a pessoa foi.
Running trails in remote areas
O estudo também separou corredores de trilha de caminhantes - algo que pesquisadores raramente fazem. E essa distinção se mostrou importante.
Os corredores de trilha eram, em geral, mais jovens, mais experientes e mais propensos a sair sozinhos. Eles também avançavam mais longe e mais rápido por áreas remotas, carregando menos equipamento.
“Corredores de trilha geralmente andam mais leves e, muitas vezes, cobrem muito mais terreno no mesmo intervalo de tempo”, disse Lambert.
Mais de um quarto dos corredores de trilha relatou sair significativamente da trilha. Apenas cerca de 3% dos caminhantes disseram o mesmo.
Trail runners face a different risk
Os pesquisadores também observaram que corredores de trilha tinham maior probabilidade de relatar lesões ou doenças prévias em ambiente selvagem.
Mal de altitude e lesões no tornozelo apareceram com mais frequência entre os corredores entrevistados naquele dia.
Ainda assim, no geral, os corredores tiveram um desempenho um pouco melhor em preparação do que os caminhantes.
Lambert acredita que os parques podem precisar de mensagens de segurança diferentes para corredores, porque os hábitos e a mentalidade deles não são os mesmos de quem faz trilha a pé.
“Acho que ainda há muita pesquisa a ser feita nessa área para entender como outras populações outdoor diferem”, ele diz.
Experience changes behavior
A idade não deixou as pessoas mais preparadas. A experiência, sim.
O estudo descobriu que caminhantes que passavam mais dias ao ar livre por ano geralmente carregavam equipamentos melhores e faziam escolhas de segurança mais inteligentes.
Quem já tinha vivido uma lesão ou doença na natureza também tendia a se preparar com mais cuidado depois disso.
“Pessoas mais velhas - não sei se era uma sensação de complacência ou conforto, ou se é outra coisa - não estavam mais bem preparadas”, observou Lambert.
Esse resultado combina com o que guardas-parque frequentemente veem na prática. Muitos chamados de resgate envolvem pessoas que subestimam as condições por já terem feito trilhas parecidas antes, sem problemas.
Day hikes are treated too casually
O Rocky Mountain National Park fica em alta altitude, onde o ar mais rarefeito pode afetar rapidamente visitantes que chegam de regiões mais baixas.
Mesmo trilhas curtas podem parecer bem mais difíceis acima de 8.000 pés (cerca de 2.440 m). A desidratação também acontece mais rápido no clima seco do Colorado.
O National Park Service já orienta os visitantes a levar água extra, camadas de roupa, comida, proteção solar, mapas e itens de emergência.
Mas muitos viajantes ainda tratam trilhas de um dia com informalidade, especialmente quando os caminhos parecem movimentados ou bem cuidados.
The simplest safety step costs nothing
Uma das conclusões mais importantes do estudo não tinha relação com equipamento.
Cerca de um quarto dos caminhantes disse que nunca avisava ninguém para onde estava indo ou quando pretendia voltar. Entre os corredores de trilha, aproximadamente 16% pulavam esse passo.
Para equipes de resgate, essa falta de informação pode custar horas valiosas.
“Isso não é algo que você precisa carregar. Isso não é algo que você precisa comprar”, disse Lambert. “Mas faz uma diferença enorme se algo der errado e for preciso acionar busca e resgate.”
“Tempo é crítico, e quando a busca e resgate sabe onde procurar primeiro e é avisada apenas uma ou duas horas depois do atraso, em vez de um dia depois - isso pode facilmente ser a diferença entre vida e morte.”
O estudo completo foi publicado no periódico Wilderness and Environmental Medicine.
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