No último fim de semana, durante a primeira etapa europeia do Ferrari Challenge 2022, disputada em Portimão, a Razão Automóvel conversou com Antonello Coletta, diretor da Ferrari Attività Sportive GT.
Na entrevista, abordamos os resultados recentes da Ferrari nas corridas de GT, o retorno da marca de Maranello a Le Mans na classe LMH e também algumas pistas sobre os próximos rumos do automobilismo.
Hoje, Coletta é um dos nomes centrais da estrutura de competição da Ferrari e, na prática, pode ser visto como o “chefe” do programa de endurance da marca. Não por acaso, o seu nome já chegou a ser cogitado para assumir a liderança da equipe de Fórmula 1 da Scuderia.
Por enquanto, porém, sua área de atuação se concentra “apenas” - e esse “apenas” merece aspas bem grandes - na Attività Sportive GT, isto é, em tudo o que envolve as competições com carros de “carroceria fechada” da Ferrari. E, como ele próprio fez questão de detalhar, o escopo é ainda maior.
“A Attività Sportive GT é um departamento encarregue por muitas atividades em pista, como o Challenge, o Corse Clienti, o programa XX, o programa F1 Clienti, a Competizione GT, os circuitos de Mugello e Fiorano… Gerimos um mundo muito grande, entre o mundo das corridas e o mundo dos clientes”, disse.
Depois do triunfo nas 24 Horas de Spa-Francorchamps de 2021 e das vitórias nas classes GTE Pro e GTE Am nas 24 Horas de Le Mans de 2021, os GT ganharam ainda mais protagonismo dentro do universo competitivo do cavallino rampante.
O que esperar do novo 296 GT3?
Esse tema fica ainda mais relevante neste momento, porque a Ferrari está prestes a revelar a sua nova “arma” para as pistas: o 296 GT3.
A missão do 296 GT3 é de peso, já que ele substituirá o 488 GT3 - o carro de corrida mais vitorioso da Ferrari até hoje: foram 770 provas disputadas, com 429 vitórias e 107 títulos conquistados.
Quando perguntamos o que dá para esperar do 296 GT3, Coletta foi direto: “O carro é inacreditável”.
Ele também reconheceu que a régua ficou alta justamente pelo desempenho do antecessor: “Depois da última temporada do 488 GT3 e dos resultados que tivemos, é normal que a expectativa para o novo carro seja grande”.
Coletta ainda disse ter ficado impressionado com a reação do público após a divulgação dos primeiros esboços: “Apresentámos as primeiras imagens há duas semanas, mais ou menos, e o interesse em todo o mundo tem sido impressionante. Eu e toda a minha equipa já recebemos mesmo muitos pedidos de encomenda do carro, mais do que a nossa expectativa”, confessou.
E explicou por que a Ferrari colocou tanta ênfase no projeto: “Acredito que no futuro a GT3 será a única categoria no cenário dos GT e por isso mesmo, pusemos todo o nosso conhecimento neste projeto. O carro é mesmo muito bom. Todo o projeto é da Ferrari, o que é mais um importante passo face ao passado, e acreditamos que o nosso carro será muito competitivo. Além de ser muito bonito, mas isso já é outra questão…”, acrescentou.
Criado e desenvolvido integralmente pela Ferrari Competizione GT, o 296 GT3 será montado pela ORECA, em Signes (França), e deve ser apresentado nos próximos meses - a tempo de estrear oficialmente nas pistas em 2023.
Sentimos o «pulso» do projeto LMH
A Ferrari vai voltar ao maior palco da endurance, Le Mans, com um novo LMH (Hypercar) para disputar o Mundial de Endurance (WEC) em 2023. Por isso, perguntamos a Coletta como está o andamento do programa.
“É impossível ter um feeling nesta altura. Só saberemos no final do segundo ou do terceiro teste. É claro que para nós é normal pensar que o projeto está bem, mas se questionares os outros rivais provavelmente vão responder da mesma maneira”, começou por explicar.
Em seguida, ele reforçou a falta de referências neste estágio: “É difícil porque não temos um objetivo. É claro que existe a Toyota atualmente. Mas tenho a certeza que o Toyota que vemos agora não será o Toyota que veremos amanhã. Por isso mesmo, é impossível ter uma referência agora. Temos que trabalhar na nossa ideia e na direção que achamos ser a melhor e veremos na primeira corrida”, disse.
Coletta também voltou ao tema das diferenças entre LMH (Le Mans Hypercar) e LMDh (Le Mans Daytona Hybrid), deixando clara a escolha da Ferrari: “Escolhemos o caminho mais difícil, porque é mais fácil fazer um LMDh do que um LMH. Mas para a Ferrari a condição base para fazer um hipercarro é fazer todo o carro e não apenas o motor”.
E justificou o ponto: “Na categoria LMDh podes meter o teu motor e a tua carroçaria, mas o sistema elétrico, o chassis e a caixa de velocidades são os mesmos para todos. Mas para a Ferrari é importante fazer todo o carro. Por isso, decidimos ir para a categoria LMH. Claro que é muito complicado, mas o desafio é esse”, atirou Coletta.
“Estaremos prontos”, diz
Mesmo com a complexidade do caminho escolhido, Coletta garante que “o projeto está a avançar rápido” e que o “primeiro teste será apenas depois de Le Mans, na segunda ou terceira semana depois de Le Mans”.
Segundo ele, o cronograma de pista será diferente do de alguns concorrentes: “O nosso período de testes será apenas na segunda metade do ano, enquanto que os outros tiveram o ano todo. Mas a situação é esta e nós já a conhecíamos bem antes da decisão. O timing é muito apertado, mas é esta a nossa direção”, explicou, antes de destacar o tamanho do desafio.
“A expectativa é grande e para nós será um regresso importante na categoria principal da Resistência. Não vai ser fácil, mas nós estaremos prontos. Mas claro, é complicado, porque depois da homologação do carro não teremos outra oportunidade. A próxima oportunidade será apenas dois anos depois”, disse.
Quem serão os pilotos do projeto LMH?
Ao falar sobre a escalação, Coletta indicou que o plano inicial é partir de dentro da própria estrutura: “Sobre os pilotos, vamos começar com pilotos de fábrica. Temos muitos testes à nossa frente e temos de escolher seis pilotos. Mas se três ou quatro pilotos não forem capaz de conduzir o Hypercar, para a Ferrari provavelmente será fácil ir ao mercado”, atirou.
E concluiu: “Mas em qualquer dos casos, a minha primeira escolha será os pilotos de fábrica oficiais da Ferrari”, disse.
“Futuro pode passar pelos biocombustíveis”
A conversa também se estendeu ao futuro do automobilismo. Ao ser questionado sobre qual tipo de energia pode prevalecer nos próximos anos, Coletta compartilhou sua visão pessoal: “Acredito que o futuro pode passar pelos biocombustíveis (produzidos a partir de biomassa), provavelmente. Não estou seguro que o futuro do desporto automóvel seja elétrico, mas esta é a minha visão pessoal”.
Ele lembrou ainda que existem diferentes caminhos coexistindo: “Mas de qualquer das formas, temos vários anos à nossa frente ainda. A categoria dos Hypercars, por exemplo, será híbrida por cinco anos e a GT3 será com motores térmicos. Paralelo a isto, existe a categoria dos GT elétricos, que começou no ano passado, mas é uma competição que está longe de ter muitos participantes. Existe a Fórmula E…”, disse.
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