O Oceano Austral vem, de forma constante, engolindo um século inteiro de dióxido de carbono e de calor liberados pelas atividades humanas - só que, quando finalmente abandonarmos o vício em combustíveis fósseis, isso pode acabar voltando para nos assombrar.
Em um novo artigo, cientistas do clima da Alemanha projetam que, quando nós, humanos, enfim pararmos de lançar gases de efeito estufa na atmosfera e o planeta, no fim das contas, começar a arrefecer, o Oceano Austral vai liberar um enorme e abrupto “arroto” de calor. Esse pulso seria suficiente para provocar aquecimento global novamente por, pelo menos, mais um século.
A estimativa nasce de uma estrutura climática bem conhecida, que reúne modelos de balanço de energia e umidade da atmosfera, circulação oceânica e gelo marinho, biosfera terrestre e bioquímica do oceano. Com isso, a equipe conseguiu simular um cenário futuro idealizado de mudança climática.
O cenário modelado: pico de emissões e CO₂ duplicado
O roteiro é o seguinte: a atividade humana segue ampliando as emissões de gases de efeito estufa, até atingir um pico dentro de 70 anos. Nesse ponto, o dióxido de carbono atmosférico é duplicado.
Depois, as emissões são reduzidas rapidamente - por engenhosidade humana, talvez, ou até pela extinção humana - e, na sequência, várias centenas de anos de emissões líquidas negativas de carbono levam o mundo a esfriar de modo gradual.
Por que o oceano guarda calor durante o aquecimento global
Há alguns motivos para o calor se acumular no oceano durante o aquecimento global. Primeiro, as águas profundas, bem abaixo da superfície, passam a ser ventiladas com águas mais quentes vindas de cima. Segundo, diminuem os mecanismos pelos quais o oceano perdia calor de forma natural antes da industrialização - como a ressurgência de águas circumpolares profundas no Oceano Austral.
No modelo, o oceano continua absorvendo calor mesmo depois de o CO₂ atmosférico atingir o pico e de se alcançar emissões líquidas negativas, porque as temperaturas do ar na superfície também demoram a cair. Esse oceano futuro ainda ganha uma capacidade muito maior de absorver radiação solar de onda curta, já que grande parte do gelo marinho que historicamente refletia esse calor derreteu.
O “arroto” de calor do Oceano Austral e os impactos do aquecimento
“Descobrimos que, após vários séculos de resfriamento global sob emissões negativas de CO₂, ocorre um aquecimento atmosférico global que não está relacionado às emissões de CO₂ e é causado pela liberação de calor do oceano”, explica a equipe liderada pela biogeoquímica Ivy Frenger, do GEOMAR Helmholtz Centre for Ocean Research.
“A taxa de aquecimento é comparável às taxas médias históricas de aquecimento antropogênico e dura por mais de um século.”
Em outras palavras, o “amortecedor” que o Oceano Austral nos oferece hoje, ao absorver o calor preso na nossa atmosfera pelos gases de efeito estufa, não consegue sustentar esse papel para sempre.
E esse calor adormecido, quando for liberado, não se espalharia de maneira uniforme pelo planeta. Haveria efeitos globais, claro, mas a equipe concluiu que o aquecimento será “maior e mais duradouro no Hemisfério Sul, sugerindo um impacto maior sobre os países hoje mais vulneráveis do sul global”.
Modelos desse tipo podem ser um tanto simplificados e idealizados; ainda assim, quando o mesmo cenário foi testado em outras configurações de modelagem, os resultados foram consistentes. Isso coloca em xeque a ideia de que emissões cumulativas de CO₂ e aquecimento global caminham necessariamente lado a lado - uma suposição que, como os autores destacam, “sustenta a tomada de decisões políticas”.
Na prática, isso indica que talvez precisemos ajustar as expectativas sobre quanto tempo levará para perceber benefícios da ação climática - possivelmente até séculos depois de alcançar emissões líquidas negativas.
De acordo com esses modelos, o planeta continuaria a aquecer muito tempo depois de abandonarmos o hábito dos combustíveis fósseis. Mas, quanto mais adiarmos essa mudança, maior pode ser esse “arroto”.
O estudo foi publicado na AGU Advances.
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