O ano automotivo de 2022 já começa com um impacto elétrico: o Mercedes-Benz Vision EQXX aparece no CES 2022 (Consumer Electronics Show), em Las Vegas, nos EUA, com a proposta de levar a eficiência a outro patamar.
A marca alemã pretendia ser a primeira fabricante global a revelar um carro capaz de percorrer pelo menos 1000 km com uma única carga. Porém, poucas semanas antes, o crossover elétrico chinês GAC Aion LX tomou para si essa “faixa”, o que tirou um pouco do brilho da estreia - embora os mais de 1000 km anunciados estejam baseados no ciclo chinês CLTC, mais permissivo.
Ainda assim, a Mercedes encontra um motivo sólido para comemorar: o feito vem com uma bateria bem menor e mais leve do que a do SUV chinês, que usa nada menos que 144,4 kWh. Já o esguio Vision EQXX promete resultado semelhante com menos de 100 kWh, evidenciando uma eficiência superior.
Mais aerodinâmico que o EQS
O ponto-chave está numa combinação de construção com materiais ultraleves e uma aerodinâmica impressionante - Cd de apenas 0,17, abaixo dos 0,20 do EQS. Isso ajuda a justificar por que o Vision EQXX conseguiria rodar de Berlim a Paris (mais de 1050 km) sem precisar recarregar.
De certa maneira, dá para traçar um paralelo com o marco tecnológico da Volkswagen de cerca de uma década atrás, quando apresentou o XL1, capaz de percorrer 100 km consumindo menos de 1 litro de diesel.
No visual, o novo concept da Mercedes-Benz tem algo de “velho conhecido”: suas linhas derivam do protótipo IAA exibido no Salão de Frankfurt de 2015, que também, na época, trouxe números de referência no combate à resistência ao avanço.
Agora, com aparência que lembra uma raia elétrica e 1750 kg, o carro parece querer “passar por baixo” do ar enquanto se desloca, graças à dianteira baixa, à linha de teto extremamente rebaixada e à traseira alongada.
Além do trabalho para otimizar a massa da bateria no assoalho, a carroceria também foi pensada com a mesma prioridade: mistura aço de ultra-alta resistência com várias seções em alumínio e plástico reforçado com fibra de carbono (CFRP).
E, embora não seja exatamente uma novidade - mas seja muito útil quando a missão é ampliar a autonomia - o teto finíssimo incorpora 117 células solares para alimentar a bateria e acrescentar 25 km de alcance.
Menos de 10 kWh/100 km
A força do Mercedes Vision EQXX vem de um motor elétrico de 150 kW (204 cv) montado no eixo traseiro, capaz de levá-lo a 140 km/h com alta eficiência.
As rodas de magnésio forjado têm um diâmetro generoso de 20”, mas, como aconteceu no BMW i3 e no Volkswagen XL1, são as mais estreitas possível: apenas 185 mm de largura, tudo para extrair o máximo em consumo de energia - menos resistência ao ar e menor atrito com o asfalto.
O gasto energético, aliás, deve ficar abaixo de 10 kWh a cada 100 km, muito menos do que em qualquer outro elétrico disponível hoje: “este concept revela o nosso pensamento em relação ao que serão os elétricos no futuro, com uma bateria que poderia caber num automóvel muito mais pequeno”, confirma Ola Källenius, diretor executivo da marca.
O caminho para uma densidade energética tão alta está na química dos ânodos: o teor de silício e a formulação permitem armazenar mais energia do que nas baterias atualmente vendidas no mercado. Já o motor elétrico também se destaca: 95% da energia que sai da bateria efetivamente chega às rodas.
O know-how acumulado pela equipe de Fórmula 1 (que também ajudou no desenvolvimento do chassi eletrônico) foi decisivo para alcançar esses resultados e acomodar os quase 500 kg do conjunto de armazenamento de energia em um formato tão compacto. E os quase 100 kWh ocupam cerca de 50% menos volume e pesam 30% menos do que a bateria do recente Mercedes-Benz EQS.
Pronto para a linha de produção?
No interior, o Vision EQXX passa a impressão de estar bem próximo de um modelo pronto para a fabricação em série. Há quatro assentos individuais, uma tela fina de 47,5” que atravessa toda a largura do painel (com definição 8K) e um console central com porta-copos que reforça o caráter purista do concept.
O couro tradicional dos Mercedes que rodam hoje foi substituído por materiais que não têm origem animal (como a fibra de bambu). Eles aparecem no revestimento dos bancos, nas superfícies do painel, nas portas e nos tapetes, por uma escolha considerada eticamente correta.
O espaço em altura na cabine é condicionado pelas proporções externas do Mercedes-Benz Vision EQXX, mas apenas adultos com mais de 1,90 m de altura devem notar uma proximidade excessiva da parte de trás da cabeça com o teto.
Talvez não…
O cenário mais provável é que o Mercedes-Benz Vision EQXX não chegue às linhas de produção exatamente como está, podendo permanecer como peça única - um dia, ocupando seu lugar no museu da marca alemã.
Ainda assim, as tecnologias aplicadas nele tendem claramente a migrar para carros de produção no futuro, em diferentes frentes, como o uso de materiais reciclados, a propulsão mais eficiente e a arquitetura elétrica de bordo de 900 V.
De todo modo, existe sempre uma chance - ainda que pequena - de a marca alemã repetir o que a Volkswagen fez com o XL1: diante do interesse de alguns clientes, avançar para uma série extremamente limitada do Vision EQXX. No caso da Volkswagen, as 200 unidades montadas na fábrica de Osnabruck encontraram compradores em poucos meses e, até hoje, são muito valorizadas no mercado de usados, onde são negociadas por cifras bem acima de 100 000 euros.
Autores: Joaquim Oliveira/Press-Inform
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