A Ferrari segue provocando os fãs mais puristas. Depois do Luce, seu primeiro modelo 100% elétrico, a marca de Maranello voltou a colocar o tema das caixas manuais no centro da conversa com o Ferrari 12Cilindri Manuale. Só que esse “retorno” existe mais na aparência do que na mecânica.
Em vez de ressuscitar uma transmissão manual tradicional, a Ferrari criou o sistema Manuale By-Wire. No uso, ele lembra uma caixa manual e é operado de forma semelhante. Porém, abaixo do console central, a lógica é completamente diferente.
Na prática, a transmissão continua sendo uma automática de dupla embreagem (DCT) de oito velocidades. O que muda é a maneira como o motorista se comunica com ela. A seguir, explicamos como isso funciona.
O que é o Manuale By-Wire no Ferrari 12Cilindri Manuale
A proposta da Ferrari foi direta: manter o envolvimento e a ritualística de uma caixa manual sem criar qualquer ligação mecânica entre comandos e câmbio. Em outras palavras, o motorista “faz” a troca, mas quem executa é a eletrônica.
Uma caixa manual… sem ligações mecânicas
A alavanca de câmbio e o pedal de embreagem continuam lá, só que atuam como interfaces. Cada movimento do motorista é convertido em sinais eletrônicos.
Esses sinais são processados pela transmissão automática de dupla embreagem. Assim, a experiência buscada é a de um manual, mas sem barras, cabos ou conexões físicas ligando alavanca e pedal à caixa de marchas.
Mesmo pesando menos de 3,5 kg, a alavanca foi projetada para imitar o tato e a precisão de uma caixa manual clássica, eliminando folgas e mantendo um funcionamento uniforme ao longo de toda a vida útil do carro.
O conjunto simula dois gestos diferentes: um para selecionar a marcha e outro para engatá-la. Em seguida, um sistema de molas e roletes faz a alavanca voltar sozinha à posição central e reproduz o “clique” típico das manuais.
A Ferrari também trabalhou o som gerado pela alavanca para reforçar a percepção de algo mecânico. Já a ré permanece no mesmo “ritual” dos Ferrari antigos: pressiona-se a alavanca para baixo e desloca-se para a posição superior esquerda.
Todo o processo é acompanhado por sensores magnéticos. Se a transmissão identificar que determinada marcha pode causar dano ao conjunto mecânico, um atuador eletromagnético bloqueia o engate.
A embreagem também é eletrônica
Com o pedal de embreagem acontece o mesmo: não há conexão física com a transmissão. Sensores capturam o curso do pedal e enviam os dados para o câmbio DCT, que então realiza a troca.
A maior dificuldade foi copiar a sensação de uma embreagem “de verdade”. Para chegar perto disso, a Ferrari adotou um mecanismo formado por uma mola pré-carregada, uma came e um rolete.
Em conjunto, essas peças recriam a resistência do pedal e o ponto de embreagem tradicional, entregando uma resposta muito próxima da de uma embreagem mecânica - apesar de não existir qualquer ligação direta com a transmissão.
Modos de condução: como o motorista troca as marchas
No uso real, a experiência fica bem próxima da de uma caixa manual. O motorista precisa encontrar o ponto de embreagem para sair da imobilidade - se soltar rápido demais, o carro pode dar um tranco; se exagerar, o motor pode até morrer. Também é obrigatório usar a embreagem para trocar de marcha, e técnicas como o ponta-taco continuam possíveis.
No modo manual, as seis primeiras marchas e a ré são escolhidas pela alavanca, com uso obrigatório do pedal de embreagem. Em contrapartida, as tradicionais borboletas atrás do volante desaparecem por completo.
Já no modo automático, o câmbio volta a comandar as trocas. Mesmo assim, a alavanca segue ativa e permite pré-selecionar as relações, enquanto o painel de instrumentos antecipa o efeito de cada marcha nas rotações do motor. Neste vídeo dá para entender melhor o funcionamento:
Pode não ser uma caixa manual “de raiz”, mas a ideia também não é essa. A intenção da Ferrari foi resgatar uma experiência há muito pedida por seus clientes, sem abrir mão da rapidez e da eficiência do moderno câmbio automático de dupla embreagem. Se o resultado convence ou não, só os primeiros testes ao volante vão responder.
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