Em menos tempo do que você leva para terminar o café da manhã - ou aquecer o jantar de ontem no micro-ondas - a hipercarro da marca sueca agora já ultrapassa os 400 km/h. Na prática, é aquela “enorme bofetada” que a Koenigsegg dá no restante da indústria automotiva.
Esse tipo de recorde fica ao alcance de pouquíssimos fabricantes. O exemplo mais óbvio é a lendária Bugatti e seu grande W16 superalimentado, presente em ícones como Veyron, Chiron e a raríssima La Voiture Noire. Também dá para citar a croata Rimac, com a Concept-One e a Nevera, ambas 100% elétricas. Mais recentemente, a BYD sacudiu os europeus com o YangWang U9, que alcançou 496 km/h no anel de alta velocidade de Papenburg, na Alemanha.
Essa lista estaria incompleta sem a Koenigsegg, pequena fabricante sueca criada em 1994 por Christian von Koenigsegg. Ela nunca precisou de 12 cilindros nem de baterias de 120 kWh para constranger rivais: com V8 “simples”, a marca provou que uma arquitetura de motor mais convencional pode encarar, de igual para igual, os nomes sagrados do setor.
Com uma produção artesanal e ultraseletiva - pouco mais de uma dezena de modelos no total - a Koenigsegg apresentou a Jesko (nome do pai do fundador) no Salão de Genebra de 2019, como sucessora da já absurda Regera. Foi a primeira hipercarro da marca pensada ao mesmo tempo para pista e para uso “cotidiano”, com homologação para rodar nas ruas. Limitada a apenas 125 unidades, ela surgiu em duas configurações principais: a Jesko Attack, focada em gerar o máximo de carga aerodinâmica, e a Jesko Absolut, revelada em março de 2020, cuja missão é uma só: atingir velocidades finais estratosféricas. E foi justamente essa última que, no começo de junho, quebrou - e não foi um só - recordes que devem ficar na memória por muito tempo.
Jesko Absolut: um guepardo feito para o cronômetro
A Jesko Absolut usa o mesmo V8 5,0 litros biturbo da versão Attack, mas com um novo pacote de software, o Absolut Overdrive, criado para ajudar a colocar no chão o máximo possível da potência. E potência é o que não falta: abastecida com E85, ela entrega 1 600 ch a 8 500 rpm, graças a um virabrequim plano de 180° com apenas 12,5 kg - o mais leve do mundo em produção para essa cilindrada.
O detalhe mais provocador? Ela é de tração traseira, enquanto várias concorrentes dependem de tração integral para não transformarem os próprios pneus em fumaça já na largada.
Transmissão Light Speed Transmission (LST) e entrega contínua de torque
Junto da Light Speed Transmission (LST) - uma caixa de 9 marchas com 7 embreagens desenvolvida pela Koenigsegg - o motor da Jesko empurra sem aparentar fôlego curto. Diferente das transmissões de dupla embreagem (DCT), comuns em supercarros e hipercarros, que normalmente precisam trocar as marchas em sequência, a LST consegue pular diretamente do 2º para o 7º, ou do 4º para o 9º. Quase como em um conjunto elétrico, não existe “buraco” de torque, e ela consegue despejar toda a potência quando solicitado.
Aerodinâmica da Jesko Absolut e coeficiente de arrasto 0,278 Cx
Mesmo menor do que o de muitos sedãs familiares modernos projetados para poupar combustível, o coeficiente de arrasto dela é absurdamente baixo: 0,278 Cx. As rodas receberam carenagens, a asa gigantesca deu lugar a duas aletas verticais e a traseira foi alongada. A ideia é fazê-la cortar o ar como um caça - ainda que, em velocidade máxima, ela perca 150 kg de carga aerodinâmica em comparação com a versão Attack.
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Uma fome inesgotável por recordes
A primeira demonstração pública realmente marcante dessa força veio em 7 de agosto de 2025, no aeródromo de Örebro. Na ocasião, Markus Lundh fez o 0 a 400 km/h e freada até a parada completa em 25,21 segundos, tomando o recorde da Rimac Nevera R por 0,58 segundo, graças ao Absolut Overdrive.
Depois, em 6 de junho de 2026 - dia da festa nacional da Suécia - o piloto de testes da casa, Markus Lundh, voltou ao volante dessa joia de 3 milhões de euros para provar o que ela ainda tinha guardado. Um carro desse nível precisa de espaço para se expressar; por isso, a Koenigsegg escolheu o aeródromo de Ängelholm, um local histórico e já acostumado a feitos da marca, com uma reta longa praticamente sem fim.
Naquele dia, o que foi para a pista foi uma Jesko sem modificações, com exceção de um arco de segurança e de bancos concha herdados de uma One:1. Em seguida, Lundh cravou mais quatro recordes mundiais com o carro: 400 metros em 8,54 segundos a 305,39 km/h - uma estreia absoluta para um carro de produção. Também foram 800 metros em 12,76 segundos a 373,87 km/h, além do 0 a 100 km/h resolvido em 2,35 segundos. E tudo isso com pneus Michelin Pilot Sport Cup 2 R de fábrica!
É algo simplesmente monstruoso, mas a Koenigsegg já deixou claro que, em teoria, a Jesko Absolut poderia chegar a 531 km/h, com base em testes internos feitos por simulação. Agora, faltaria apenas um conjunto de pneus capaz de suportar uma velocidade desse nível - do contrário, a força hercúlea do V8 biturbo pode rasgar as laterais. Por enquanto, a marca não indicou quando tentaria novamente, mas já se sabe que ela entrou em contato com a Michelin para exigir que as tecnologias de pneus protótipos testados a 531 km/h em bancada sejam rapidamente transferidas para um pneu homologado para uso em estrada. Tirando a Bugatti, a Koenigsegg é a única fabricante que já esbarrou nesse “problema”: isso, por si só, já não é um recorde?
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