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Entenda por que a Terra e a Lua estão deixando os dias mais longos até 25 horas em cerca de 200 milhões de anos

Jovem cientista em laboratório manipulando modelo da lua, com globo terrestre e tablet sobre mesa.

A possibilidade de “ganhar” uma hora a mais no dia soa atraente, mas a ciência trata logo de colocar os pés no chão: os dias na Terra estão, de fato, ficando mais longos - só que em um ritmo tão pequeno que nenhuma geração humana vai perceber. Há bilhões de anos, a rotação do planeta desacelera aos poucos por causa da ação gravitacional da Lua e, segundo estudos, em um futuro muito distante a Terra pode levar 25 horas para dar uma volta completa em torno do próprio eixo. O ponto-chave é o prazo: essa mudança é projetada para cerca de 200 milhões de anos.

Por que a Lua está fazendo os dias na Terra ficarem mais longos?

A gravidade da Lua puxa continuamente os oceanos do planeta, produzindo as marés que sobem e descem todos os dias. O que costuma passar despercebido é que, nesse vai e vem, o atrito entre a água do mar e o fundo oceânico atua como um freio natural na rotação do planeta. Nesse mecanismo, parte da energia cinética que mantém a Terra girando é transferida para a órbita lunar. O efeito acontece em duas frentes: a rotação terrestre perde velocidade, enquanto a Lua se afasta pouco a pouco, a uma taxa de aproximadamente 3,8 centímetros por ano.

De acordo com Fernando Roig, pesquisador do Observatório Nacional ligado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, esse fenômeno é investigado desde o século XVIII, e a rotação do planeta apresenta desaceleração sistemática desde a formação da Terra, há cerca de 4,5 bilhões de anos. Há 600 milhões de anos, por exemplo, um dia tinha apenas 21 horas. Atualmente, um dia solar completo mede 23 horas, 56 minutos e 4 segundos - uma duração que não é rígida e pode oscilar levemente conforme a estação do ano e outros fatores geofísicos.

  • Força de maré lunar: o atrito entre os oceanos e o fundo oceânico causado pela gravidade da Lua transfere energia da rotação terrestre para a órbita lunar, freando o planeta gradualmente
  • Derretimento de calotas polares: a redistribuição de massa de gelo para os oceanos altera a distribuição de peso do planeta e pode acelerar ou retardar sua velocidade de rotação
  • Grandes terremotos: eventos sísmicos de alta magnitude podem causar oscilações bruscas na rotação, alterando a duração do dia em frações de milissegundo de forma imediata
  • Marés atmosféricas: o deslocamento periódico de grandes massas de ar ao redor do planeta impacta na velocidade de rotação, especialmente nas variações que mudam com as estações
  • Movimento do núcleo interno: a dinâmica do núcleo sólido da Terra e sua interação com o manto externo influenciam a velocidade de rotação de formas que a ciência ainda estuda

Qual é o ritmo real dessa desaceleração e o que os números revelam

Em média, os dias ficam mais longos em 1,7 milissegundo a cada século - isto é, 0,0017 segundo por 100 anos. Para traduzir esse valor em algo mais palpável, seriam necessários mais de 39 mil anos apenas para somar seis milissegundos de diferença. Mantido o ritmo atual de freamento, o cenário de um dia com 25 horas é estimado para daqui a aproximadamente 200 milhões de anos.

O Observatório Nacional também chama atenção para o tom sensacionalista de algumas manchetes: a ciência não fixa uma data exata para essa transição, e a variação na duração do dia ocorre em frações tão diminutas de segundo que nenhum relógio vai atrasar nem será preciso refazer calendários em futuro próximo. O acompanhamento científico foca mudanças na escala de milissegundos - invisíveis na rotina, mas importantes para sistemas que dependem de sincronização de tempo em nível atômico.

O que os fósseis e as rochas revelam sobre o passado da rotação terrestre

A confirmação mais sólida de que a rotação da Terra vem perdendo velocidade há bilhões de anos aparece nos registros geológicos. Cientistas reconstroem a duração dos dias em épocas remotas usando anéis de crescimento em corais antigos e camadas de sedimento, que funcionam como “calendários” naturais preservados em fósseis. As medições indicam que, quando a vida multicelular passou a se estabelecer nos oceanos, há cerca de 600 milhões de anos, um dia terrestre durava por volta de 21 horas. Já no começo da história do planeta, há 4,5 bilhões de anos, a Terra girava tão rápido que um dia tinha entre 5 e 10 horas.

A linha do tempo da duração do dia na Terra

Como o dia foi aumentando ao longo de bilhões de anos: há 4,5 bilhões de anos, na formação do planeta, um dia durava entre 5 e 10 horas - a Terra girava muito mais rápido logo após sua origem. Há 600 milhões de anos, quando a vida multicelular surgiu nos oceanos, um dia durava cerca de 21 horas. Hoje, um dia solar completo tem 23 horas, 56 minutos e 4 segundos, um valor que oscila levemente ao longo das estações do ano. Em cerca de 200 milhões de anos, com a desaceleração contínua causada pela força de maré lunar, o dia deve chegar a 25 horas.

Esse histórico mostra que o dia de 25 horas não é apenas um palpite: trata-se do desdobramento de um processo que já alterou a duração dos dias várias vezes ao longo da história do planeta. O que se transforma é o ritmo - cada vez mais lento, conforme a energia cinética da rotação terrestre vai sendo repassada para a órbita da Lua, que fica progressivamente mais distante.

Em julho e agosto de 2025, pesquisadores registraram uma aceleração inesperada da rotação - um comportamento ainda em apuração e que segue na direção contrária do que a teoria gravitacional aponta para o longo prazo. Antes disso, a partir de 2020, também foram observados dias ligeiramente mais curtos do que o padrão histórico. Essas oscilações de curto prazo reforçam que outros elementos, como o deslocamento de correntes oceânicas e grandes massas de ar, interferem no giro do planeta de maneiras que a ciência continua investigando.

Por que essa mudança já importa para a tecnologia de hoje

Mesmo que o dia de 25 horas seja uma perspectiva para centenas de milhões de anos, pequenas variações na rotação da Terra já produzem efeitos concretos em sistemas de alta precisão que sustentam a tecnologia atual. Sistemas de posicionamento global, como o GPS, dependem de sinais temporais extremamente exatos; por isso, qualquer mudança na velocidade de rotação do planeta precisa entrar nas compensações de cálculo para que a localização permaneça precisa.

Os chamados “segundos intercalares”, ajustes discretos adicionados ou retirados de relógios atômicos de tempos em tempos, existem justamente para manter o tempo civil alinhado com a rotação real da Terra. Pesquisadores do Observatório Nacional e de centros como a NASA e a Universidade Técnica de Munique acompanham essas variações com lasers giroscópicos de alta precisão, capazes de identificar alterações na taxa de giro do planeta na escala de milissegundos. Em outras palavras, a mesma base científica que explica por que, um dia, teremos 25 horas é a que sustenta o funcionamento de satélites e das redes de comunicação usadas hoje.

O que esse processo revela sobre a relação entre a Terra e a Lua

A perda de velocidade da rotação terrestre e o afastamento gradual da Lua são duas faces do mesmo fenômeno físico. Conforme a Terra cede energia cinética de rotação, a Lua ganha energia orbital e se distancia. Em um futuro extremamente remoto, caso esse caminho siga sem interrupções, Terra e Lua poderiam chegar a um quadro de rotação síncrona: o planeta passaria a exibir sempre a mesma face para a Lua - assim como, atualmente, a Lua já mantém a mesma face voltada para a Terra.

Essa “coreografia” gravitacional silenciosa entre os dois corpos celestes está entre as interações mais lentas e persistentes do sistema solar. Aquilo que parece totalmente estável na experiência humana - o tempo do dia - na escala geológica é uma variável moldada pela física do espaço. Compartilhe com quem gosta de ciência e vai curtir saber que o relógio cósmico está, literalmente, desacelerando.

Referências: Por que o dia tem 24 horas: a história da maré térmica atmosférica da atmosfera da Terra, composição e temperatura média | Science Advances

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