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Alpine A110 elétrico quer ser o novo presidente da junta

Carro esportivo elétrico azul Alpine A110 EV exibido em exposição com fundo preto e branco.

Talvez eu esteja exigindo demais da memória de vocês, mas existe uma esquete antiga do Herman José em que a grande briga era descobrir quem, no fim das contas, era o presidente da junta. A Alpine acabou de fazer algo parecido com o novo A110 elétrico, cuja “mula de testes” deve aparecer nos próximos dias no Goodwood Festival of Speed.

A fabricante de Dieppe não economizou na frase de efeito e o apresentou como o “primeiro desportivo elétrico de verdade”. Ou “de verdade mesmo”, se preferirem. Para quem gosta da semântica anglo-saxônica - à qual o jornalismo automotivo deve tanto -, seria “o primeiro verdadeiro desportivo elétrico”.

O Porsche Taycan e o Hyundai IONIQ 5 N provavelmente engasgaram. Porque, segundo a Alpine, o Alpine A110 elétrico é que é o presidente da junta! Para quem nasceu quando carro já vinha com vidro elétrico de fábrica, a esquete que eu mencionei é esta:

Herman José - "Eu é que Sou o Presidente da Junta" (YouTube)

O “presidente da junta” e a provocação da Alpine

Dá para discutir a frase, claro. Vou além: ela foi feita para ser discutida, de propósito. A prova é que estamos falando disso antes mesmo da revelação mundial, que deve acontecer em breve. Mas é bom separar autoconfiança de falta de conteúdo. Bazófia, portanto. Outra palavra que a turma mais nova talvez nem use.

O que a Alpine promete no novo Alpine A110 elétrico

Por trás da autoproclamação francesa (e nisso eles são realmente bons…) parece haver, sim, trabalho sério: uma plataforma totalmente inédita em alumínio, dois motores elétricos no eixo traseiro, arquitetura de 800 V, tecnologia cell-to-pack (bateria sem módulos), mas dividida em dois packs separados para manter a distribuição de massas em 40:60. A Alpine também cita vetorização de torque com respostas a cada 10 milissegundos. A ideia central está ali: construir um Alpine de verdade.

mula de testes do Alpine A110 elétrico

Ainda não é o novo A110 que veremos em Goodwood, mas sob a carroceria deste protótipo baseado no modelo atual está a tecnologia do próximo carro.

O elefante na sala: o peso

Agora vamos ao ponto inevitável: o peso. E é aí que tudo se decide. O A110 que acabou de sair de linha não virou referência por despejar números absurdos de potência. Entrou para a história por ser leve, preciso, comunicativo - e por lembrar a indústria de que um desportivo de verdade não precisa de 700 cv.

A versão de entrada pesava pouco mais de 1100 kg e era movida por um quatro-cilindros turbo de 1,8 litros (o mesmo do Megane R.S.), com potência entre 252 cv e 345 cv, dependendo do tamanho da sua carteira. O A110 básico custava por volta de 75 mil euros, enquanto o A110 R Ultime passava dos 275 mil euros com facilidade. Eu fico caçando esses carros, mas no mercado de usados eles valem quase tanto quanto novos.

Usados

Um presidente da junta na garagem

Para quem prefere “votar” nos desportivos com motor a combustão, um A110 usado pode fazer sentido:

QUERO VER TODOS

Deixando os preços de lado, a Alpine agora precisa repetir o truque da leveza - só que com o lastro inevitável das baterias. E é aqui que a conversa começa a ficar realmente interessante. Ainda não existe um peso oficial para o novo A110 elétrico, mas os rumores falam em números incomumente contidos para um carro desse tipo.

A Road & Track disse que a meta da Alpine estaria em torno de 1300 kg, enquanto outras fontes falam em algo “bem abaixo de 1500 kg”. Mesmo que ele acabe mais perto de 1500 kg do que de 1300 kg, continua sendo um resultado respeitável para um desportivo elétrico.

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“Respeitável”, claro, não significa “milagroso”. O novo A110 vai ser, inevitavelmente, mais pesado do que o atual. A pergunta é se ele será apenas mais pesado - ou se ficará tão diferente a ponto de deixar de ser um A110.

O que define um desportivo elétrico?

Vou acompanhar de perto porque isso nos obriga a discutir o que é, afinal, um desportivo elétrico. Se a resposta for só aceleração, obrigado, mas esse filme a gente já viu. Se o foco for massa, tato, proporção, arquitetura, posição de dirigir e prazer ao volante, aí a conversa muda.

Também não é pouca coisa o fato de isso vir da Renault. O grupo francês vem entregando algumas das plataformas elétricas mais interessantes da atualidade. O Renault 5 E-Tech provavelmente é o melhor exemplo: compacto, desejável, bem resolvido e - segundo declarações recentes de François Provost, diretor-executivo do Grupo Renault - com margens maiores do que elétricos maiores como o Megane e o Scenic, dois modelos com eficiência elétrica notável.

mula de testes do novo Alpine A110 elétrico, vista de cima

Ao mesmo tempo, a Renault começou 2026 com crescimento de receita no primeiro trimestre, enquanto a Volkswagen segue presa a uma transformação pesada, cara e politicamente complexa. Isso não transforma a Renault em uma empresa sem dores de cabeça. Basta lembrar o impacto contábil da Nissan nos números de 2025. Mas, no dia a dia, existe uma coerência que hoje falta a muitos fabricantes europeus: decidir o que quer ser antes de enfiar mais uma tela no painel.

Então, sim: a Alpine está batendo no peito ao dizer que o novo A110 será o primeiro verdadeiro desportivo elétrico. Pode ser marketing, uma provocação meio gratuita - não sei. Mas talvez seja uma provocação útil. Ela força a gente a pensar na definição de carro desportivo e no quanto ela combina (ou não) com a eletrificação total. De um jeito ou de outro, falta pouco para descobrirmos quem é, afinal, o presidente da junta. Vamos ver se o mandato aguenta até o fim…

Spotify - "Daqui a 30 anos estes carros elétricos vão ser clássicos?"

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