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Estudo aponta que secas da mudança climática podem favorecer bactérias resistentes a antibióticos

Cientista encolhida em solo seco segurando placa de Petri com bactérias em área árida perto de prédio.

A intensificação das secas provocada pela mudança climática global pode estar a criar um cenário especialmente favorável para a evolução de bactérias resistentes a antibióticos, de acordo com um novo estudo.

O uso excessivo de antibióticos na medicina, ao que tudo indica, não é o único motor por trás do avanço desses microrganismos resistentes. O trabalho também aponta que o que acontece fora dos hospitais - no solo do planeta - pode influenciar a resistência a antibióticos dentro de ambientes de saúde.

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia da Califórnia (CIT) mostram que a seca pode concentrar antibióticos naturais no solo, pressionando microrganismos a desenvolverem genes de resistência.

À medida que, por causa da mudança climática, as secas se tornam mais frequentes, intensas e disseminadas, micróbios que já possuem o “kit” genético capaz de lidar com esses níveis concentrados de antibióticos do solo passam a ter vantagem.

Secas e mudança climática: por que o solo vira um “laboratório”

Muito antes de a medicina moderna aproveitar esses compostos, bactérias já produziam antibióticos no solo como uma forma de obter vantagem sobre competidores microbianos.

"Da mesma forma, bactérias resistentes a antibióticos, e os genes que conferem essa resistência, são muito anteriores à medicina humana, tendo evoluído como defesas naturais contra bactérias produtoras de antibióticos", explica o ecólogo microbiano Timothy Ghaly, da Universidade Macquarie, na Austrália, que não participou do estudo, em um texto de perspectiva que acompanha a publicação.

Isso, segundo ele, "levanta uma pergunta crucial: que fatores ambientais poderiam promover a disseminação de genes de resistência a antibióticos do reservatório de bactérias do solo para o ambiente construído e para patógenos humanos clínicos?"

O que os dados em EUA, China e Europa indicam sobre bactérias resistentes a antibióticos

Para abordar essa questão, a equipe do CIT avaliou cinco conjuntos de dados de estudos com amostras de solo recolhidas nos Estados Unidos, na China e na Europa. A análise captou os efeitos da seca sobre comunidades microbianas do solo em diferentes ambientes, incluindo áreas agrícolas, pastagens, florestas e zonas húmidas.

Em todos os cinco conjuntos de dados, condições de seca vieram acompanhadas de um aumento na abundância de material genético de bactérias produtoras de antibióticos, bem como de genes já conhecidos por conferir resistência a antibióticos.

Em termos práticos, isso significa que as bactérias presentes nas amostras de solo afetadas pela seca pareciam mais preparadas para sobreviver à exposição a antibióticos.

Experimentos em laboratório: o que acontece quando o solo seca

Em experimentos de laboratório realizados em paralelo, os cientistas adicionaram um antibiótico a um ecossistema de solo em miniatura e, em seguida, secaram esse sistema para simular uma seca. Nessas condições, a concentração do antibiótico no solo aumentou.

As espécies que já eram resistentes ao antibiótico continuaram a sobreviver com a mesma facilidade em solos secos e em solos húmidos. Já as linhagens sensíveis ao antibiótico quase desapareceram no cenário de "seca".

Entre os sobreviventes estavam algumas bactérias produtoras de antibióticos (que, por definição, são naturalmente resistentes aos compostos que elas próprias produzem). No final, o solo ficou enriquecido tanto em produtores de antibióticos quanto em bactérias resistentes a antibióticos.

"Depois de estabelecer o papel da seca em amplificar a resistência a antibióticos no solo, os autores, talvez no achado mais alarmante, ligam esse fenómeno natural à saúde pública global", afirma Ghaly.

Em uma análise de hospitais em 116 países, os pesquisadores observaram uma ligação extremamente forte entre a frequência de resistência a antibióticos dentro de hospitais e o índice de aridez local - isto é, o grau de seca do clima - do lado de fora.

A associação permaneceu mesmo quando a equipe ajustou os resultados pela renda nacional, um fator que pode influenciar o uso de antibióticos e o funcionamento do sistema de saúde como um todo.

"Isso sugere que um fator central da resistência clínica opera por meio de um mecanismo ambiental global, pelo qual as condições climáticas em ecossistemas naturais podem influenciar a evolução de patógenos no ambiente construído e, em última instância, a saúde humana", escreve Ghaly.

Ainda não há evidências suficientes para afirmar que secas estejam a causar aumento de resistência a antibióticos em ambientes clínicos; porém, os resultados indicam que a mudança climática - e, em especial, as secas que ela intensifica - pode elevar os riscos.

"Nosso estudo oferece um exemplo claro de como a mudança climática tem o potencial de se cruzar com a ecologia microbiana para moldar desfechos de saúde pública… [reforçando] a importância de integrar perspectivas ambientais e clínicas… ", concluem os autores.

"À medida que a instabilidade climática se intensifica, tais abordagens integrativas serão críticas para antecipar e mitigar a trajetória global da resistência a antibióticos… "

A pesquisa foi publicada na revista Nature Microbiology.

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