Plásticos reforçados com fibra de carbono - também conhecidos como compósitos de fibra de carbono - tornaram-se essenciais na fabricação de aeronaves. Por combinarem baixo peso e alta rigidez, esses materiais se encaixam perfeitamente nas exigências do setor de aviação.
O ponto fraco inevitável aparece no processo produtivo: ao recortar o material pré-impregnado (a malha de fibra de carbono previamente impregnada com resina sintética), gera-se uma quantidade expressiva de sobra. Só dentro do Grupo Pilatus, mais de seis toneladas desse material de alto valor acabam sendo descartadas todos os anos, sem aproveitamento.
Resíduos de pré-impregnado na produção aeronáutica
Para enfrentar esse problema, a Pilatus se juntou a pesquisadores da Lucerne University of Applied Sciences and Arts (Universidade de Ciências Aplicadas e Artes de Lucerna) e da Inspire AG - parceira estratégica do Swiss Federal Institute of Technology ETH Zurich (Instituto Federal Suíço de Tecnologia ETH Zurique). O objetivo é avaliar se esse resíduo de produção pode ser reciclado e reinserido diretamente no próprio processo de construção de aeronaves.
O estudo terá duração de 32 meses e pretende construir, ao mesmo tempo, o embasamento científico e a validação prática necessários para uma eventual aplicação futura. A proposta do trabalho parte do meio acadêmico, mas a Pilatus entra como parceira industrial com acesso a materiais, ambiente fabril e know-how para colocar a ideia à prova em condições próximas do mundo real - funcionando como ligação decisiva entre o laboratório e uma possível adoção na linha de produção.
“O projeto começou como resultado de discussões interdisciplinares intensivas entre todos os parceiros”, diz Dr. Jan Kraner da Lucerne University of Applied Sciences and Arts. “Este processo conjunto foi fundamental para passar da ideia à sua implementação.”
Parcerias e apoio da Innosuisse
A iniciativa também conta com um respaldo relevante da Innosuisse, a Agência Suíça de Inovação. A entidade seleciona e incentiva projetos em que empresas e instituições de pesquisa trabalham juntas para criar novos processos ou produtos, com prioridade para ganhos diretos à indústria.
“O fato de a Innosuisse ter escolhido alocar uma contribuição financeira substancial ao estudo pilotado pela Lucerne University of Applied Sciences and Arts, Inspire AG e Pilatus, é um reflexo de sua relevância ecológica, econômica e tecnológica”, diz Urs Thomann, Diretor de Tecnologias, Processos e Sustentabilidade na Pilatus. “Ao mesmo tempo, a cooperação próxima com nossos parceiros de pesquisa cria condições ideais para explorar o potencial de materiais de resíduos de alto valor de forma ainda melhor, e para colocar rapidamente novas soluções em prática.”
Processo proposto e ganhos para a Pilatus
No centro da pesquisa está um caminho considerado inovador. Primeiro, os resíduos pegajosos de pré-impregnado passam por aquecimento controlado, o que reduz suas propriedades adesivas e viabiliza o processamento mecânico. Em seguida, o material é picado em pequenos fragmentos e, antes de ser endurecido, é moldado em novos componentes por meio de um processo especial de prensagem.
Na aviação, essa rota é considerada inédita porque, hoje, não há um método industrial consolidado que transforme diretamente resíduos de pré-impregnado não utilizados em peças novas.
De acordo com a Pilatus, a relevância do projeto é múltipla. “Primeiro, reciclar este material oferece uma oportunidade de reduzir significativamente os resíduos de nossas próprias operações de produção. Segundo, pode ser possível substituir certas peças de alumínio por peças de carbono, gerando economias de até 36 toneladas de alumínio por ano”, comenta Urs Thomann.
Reduzir o consumo de materiais significa diminuir o impacto ambiental ligado à fabricação e, potencialmente, resultar em aeronaves mais leves. Além disso, cada quilograma poupado ajuda no esforço de reduzir a pegada de carbono.
O estudo também conversa com uma tendência clara do mercado: levantamentos recentes apontam que a redução da pegada ecológica já pesa cada vez mais nas decisões de compra de aeronaves - e deve se tornar um critério determinante para um grupo crescente de clientes nos próximos cinco a dez anos.
A cooperação com a Lucerne University of Applied Sciences and Arts e a Innosuisse já deixou evidente o potencial da reciclagem de materiais de alto valor. Para a Pilatus, o trabalho representa um passo prático rumo ao melhor aproveitamento de insumos, à redução de descarte e à condução ativa da inovação. Também reforça a necessidade de “pensar fora da caixa”: em vez de tratar sobras como algo indesejado, passar a enxergá-las como recursos valiosos.
Isso traz benefícios ambientais e, ao mesmo tempo, pode converter o tema em um vetor econômico ligado à rentabilidade. Com os parceiros de pesquisa, a Pilatus afirma estar contribuindo para criar um degrau importante rumo a uma economia circular de fato na produção de aeronaves e a um uso mais sustentável de recursos de alto valor. Nos próximos anos, será possível avaliar se o projeto entrega uma solução e um resultado bem-sucedido.
Informações da Pilatus
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