Das “lojas dos 300” ao início da Volkswagen na China
Você se lembra do fenômeno das “lojas dos 300”? Se a minha memória não falha, estávamos em 1991. Eu tinha, no máximo, cinco anos. Morava em Grândola. É bem provável que, nas cidades maiores, isso tenha começado um pouco antes.
Para quem é mais novo - e provavelmente não faz ideia do que eu estou mencionando - as “lojas dos 300” eram uma espécie de prévia das atuais lojas de chineses. O nome vinha do preço: tudo custava 300 escudos, o equivalente a € 1,50.
Quase tudo o que se vendia ali vinha da China. Ao mesmo tempo, do outro lado do planeta, enquanto a gente aqui na Europa era inundado por quinquilharias chinesas, os chineses, por sua vez, eram inundados por carros “europeus”. Coloquei “europeus” entre aspas porque, para entrar na China, as marcas ocidentais precisavam operar com um parceiro local.
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Assim, enquanto eu escolhia, na Europa, entre uma Tartaruga Ninja e um Super-Homem falsificado, é bem possível que, na China, alguém estivesse escolhendo um Volkswagen. Em 1993, a Volkswagen era a marca mais vendida no mercado chinês.

© Volkswagen - A hegemonia da Volkswagen na China começou em 1993, com o Santana (na imagem), e durou 30 anos. Ela foi quebrada em 2023, pela BYD.
Carros chineses e carros europeus: estereótipos sob pressão
De lá para cá, o mundo mudou demais. É verdade que os produtos de loja chinesa ainda não são exemplo de qualidade, mas, quando o assunto é automóvel, a história já é outra. E isso também vale para software, eletrônicos e quase todas as outras áreas da economia moderna.
A ideia de que “os carros chineses não prestam” simplesmente deixou de colar. E o discurso de que “os carros europeus são muito bons” também já teve mais força. A pressão aumentou dos dois lados: diante das melhores marcas chinesas, uma Audi ou uma Mercedes já não se resolve só com a bandeira da qualidade. E, para as marcas chinesas, também não basta levantar a bandeira do preço.
Do lado europeu, é hora de subir o nível. Ainda fazemos os melhores carros como conjunto - dinâmica, conforto, qualidade geral, refinamento -, mas os chineses já não estão a quilômetros de distância. Em alguns casos, eles já empataram e até passaram o que a indústria europeia consegue entregar de melhor.
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Na prática: o que eu vi no German Car of the Year
Vou dar um exemplo bem direto. Na semana passada, dirigi mais de 40 carros, de várias partes do mundo - europeus, chineses, americanos, sul-coreanos, entre outros - em mais uma edição dos testes de verão do German Car of the Year. É uma chance rara de colocar, frente a frente, todos os tipos de automóveis. “Sem qualquer sentimento de patriotismo bacoco… acreditem, nós ainda sabemos fazer carros.”
E foi exatamente essa a sensação que ficou. Saí do novo Mercedes-Benz Classe S e entrei direto no novo Denza Z9GT. O carro-chefe chinês é mais rápido, traz mais tecnologia, mais equipamentos e mais gadgets, mas ainda não consegue encostar no Classe S quando o assunto é refinamento geral.

São mais de 1000 cv de potência. Fico com a impressão de que o Denza Z9 GT está se esforçando demais.
Na rodovia, por exemplo, onde o Classe S transmite mais segurança, estabilidade e confiança, o modelo chinês parece mais agitado e menos “assentado”. Atenção: estamos falando do melhor que Alemanha e China têm a oferecer, então coloquem minhas palavras na devida perspectiva.

Mais tradicional, mais maduro - e também 50 mil euros mais caro. O Classe S ainda faz jus ao dinheiro que a Mercedes cobra por ele.
Mas também vi o contrário acontecer. O novo Mercedes-Benz VLE ficou alguns níveis abaixo da experiência que encontrei no Xpeng X9. Duas minivans gigantes, cheias de espaço e equipamentos, mas o X9 entrega um conjunto melhor do que o VLE. Os bancos, a lista de itens e o cuidado com os detalhes são superiores no carro chinês - em breve vou publicar um comparativo mais aprofundado. Alguns anos atrás, isso era quase impensável. Hoje, é fato.

Dois pesos-pesados. Mais de 5,3 metros de comprimento e mais de duas toneladas e meia. Ambos 100% elétricos.
O mundo mudou. Mas também é verdade que não mudou a ponto de garantir a sobrevivência das marcas chinesas apenas pelo preço. Agora é preciso trabalhar percepção. Uma MG ou uma Forthing não são a mesma coisa que uma Zeekr ou uma Xpeng. A origem pode ser a mesma; posicionamento, ambição e qualidade, nem sempre.
Para as marcas europeias, o desafio é justamente o inverso. A percepção ainda joga a favor, mas ela não dura para sempre sem uma resposta à altura. Continuamos fazendo carros excelentes, só que o resto do mundo está cada vez mais perto. A realidade já não cabe em caricaturas.
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Qual destas marcas projetou um “carro do povo” para a China?
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Este foi o “Dacia Logan” da Porsche para a China
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Sobre o autor
Guilherme Costa - Desde muito cedo, trocou os brinquedos por revistas de automóveis. Movido por essa paixão, em 2012 fundou a Razão Automóvel.
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