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Biofilme biodegradável da Georgia Tech para substituir embalagens plásticas

Jovem cientista em laboratório embrulha frutas vermelhas com filme plástico transparente em bancada.

Ele tem atributos superiores aos do plástico derivado do petróleo e, ainda assim, é totalmente biodegradável: dá para apostar nele como saída para a nossa dependência de embalagens poluentes?

De acordo com a CVP Packaging, "460 milhões de toneladas de resíduos plásticos são produzidos todos os anos", e uma fatia considerável desse volume vai direto para a fabricação de embalagens. O resultado é uma contaminação disseminada que acaba alcançando ecossistemas inteiros e as cadeias alimentares - até chegar ao nosso próprio organismo e ao cérebro, na forma de nanoplásticos.

O chamado "material milagroso" que se popularizou nos anos 1950 virou, em menos de um século, um peso ambiental do qual não conseguimos nos livrar. Alternativas vêm sendo estudadas há muito tempo, mas ainda faltava aparecer um substituto capaz de convencer a indústria a abandonar por completo o plástico de origem petroquímica. Um sinal de que essa virada pode ser possível surgiu agora: um grupo da Georgia Tech publicou, na revista ACS Applied Polymer Materials, um estudo sobre um biofilme feito apenas com componentes naturais e que se mostra mais eficiente do que alguns dos plásticos mais usados.

A crise das embalagens plásticas e a busca por substitutos

Bioplásticos não são novidade, porém costumam esbarrar em duas vantagens importantes do plástico convencional: a capacidade de barrar a umidade do ambiente e o oxigênio. São características decisivas quando o objetivo é embalar e conservar alimentos, além de aplicações em medicamentos, produtos farmacêuticos e até itens eletrônicos.

Biofilme biomolecular da Georgia Tech com características únicas

Para contornar essa limitação, os pesquisadores da Georgia Tech dizem ter chegado a uma fórmula que combina três ingredientes naturais que se complementam. A base estrutural do filme é a celulose (a molécula orgânica mais abundante do planeta e principal componente da madeira e de plantas), que funciona como matriz rígida.

A essa matriz, o grupo incorporou quitosana (um polissacarídeo obtido de fungos e de resíduos de crustáceos), cuja função é impedir que o material inche ao absorver umidade. Para conectar esses dois polímeros, foi usado ácido cítrico, que atua como agente de reticulação ao criar ligações adicionais entre a celulose e a quitosana.

Depois de aquecida em forno, essa combinação dá origem ao filme final: uma malha densa e uniforme, capaz de dificultar a passagem tanto de umidade quanto de oxigênio.

Desempenho em ambientes úmidos e comparação com PET e EVOH

O autor principal, Yang Lu, relata que o material foi testado "em condições quentes e úmidas simulando os trópicos" - com 80% de umidade, um nível que normalmente compromete a maior parte dos bioplásticos. Ainda assim, segundo ele, o biofilme conseguiu manter a impermeabilidade.

Mesmo nessas condições, o desempenho de proteção não foi perdido: o material se mostrou competitivo com o PET (politereftalato de etileno) e com o EVOH (álcool vinílico etileno), dois plásticos muito utilizados para proteger alimentos do contato com o ar.

Patente, apoios e obstáculos para adoção em escala

A patente já foi solicitada e, por enquanto, a iniciativa conta com apoio financeiro de três instituições de peso: a Mars Inc. (grande nome do setor de alimentos), o Renewable Bioproducts Institute (centro de pesquisa da Georgia Tech dedicado a materiais de base biológica) e até o Departamento de Defesa dos Estados Unidos, que também endossou o projeto.

Isso, porém, não garante que o biofilme vá conquistar a indústria como um todo. Neste momento, não dá para cravar - embora a tecnologia apareça em um cenário oportuno, com regulações na Europa e nos Estados Unidos apertando o cerco contra plásticos não recicláveis. Ainda assim, antes de ser fabricado e adotado em larga escala, o material precisará passar por uma série de certificações, um caminho que pode, infelizmente, levar muitos anos.

Enquanto isso, a petroquímica segue com uma vantagem importante: seus materiais são extremamente baratos e fabricados em volumes gigantescos. Um avanço científico nem sempre se traduz em sucesso comercial, e é justamente na etapa de industrialização que muitos projetos desse tipo já ficaram pelo caminho. Tomara que, desta vez, não seja assim.

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