Um novo estudo concluiu que as girafas conseguem fazer um tipo simples de adição mental.
No experimento, quatro girafas de um zoológico espanhol observaram cenouras serem colocadas em montes de comida ocultos, que depois deixavam de estar ao alcance da visão. Em seguida, elas escolheram de forma consistente o recipiente com a maior quantidade.
Essa decisão só é coerente se os animais estiverem acompanhando as quantidades e combinando os valores mentalmente.
Com isso, as girafas entram em um grupo ainda restrito de espécies - em geral primatas e aves - que demonstram capacidade de somar itens fora de vista.
O resultado também enfraquece a ideia antiga de que habilidades numéricas desse tipo seriam exclusivas dos humanos e de seus parentes mais próximos.
Testando a matemática das girafas
O estudo foi realizado no Zoológico de Barcelona. Iker Loidi, pesquisador da Universidade de Barcelona (UB), posicionou quatro girafas diante de uma mesa baixa com três recipientes fechados.
As girafas pertencem aos ungulados - mamíferos com casco - e, até então, ninguém havia avaliado esse grupo em tarefas numéricas com quantidades escondidas.
Loidi colocou três potes sobre a mesa: dois amarelos e um verde. Os dois amarelos continham pedaços de cenoura que as girafas tinham visto por pouco tempo; o verde guardava as cenouras que seriam adicionadas. Cada pote abria apenas para o lado de Loidi, de modo que, ao abaixar as tampas, os animais não conseguiam ver o conteúdo.
Primeiro, ele abriu os dois recipientes amarelos por cinco segundos e depois os fechou. Na sequência, despejou de uma a três cenouras do recipiente verde dentro de apenas um dos amarelos, colocando os pedaços um a um. Para evitar que um deles parecesse “especial”, ele tocou rapidamente nos dois potes amarelos e, então, levantou-os para que a girafa escolhesse.
As girafas não chegaram a ver o monte final já combinado. Para acertar, precisavam manter na memória as duas quantidades iniciais e atualizar uma delas conforme as cenouras iam sendo adicionadas.
Esse resultado oculto era o elemento central do desenho experimental, já que, se o animal ainda pudesse enxergar a comida, poderia simplesmente comparar o que estava à sua frente.
A adição parece fácil
Na tarefa de somar, as quatro girafas escolheram o monte maior mais vezes do que o esperado pelo acaso, acertando o recipiente correto em cerca de dois terços das tentativas.
Os dados indicam que elas não estavam apenas “chutando”. Elas conseguiram combinar até três cenouras em montes que chegavam a cinco, um intervalo parecido com o que alguns macacos apresentam em testes semelhantes.
O cenário mudou quando a tarefa foi invertida. Quando Loidi retirava cenouras de um monte em vez de adicioná-las - o equivalente à subtração - as girafas não foram melhores do que um “cara ou coroa”. Elas também não passaram por uma versão mais difícil, na qual as cenouras eram tiradas de um monte e transferidas para o outro.
Essa diferença é compatível com o que ocorre em humanos: subtrair costuma ser mais difícil do que somar. Além disso, tende a aparecer mais tarde no aprendizado infantil da contagem. A subtração depende mais de áreas cerebrais ligadas ao raciocínio lento e deliberado do que de um processamento rápido e automático.
“Esses resultados são consistentes com o que observamos em humanos: há diferenças individuais na resolução de problemas numéricos e, em geral, a subtração é mais difícil do que a adição”, disse Loidi.
De forma curiosa, pintinhos recém-nascidos já conseguiram justamente a tarefa de transferência que confundiu as girafas. Um estudo anterior associou isso à necessidade de acompanhar irmãos agrupados em torno da mãe.
Verificando se era adição de verdade
Um cético poderia questionar se as girafas realmente estavam somando ou apenas seguindo um gesto de mão. A equipe estruturou a análise para detectar esse tipo de atalho.
Em princípio, um animal poderia ter um bom desempenho simplesmente escolhendo o pote que Loidi havia tocado por último nas rodadas de adição - ou evitando esse pote nas rodadas de retirada.
Duas das quatro girafas - Nakuru e Yalinga - só tiveram sucesso nas tentativas que poderiam ser explicadas por esse “truque do toque”.
As outras duas, Nuru e Njano, continuaram escolhendo corretamente mesmo quando seguir o recipiente tocado levaria ao erro. Isso aponta para um cálculo mental real, ao menos nesses dois animais.
Nuru também chamou atenção por outro motivo. Em experimentos anteriores sobre números com girafas, ela já havia se destacado, inclusive em um estudo que mostrou que os animais escolhem o maior entre dois montes de comida de acordo com uma lei básica da percepção.
Variações individuais desse tipo também aparecem entre primatas, cães e outros animais avaliados em tarefas de quantidade.
Por que as girafas poderiam “contar”
É improvável que habilidades numéricas assim tenham evoluído para que girafas resolvessem quebra-cabeças com cenouras.
Na natureza, as girafas vivem em grupos soltos que se separam e voltam a se reunir, e se alimentam em árvores espaçadas, especialmente acácias distribuídas pela savana. Acompanhar de modo aproximado “quantos” e “quanto” pode ajudar tanto na alimentação quanto na segurança.
Em particular, uma dieta dispersa pode favorecer um animal capaz de estimar onde há comida e em que quantidade.
Depender de adivinhação custa energia. Trabalhos anteriores já mostraram girafas tomando decisões com base em qual opção, com mais frequência, oferecia um petisco preferido - um tipo de raciocínio estatístico aproximado descrito em um artigo de 2023.
Além de uma única espécie
A contribuição do estudo é direta. Até aqui, sabia-se que girafas comparam quantidades que conseguem ver.
Este experimento indica que pelo menos duas delas conseguem combinar quantidades fora do campo de visão, sem se apoiar em um sinal simples.
“Essas descobertas ajudam a desafiar uma visão excessivamente antropocêntrica da cognição e destacam a importância de estudar uma diversidade maior de grupos e espécies”, disse Loidi.
Os próximos passos incluem testar mais animais e separar se as girafas acompanham o número de itens ou o volume total, o que mostraria até onde vai esse senso numérico.
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