Oito meses após colocar seu serviço de robotáxi em operação em Austin, a Tesla apresenta um histórico de acidentes que chama atenção. Foram 14 colisões em 1,3 milhão de quilômetros rodados, o que significa que a frota autônoma se envolve em batidas quatro vezes mais do que um motorista humano médio - e Elon Musk tratou de não destacar esse dado.
Quando Musk diz que seus veículos autônomos são “dez vezes mais seguros do que um motorista humano”, a expectativa é ver algo minimamente alinhado nos números. Só que os dados oficiais enviados pela própria Tesla à NHTSA, a agência federal de segurança viária dos EUA, apontam justamente o oposto.
Desde o lançamento do serviço de robotáxi em Austin, em junho de 2025, a frota de Model Y autônomos da Tesla somou cerca de 800.000 miles (1,3 milhão de quilômetros). Em janeiro de 2026, cinco relatórios de acidentes foram encaminhados à NHTSA, elevando o total para 14 incidentes reportados.
Na prática, isso equivale a uma ocorrência a cada 57.000 miles, ou aproximadamente 92.000 quilômetros. O número ganha outra dimensão quando comparado ao próprio relatório de segurança da Tesla (Relatório de Segurança do Veículo), que afirma que um motorista médio nos EUA passa por um acidente leve a cada 229.000 miles e por uma colisão grave a cada 699.000 miles. Pelos próprios parâmetros divulgados pela empresa, os robotáxis acabam envolvidos em acidentes quatro vezes mais frequentemente do que um humano ao volante.
E, se a referência for a estatística da NHTSA para acidentes que geram registro policial (algo em torno de um a cada 500.000 miles), a diferença sobe para oito ou nove vezes.
Talvez o ponto mais inquietante nem seja apenas o índice geral, mas a tendência: cinco dos 14 acidentes - ou 36% - aconteceram nos dois últimos meses desse balanço. Em outras palavras, conforme o tempo avança, a frota acumula incidentes em ritmo mais acelerado.
Seria fácil tentar reduzir a gravidade com base no tipo de ocorrência. Entre os cinco acidentes mais recentes, há, de fato, duas manobras de ré contra objetos fixos a 1–2 mph (cerca de 2–3 km/h), típicas de “encostões” de estacionamento. Ainda assim, o panorama total é mais complexo: a frota atingiu cinco veículos, cinco objetos fixos, um ciclista e um animal. Um dos impactos - uma colisão a apenas 2 mph (cerca de 3 km/h) contra um SUV - chegou a resultar em hospitalização. E é justamente esse caso que merece mais atenção.
Cinco meses para admitir uma hospitalização
O episódio em questão ocorreu em julho de 2025, nas primeiras semanas de operação do serviço. Naquele momento, a Tesla o registrou junto à NHTSA como se fosse apenas um caso de “apenas danos materiais”. Só em dezembro de 2025 a companhia enviou uma versão corrigida, mencionando um ferimento leve com hospitalização.
Foram cinco meses para reconhecer que um de seus veículos autônomos levou alguém ao hospital. Musk estaria tentando “varrer para debaixo do tapete”? É o que sugere a própria NHTSA, que já abriu uma investigação sobre a Tesla por atrasos sistemáticos na comunicação de acidentes - com alguns relatórios chegando apenas muitos meses depois dos fatos. Para piorar, os documentos são amplamente tarjados, o que praticamente impede qualquer análise independente.
Há outro detalhe relevante: quase a totalidade dessas 800.000 miles foi rodada com um monitor de segurança a bordo - um operador treinado, sentado no carro, pronto para assumir o controle ou acionar o botão de parada de emergência diante de qualquer problema. Mesmo com esse “colchão” humano, os 14 acidentes ocorreram. E não há como saber quantos incidentes adicionais foram evitados graças a intervenções desse monitor.
Esse contexto torna ainda mais estranha a decisão da Tesla de iniciar corridas sem qualquer monitor de segurança no fim de janeiro de 2026, poucos dias depois de ter registrado quatro acidentes na primeira quinzena do mês. O próprio Musk já admitiu que a Tesla precisa de 10 bilhões de miles de dados para uma “condução autônoma não supervisionada segura”, patamar que a frota não deve alcançar antes de julho de 2026, no cenário mais otimista. Ainda assim, o serviço comercial sem monitor já está em funcionamento.
A Tesla também pretende ampliar a operação para sete novas cidades dos EUA (Dallas, Houston, Phoenix, Miami, Orlando, Tampa, Las Vegas) no primeiro semestre de 2026, além de preparar o lançamento do Cybercab, um veículo sem volante nem pedais. Musk afirmou querer fabricar “bem mais Cybercab do que todos os nossos outros veículos somados”. Só é bom tomar cuidado para a ambição não terminar em saída de pista.
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Algumas nuances
Por honestidade intelectual, vale relativizar esses números. Primeiro, a amostra ainda é estatisticamente pequena (14 acidentes em 800.000 miles, com cerca de quarenta veículos). Uma ocorrência a mais ou a menos já muda o resultado de forma relevante.
Além disso, os robotáxis da Tesla rodam apenas em áreas urbanas densas, onde a chance de pequenas colisões é maior do que em rodovias ou regiões rurais. Já as médias humanas usadas como comparação misturam todos os cenários de tráfego. Assim, em condições equivalentes de circulação, é provável que o indicador real seja um pouco menos desfavorável do que o ×4 apresentado.
“Não sabemos ainda se uma viagem de robotáxi tem mais ou menos chance de provocar um acidente do que uma viagem equivalente conduzida por um humano.”, explica David Zipper, pesquisador da MIT Mobility Initiative.
Ainda assim, a distância entre o discurso da Tesla e o que os dados mostram é enorme. Talvez a questão não seja apenas a taxa de acidentes em si, mas a nebulosidade que a Tesla deliberadamente cria em torno desses episódios. Sobretudo, o contraste gritante entre as promessas de Musk e o desempenho real da frota pega mal num momento em que a condução autônoma ainda desperta desconfiança entre consumidores.
Waymo segue em frente
Enquanto isso, a Waymo, serviço desenvolvido pelo Google, aparenta estar num estágio bem mais maduro. A operação já conta com mais de 3.000 veículos totalmente autônomos em seis cidades dos EUA e realiza mais de 400.000 corridas por semana. E o índice de acidentes? Algo como um a cada 98.000 miles, considerando mais de 127 milhões de miles percorridas sem nenhum motorista a bordo - um resultado claramente melhor que o da Tesla e obtido, ainda por cima, sem “rede de proteção” humana.
Claro que a Waymo não é imune a críticas: um de seus veículos recentemente atingiu uma criança perto de uma escola em Santa Monica, e há investigações em andamento por ultrapassagens de ônibus escolares parados. Mesmo assim, a diferença de escala e de maturidade tecnológica é evidente. Enquanto a Waymo usa uma arquitetura com múltiplos sensores (LiDAR, radar, câmeras), a Tesla aposta exclusivamente na visão por câmeras. Musk, por sua vez, considera o LiDAR uma “muleta” desnecessária. Os dados de Austin enfraquecem bastante essa tese.
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