As reações à divulgação da proposta da Euro 7 foram imediatas, com a Associação Europeia de Construtores de Automóveis (ACEA) na linha de frente das críticas.
Para a principal entidade representativa das montadoras na Europa, o texto - que ainda precisa passar pelo Conselho de Ministros da UE e pelo Parlamento Europeu - tem dois pontos fracos centrais: o ganho ambiental seria muito pequeno e, ao mesmo tempo, o efeito sobre o preço dos carros novos seria grande demais.
Em nota oficial, a ACEA não economiza críticas à proposta apresentada pela União Europeia para a norma Euro 7.
Comissão Europeia e ACEA discordam
Segundo a Comissão Europeia, até 2035 a Euro 7 terá ajudado a reduzir as emissões totais de NOx (óxidos de nitrogênio) em 35% nos veículos leves (em comparação com a Euro 6) e em 56% nos veículos pesados (Euro VI).
A ACEA contesta esses resultados e apresenta estimativas diferentes. De acordo com estudos citados pela associação, a queda seria de apenas 5% nas emissões de NOx dos veículos leves e de 2% nos veículos pesados.
Na visão da ACEA, se a intenção é maximizar o efeito da redução de NOx - poluentes associados a danos à saúde humana - o foco deveria estar, sobretudo, na renovação da frota.
Em outras palavras, em vez de tornar as regras de emissões ainda mais rígidas, a Comissão Europeia e a indústria automotiva deveriam concentrar esforços em diminuir a idade média dos carros em circulação na Europa.
Para a ACEA, o «inimigo nº1» no combate às emissões é o envelhecimento galopante dos automóveis a circular na Europa.
A associação acrescenta que esse caminho, combinado com a eletrificação em andamento - com as vendas de carros elétricos seguindo em alta -, permitiria alcançar uma redução de 80% das emissões de NOx em 2035, tomando como referência os níveis de 2020.
Sobre o impacto da Euro 7 nos custos dos veículos, Comissão Europeia e ACEA voltam a divergir.
Pelas contas da Comissão, o custo dos veículos leves subiria entre 90 euros e 150 euros, enquanto nos pesados (carga e passageiros) o aumento seria de cerca de 2600 euros. A ACEA é menos otimista: projeta restrições relevantes, principalmente nos segmentos mais acessíveis, em que é mais difícil “absorver” o efeito no preço final.
Impacto mais pesado… nos pesados
É justamente no efeito da Euro 7 sobre os veículos pesados - em especial os de transporte de mercadorias - que a ACEA concentra as críticas mais duras, como afirmou em comunicado:
A proposta da Euro 7 é particularmente severa para os camiões. Negligencia completamente a aceleração rápida de mudança para veículos zero emissões, e ignora também o efeito das futuras metas de CO2 para veículos pesados.
Caso seja aprovada, a Euro 7 passará a adotar um conjunto único de regras para limites de poluentes, independentemente do tipo de veículo ou do combustível. Esses limites foram alinhados aos já existentes (Euro 6) para motores a gasolina em veículos leves, que são os mais exigentes.
Por isso, Martin Lundstedt, diretor executivo do Grupo Volvo e integrante do conselho da ACEA para veículos comerciais, faz um alerta: “os fabricantes de camiões vão ter de desviar recursos financeiros e de engenharia substanciais dos veículos a bateria e fuel cell de novo para o motor de combustão interna”.
Na avaliação do executivo, isso acabaria por ter um “impacto severo na transição para veículos de zero emissões”.
Por fim, a ACEA afirma que os prazos previstos para a implementação da Euro 7 - julho de 2025 para veículos leves e julho de 2027 para veículos pesados - são “irrealistas”. A justificativa é o grande número de modelos e variações que precisam ser “desenvolvidos, testados e certificados antes disso”, o que amplia riscos de complexidade e de custos elevados.
“Chocantemente fracas”
Se, do lado da ACEA (representando a indústria), a Euro 7 recebe críticas, entidades ambientais também atacam a proposta - ainda que por razões diferentes. Isso fica claro nas declarações divulgadas pela Transport & Environment, um dos principais grupos de defesa do meio ambiente ligados ao tema de transportes.
Logo de início, a organização diz que a “Comissão Europeia deu prioridade aos lucros dos fabricantes automóveis num falhanço histórico para reduzir a poluição tóxica dos automóveis e camiões”.
A entidade reforça a acusação afirmando que a Comissão ignorou as recomendações de seus próprios especialistas - reunidos em um consórcio chamado CLOVE (Consortium for ultra Low Vehicle Emissions) - ao definir novas regras para limitar emissões automotivas que não sejam CO2.
Vale lembrar que o CLOVE havia sugerido cortar as emissões de NOx em 50% e as de partículas em 80%.
A Transport & Environment afirma ser “agora crítico que o Parlamento Europeu (que ainda tem de aprovar a proposta da Comissão Europeia) reforce estas regras chocantemente fracas ou simplesmente as rejeite”.
Outras associações, como a dos fornecedores CLEPA e a dos fabricantes de catalisadores AECC, direcionam a atenção para outro ponto: que os detalhes técnicos dessas regras sejam definidos o quanto antes, para que haja tempo de desenvolver e testar as tecnologias necessárias.
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