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Europa e o futuro do cristianismo segundo Gina Zurlo até 2075

Grupo multicultural de jovens observando globo terrestre em praça histórica com livros em mesa.

A Europa costuma encarar as projeções da pesquisadora Gina Zurlo (link) sobre o amanhã do cristianismo por dois caminhos previsíveis: ou lamenta o fantasma da grande substituição, ou celebra a grande conversão africana. O fato é que, de acordo com Zurlo, em 1975 o Norte Global concentrava 54% dos cristãos do planeta. Cinquenta anos depois, em 2025, essa fatia recua para menos de um terço.

Projeções de Gina Zurlo e a mudança do eixo do cristianismo (Europa, África e 2075)

E daqui a mais cinquenta anos, em 2075? As estimativas não dão margem a suavizações: somente 10% dos cristãos do mundo estarão no Velho Continente, enquanto a África reunirá quase metade desse total (47%). Não se trata apenas de demografia, embora seja difícil competir com 5,8 filhos por mulher na República Democrática do Congo e 4,2 na Nigéria quando a Europa mal consegue ter filhos suficientes para sustentar as próprias aposentadorias. A explicação pode estar numa regra básica de mercado: oferta e demanda.

Oferta e demanda: o modelo da economia religiosa

Vale entrar no escritório dos teóricos do modelo da economia religiosa (link). O argumento central deles afirma que a vitalidade religiosa varia de modo inverso ao grau de regulação estatal. Em outras palavras: quanto mais controle, menos vitalidade. A Europa, ao longo da história, operou com monopólios espirituais. Igrejas oficiais, repasses públicos e privilégios institucionais tendem a produzir uma “oferta preguiçosa”. Sob um protecionismo estatal mais ou menos explícito, a Igreja europeia foi deixando de inovar, de atrair e de competir - ao menos na medida necessária. O resultado é uma oferta religiosa fraca, burocratizada e sem vigor, servida em catedrais cheias de arte e liturgia.

Sul Global, desregulação e o risco político de controlar a fé

Enquanto isso, no Sul Global - onde Nigéria e República Democrática do Congo se preparam para superar os EUA no número de cristãos - o panorama é o de um mercado pouco regulado e cheio de energia. Nesses lugares, o custo de oportunidade político para restringir a religião é alto demais; o poder de barganha das igrejas africanas é maior, e os políticos acabam sem alternativa a não ser aceitar a desregulação. Ali, a religião funciona como ferramenta cotidiana de esperança e salvação. A oferta é de alta octanagem porque precisa responder a uma demanda real por sentido e por amparo.

A reaproximação atual entre a esfera política e a esfera religiosa no Norte Global - e além dele -, com promoção e controle que venho descrevendo em outros artigos (link), pode sufocar o próprio propósito missionário e salvífico da religião. Quando a fé vira um enfeite institucional, decorativo, dependente do interesse de atores políticos, ela perde autonomia e poder de negociação. O cristianismo no Norte Global, especialmente na Europa, corre o risco de virar um serviço público tão empolgante quanto um guichê da Previdência Social, em vez de ser um “movimento”, como ocorre na África e no restante do Sul Global.

A Europa, que já exportou missionários para “civilizar” o mundo, caminha para se tornar destino turístico da fé cristã de outros. Em 2075, se a tendência continuar, o cristianismo será majoritariamente miscigenado, negro e do Sul. A Europa, que se via como proprietária exclusiva da Cruz, passará a ser sua zeladora de museu.

O mercado não mente: quando a oferta deixa de cumprir o papel de entusiasmar, o fiel troca de balcão. Vamos assistir ao centro da cristandade migrar do Tibre para o rio Congo? O Papa Leão XIV parece atento a essa virada, a julgar pelo continente escolhido para sua primeira viagem apostólica.

A ironia final está nos políticos de perfil mais nacionalista e identitário que, por convicção ou por cálculo, tentam recuperar uma matriz judaico-cristã para o Norte Global. Ao delimitar suas áreas de influência moral e territorial, eles protegem e monopolizam o religioso para fins políticos, fazendo exatamente o que os teóricos dizem que se deve evitar. Quando a oferta religiosa deixa de ser percebida como autêntica, sua capacidade de atrair e manter fiéis inevitavelmente diminui diante de alternativas. Por isso, quer chorem a grande substituição quer se alegrem com a nova evangelização, é bom saber: ao usar a religião como muleta política, só se acelera a queda do peso relativo do cristianismo na Europa - se a tendência apontada por Zurlo se mantiver.

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