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Soldados romanos em Vindolanda tinham parasitas perto da Muralha de Adriano

Mãos manipulando amostra de solo em petri com microscópio, mapa, tubos e laptop ao ar livre.

Soldados romanos aquartelados no forte de Vindolanda, nas proximidades da Muralha de Adriano, no norte da Inglaterra, conviviam com parasitas que minavam a sua capacidade de combate.

Além de túnicas infestadas de piolhos e narizes escorrendo, a força militar de Roma pode ter enfrentado infeções intestinais persistentes que provocavam diarreia, cólicas abdominais e náuseas, segundo um estudo arqueológico realizado em conjunto por investigadores de Cambridge e Oxford.

"Embora os romanos soubessem da existência de vermes intestinais, havia pouco que os seus médicos pudessem fazer para eliminar a infeção por esses parasitas ou ajudar quem sofria de diarreia, o que significa que os sintomas podiam persistir e piorar", afirma Marissa Ledger, arqueóloga da Universidade McMaster, no Canadá, que co-liderou o estudo enquanto concluía o doutorado em Cambridge.

"Essas infeções crônicas provavelmente enfraqueciam os soldados, reduzindo a aptidão para o serviço. Só os helmintos podem causar náusea, cólicas e diarreia."

O que os sedimentos de esgoto de Vindolanda revelaram

Para investigar o problema, a equipa examinou pouco menos de 60 amostras de sedimentos de drenos de esgoto - contendo fezes antigas e outros resíduos - que foram arrastados para fora do forte e de povoamentos próximos. O material analisado data do século III d.C.

Esse acúmulo de detritos veio do dreno da latrina do forte, que conduzia os dejetos até um riacho ao norte do sítio.

Mesmo com infraestrutura, os militares ainda eram atingidos por infeções intestinais. Entre os parasitas identificados estavam lombrigas e tricocéfalos e, possivelmente, Giardia, um organismo microscópico unicelular associado à diarreia.

Para os investigadores, essa última deteção é particularmente relevante - embora não fosse nada animadora para os soldados da época - porque representa a primeira evidência de Giardia duodenalis na Britânia romana.

Vida diária no forte e a Muralha de Adriano

Escavações arqueológicas anteriores na região já tinham revelado uma grande quantidade de materiais orgânicos preservados no solo encharcado de Vindolanda. Entre os achados estão mais de 5.000 sapatos de couro, um falo de madeira e mais de 1.700 tábuas finas de madeira com inscrições em tinta, que registam hábitos do quotidiano no forte.

Esse dia a dia militar girava em torno da vigilância da Muralha de Adriano, logo ao norte de Vindolanda. Construída no início do século II d.C., a muralha é uma fortificação defensiva que se estende de leste a oeste, do Mar do Norte ao Mar da Irlanda.

Para tornar a ocupação nessa fronteira romano-britânica menos penosa, o forte contava com termas, sanitários e água potável. Ainda assim, as infeções intestinais persistiam.

Higiene, surtos e comparação com outros sítios romanos

Apesar do complexo de banhos e das comodidades já citadas, surtos ocorreram por causa de práticas sanitárias inadequadas. Em particular, a contaminação fecal em alimentos, na água e nas mãos dos próprios soldados contribuiu para espalhar os parasitas dentro do forte - e ao longo do tempo. Amostras recolhidas numa fortificação construída em 85 d.C. também apresentavam lombrigas e tricocéfalos.

Com isso, quem era afetado podia adoecer gravemente por desidratação, em resultado de infeções crônicas que se arrastavam por semanas, "causando fadiga intensa e perda de peso". Esse cenário favorecia outros patógenos intestinais muito prejudiciais, abrindo espaço para surtos de Salmonella e Shigella.

Registos escritos e evidências recuperadas também apontam para vários outros problemas de saúde em ambientes romanos. Em determinado episódio, 10 soldados foram considerados incapazes para o serviço devido a conjuntivite, que pode surgir quando os olhos entram em contacto com dedos contaminados por fezes.

Curiosamente, o perfil de parasitas em Vindolanda é semelhante ao observado em outros sítios militares romanos, incluindo locais na Áustria, nos Países Baixos e na Escócia. Uma explicação possível é a dieta mais restrita e rica em carne suína, como descrevem textos preservados.

Em contrapartida, "Sítios urbanos, como Londres e York, tinham uma diversidade maior de parasitas, incluindo tênias de peixe e de carne".

Assim, por mais que exista romantização moderna sobre a higiene romana, a realidade histórica costuma ser mais suja - e mais marcada por contaminação fecal - do que se imagina. Vale lembrar ainda que, há quase 2.000 anos, Vindolanda ficava no extremo noroeste do domínio romano, e assentamentos de fronteira tendiam a enfrentar as condições mais duras - ainda mais quando os defensores tinham lombrigas de 30 centímetros (12 polegadas) serpenteando pelo intestino.

Esta pesquisa foi publicada em Parasitologia.

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