Com o mercado de monovolumes (ou MPV) praticamente “varrido” pela febre dos SUVs, deixou de fazer sentido para muitas marcas investir pesado nessa categoria. Ainda assim, surgiu um caminho alternativo: lançar MPVs derivados diretamente de veículos comerciais - caso da Peugeot e-Traveller.
Baseada na conhecida Expert, a opção francesa ganha, nesta configuração 100% elétrica, uma espécie de “vislumbre do futuro” para os MPVs, ao adotar um conjunto motriz que tende a virar padrão no continente europeu.
Ao partir para a eletrificação, a e-Traveller também acabou encaixando em um nicho com pouca oferta. Fora as “primas” Opel Zafira-e Life e Citroën ë-Spacetourer, a concorrência direta se limita à Mercedes-Benz EQV (mais luxuosa, mais forte e mais cara) e à futura Volkswagen ID. Buzz.
No interior da e-Traveller
Assim que se entra na Peugeot e-Traveller, dá para identificar facilmente de onde ela vem. Embora o ambiente seja bem “organizado”, a prioridade do projeto ficou claramente com praticidade e funcionalidade - como é esperado de um veículo com DNA de trabalho -, deixando em segundo plano um estilo mais sofisticado.
Os próprios materiais do interior entregam essa origem. A montagem está em um bom nível (na unidade testada, não houve rangidos ou ruídos internos dignos de nota), mas o fato é que quase não há superfícies macias ou materiais mais agradáveis ao toque, algo que seria mais comum em MPVs pensadas desde o início para uso familiar.
Por outro lado, o que ela abre mão em requinte, compensa (e muito) em espaço. Com duas portas laterais de correr de grandes dimensões e capacidade para nove ocupantes - sendo oito deles realmente confortáveis, já que o terceiro lugar dianteiro, entre o motorista e o passageiro, é mais estreito -, a e-Traveller tem na habitabilidade um de seus principais trunfos.
Diferentemente do que ocorre em muitos SUVs de sete lugares (e até em alguns monovolumes), acessar a terceira fileira aqui não vira “quebra-cabeça”. As linhas quadradas da carroceria e as portas de correr bem largas facilitam tudo.
Como é natural, ao levar nove pessoas a capacidade do porta-malas fica limitada (nesta versão de tamanho intermediário, com 4,95 m de comprimento). Ainda assim, basta rebater os bancos para transformar o conjunto em um verdadeiro veículo comercial, pronto para levar “meio mundo”.
Quem precisar de ainda mais espaço pode inclusive remover os bancos das duas fileiras traseiras. Porém, pelo peso dos assentos e pela complexidade do sistema de fixação, isso não é algo recomendável para fazer com frequência - e dá até saudade dos mecanismos de rebatimento mais práticos vistos em monovolumes convencionais.
Ao volante
Com uma posição de dirigir típica de furgão (a gente vai sentado no “primeiro andar”), a Peugeot e-Traveller surpreende por ser fácil e tranquila de conduzir.
Para começar, a visibilidade é muito boa, graças à grande área envidraçada. Além disso, as formas retas da carroceria ajudam a perceber com precisão onde estão os “cantos do carro”.
No comportamento dinâmico, com direção leve e bem voltada ao conforto (com relação mais longa), a e-Traveller não quer impressionar ninguém. Ela é segura e previsível, mas basta uma sequência de curvas para o peso elevado e a altura do conjunto (quase 2 metros) lembrarem rapidamente as suas origens.
Quanto ao conjunto elétrico, ele é exatamente o mesmo usado em modelos como Peugeot e-208, Opel Corsa-e e outras opções 100% elétricas de Peugeot, Citroën e Opel. Na prática, são 100 kW (136 cv) e 260 Nm de torque, suficientes para ir de 0 a 100 km/h em 13,1s e atingir 130 km/h de velocidade máxima.
Os números não impressionam, mas ao longo de todo o teste em nenhum momento senti falta de força. As ultrapassagens acontecem com alguma facilidade (a entrega imediata do torque ajuda) e não é difícil sustentar 120 km/h de velocidade de cruzeiro na rodovia.
O destaque ficou mesmo para a eficiência do conjunto. Em condução normal - e em trajetos bem longe do ideal para um elétrico, com longos trechos de rodovia e estrada -, os consumos ficaram em 18,6 kWh/100 km.
Para isso contribuem os modos de condução (“Eco”, “Power” e “Normal”) e também o modo “B”, que aumenta a intensidade da regeneração na desaceleração, ainda que não seja tão marcante quanto nas propostas da Hyundai e da Kia (que oferecem vários níveis de regeneração).
Bateria e carregamento
Alimentando o motor elétrico da Peugeot e-Traveller testada estava a menor bateria disponível para o modelo, com 50 kWh de capacidade. E, embora à primeira vista os 220 km de autonomia anunciada possam parecer poucos, na prática ela se mostrou mais do que suficiente na maioria dos cenários.
Em uso comum, a autonomia prometida fica bem próxima do que se consegue no “mundo real”. E, ao escolher a bateria menor, o tempo de recarga também cai. Veja a comparação de tempos entre as baterias de 50 kWh e 75 kWh:
| Potência de carregamento | 50 kWh | 75 kWh |
|---|---|---|
| 3,7 kW | 15 horas | 23 horas |
| 7,4 kW | 7h30 min | 11h20 min |
| 11 kW | 5h | 7h30 min |
| 100 kW | 30 min (até 80%) | 45 min (até 80%) |
É o carro certo para si?
Com espaço de sobra, a Peugeot e-Traveller mostra que não são apenas compactos ou SUVs que podem (e devem) passar pela eletrificação. Apesar de os 220 km de autonomia anunciada soarem curtos no papel, no dia a dia a ansiedade de autonomia some rapidamente e os benefícios da mobilidade 100% elétrica ficam evidentes.
Afinal, ao carregar principalmente em casa (quando isso é possível), a Peugeot e-Traveller combina facilidade de uso com economia - o que a torna uma opção interessante para serviços de shuttle em áreas urbanas (ou trajetos curtos) e também para famílias grandes, em que as idas diárias à escola fazem parte da rotina.
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