Enrico Galliera, com mais de 15 anos de casa, está de saída da Ferrari. A notícia vem logo depois do anúncio do primeiro carro 100% elétrico da marca: missão cumprida, ou uma despedida acelerada por um lançamento que não funcionou como deveria?
Galliera e a transformação da Ferrari em ultraluxo
Galliera passou 16 anos em Maranello, incluindo um período no comando das estratégias comercial e de marketing da fabricante. Sob sua condução, a Ferrari refinou a fórmula das séries limitadas extremamente exclusivas - como a LaFerrari, a LaFerrari Aperta e a linha Icona, com Monza SP1/SP2 e Daytona SP3.
Foi também durante sua gestão que a empresa encarou sua mudança mais arriscada ao colocar no mercado, em 2022, o primeiro SUV da história da marca, o Purosangue. Ao mesmo tempo, a Ferrari se inspirou na Rolls-Royce para ampliar a personalização ao máximo com um programa sob medida para clientes. Além disso, Galliera esteve à frente do processo de aceitação institucional dos motores híbridos plug-in (como os da SF90 Stradale e da 296 GTB): em outras palavras, ajudou a reposicionar a Ferrari como um ícone do ultraluxo, com um modelo de negócios que hoje depende tanto da raridade quanto do desempenho puro.
Saída oficial e a sucessão de Massimiliano Di Silvestre
A Ferrari acaba de comunicar a saída de Galliera; ele deixa o cargo em 1º de julho, oficialmente para “iniciar um novo capítulo”. Quem assume é Massimiliano Di Silvestre, ex-presidente da BMW Itália, e ele já chega com um presente indigesto: recuperar a imagem da Ferrari Luce, a primeira “sedã” totalmente elétrica da fabricante.
A estreia da Luce coincidiu com uma reação dura do mercado: no próprio dia da apresentação, as ações caíram 8% em uma única sessão. A Ferrari não estabeleceu - e provavelmente nunca estabelecerá - uma relação direta entre os acontecimentos. Ainda assim, fica a pergunta: desde quando se prepara um sucessor para alguém que estaria saindo por vontade própria?
O Ferrari Luce: uma estreia mal contada
Em fevereiro, a Ferrari já havia usado suas melhores cartas ao oficializar, pela primeira vez, a existência da Luce. O desenho foi desenvolvido em parceria com a empresa de Jony Ive (ex-Apple), uma colaboração que surpreendeu muita gente e dividiu parte dos fãs. Na ocasião, a marca revelou o nome e mostrou um interior minimalista, que de longe lembrava a filosofia de simplicidade adotada pela Apple em seus produtos.
O problema é que os números do carro já tinham circulado muito antes do evento oficial: 1 050 cavalos, aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos, velocidade máxima de 310 km/h e uma bateria de 122 kWh para 530 km de autonomia. Com essa ficha técnica, a Luce já nascia posicionada em um patamar em que poucos modelos conseguem acompanhá-la - com exceções como a Mercedes-AMG GT63 S E Performance e a Porsche Taycan Turbo GT.
Quando o carro finalmente apareceu em Roma, no fim de maio, o que de fato era novo era… o visual, que por sinal é bastante polarizador. A indústria automotiva virou espetáculo - ainda mais no segmento de luxo - e a Ferrari parece ter queimado toda a expectativa em torno da Luce antes da hora, deixando para o grande dia justamente o elemento com maior potencial de dividir compradores.
A aparência tomou conta de tudo, alimentando uma enxurrada de memes nas redes e discussões sobre o que Enzo Ferrari teria achado da Luce. Ele, que era obcecado por motores “nobres” (principalmente o V12) e via os carros de rua de maneira muito utilitária, provavelmente teria dificuldade em aceitar que eletrônica e um design com inspiração californiana se sobrepusessem à “música” dos cilindros.
Para piorar, na apresentação a Ferrari não permitiu que nenhum jornalista dirigisse o carro, limitando-se a afirmar que ele se comportava “como uma Ferrari”. Assim, o que foi entregue ao público foi um objeto para contemplação - e o argumento mais forte da marca ficou sem demonstração. Em termos de marketing, a decisão é discutível, ainda mais quando um novo modelo se despede do motor a combustão; e mais ainda porque era justamente o público mais ligado à alma térmica da Ferrari que precisava ser convencido primeiro.
Com isso, Di Silvestre assume o lugar de Galliera com um mandato bastante pesado - ainda que a Ferrari não o descreva nesses termos: reconstruir a narrativa da Luce, cuja encenação não convenceu. E há um fator adicional: esta é apenas a primeira investida elétrica da empresa, que projeta, até 2030, ter 20% da gama composta por veículos elétricos. Um primeiro ato que falha obriga, de facto, que o próximo seja irrepreensível.
A análise do Presse-citron
Os motivos reais que levaram à saída de Galliera talvez nunca venham a público. Mas, considerando o calendário, chama atenção a proximidade entre o anúncio da Luce (em 26 de maio) e a comunicação da saída: passou pouco mais de um mês.
À primeira vista, não parece o tipo de decisão tomada com calma e antecedência. É plausível que ele tenha sido conduzido, com a delicadeza - e a rapidez de aceleração - de uma Luce, para a porta de emergência.
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