As 24 páginas da HQ “A Pedra e a Luz”, assinada por Jorge de Barros (roteiro) e Ton Albuquerque (arte), apresentam em quadrinhos uma mediação envolvente entre história e ficção, construída a partir de acontecimentos ligados ao nascimento de Mauá, no ABC Paulista. A obra foi viabilizada com recursos da Lei de incentivo à Cultura Aldir Blanc, por meio da Secretaria de Cultura da Prefeitura de Mauá.
“A Pedra e a Luz” e as pedreiras no início de Mauá (ABC Paulista)
Antes de se chamar Mauá, a cidade era conhecida como Pilar e ainda pertencia a Santo André. Naquele período, centenas de trabalhadores - os escarpelinos - viviam do serviço pesado nas pedreiras da região, com destaque para a área onde hoje fica a Gruta de Santa Luzia. Ali, eles perfuravam e talhavam enormes blocos de granito.
Essas pedras eram encaminhadas para a fabricação de paralelepípedos e também para outras finalidades em diferentes lugares do Brasil e até da Europa. Entre os exemplos citados está o uso em obras como o Obelisco em São Paulo.
Enredo na Gruta de Santa Luzia: fé, exploração do trabalho e resistência
A narrativa do livro acompanha acontecimentos envolvendo a família do menino Lúcio - personagem que aparece na capa - que tem os olhos atingidos por lascas e corre o risco de ficar cego após um episódio de sabotagem. Em meio ao desespero, Alexandre Zanella faz um apelo religioso: “Poi reze pra Santa Luzia per la salute del ragazzo”, diz o personagem - que, na história, teria sido deportado como anarquista e teve o irmão, Fernando, entre os primeiros vereadores do município.
Ao longo dos quadrinhos, o enredo passa pela fé e pelo enfrentamento da exploração sofrida por imigrantes e operários. A obra também relembra que muitos se organizaram na luta por direitos, encarando a polícia, a elite dominante e até a ditadura.
Bastidores da HQ: Jorge de Barros e Ton Albuquerque
Jorge de Barros é graduado em Letras e Ciências Sociais, com pós-graduação e mestrado em Antropologia Social, além de pós em Roteiro de Ficção para Audiovisual. Ele conta que cresceu em frente ao campo de futebol do Clube Atlético Itapeva, perto da Gruta, cenário de parte da trama. “A leitura foi muito importante para mim, sempre li muito, na biblioteca das escolas onde estudei: no Florisbela, no Mirna Loide e na própria Biblioteca Cecília Meirelles”, disse Jorge.
Ele também relembra a ligação com projetos e coletivos culturais da cidade: “Sempre participei da vida cultural da cidade. Por exemplo, fiz parte do grupo Taba de Corumbê, junto com Iracema Regis, Aristides Teodoro, Edson Bueno de Camargo, Cecília Camargo, Deise Assunção, Macário… Eu conheci depois de ganhar um concurso de poesia. Acompanhei a ‘Ópera da Terra Pilar’, que também foi um projeto cultural, com peças de teatro itinerantes, escritas pelo Luiz Alberto de Abreu, e ali a história da cidade era contada. Cheguei a assistir a peça que se passava no Parque da Gruta e os saraus feitos pelo Edson”, detalha o roteirista.
Ton Albuquerque, por sua vez, explica que o repertório técnico reunido para o projeto veio tanto do trabalho tradicional quanto do aprendizado no digital: “As minhas habilidades desenvolvidas para o livro foram adquiridas com a experiência no tradicional, com os fundamentos que peguei e também com o que aprendi para o digital. Como ilustrador, eu fiz trabalhos de storyboard, ilustração para livro infantil e em algumas HQs também. Fiz estudos sobre pintura e ilustração digital. É gratificante fazer um projeto como esse. Fazer um trabalho desse com um amigo e aprender mais sobre a cidade que a gente gosta: Mauá”, afirma.
Pesquisa histórica e personagens: referências, amizades e memória urbana
Para construir a HQ, os autores recorreram a diferentes fontes e acervos, como o Museu Barão de Mauá, bibliotecas e pesquisas online, além de conversas com historiadores e estudiosos locais - entre eles o professor William Puntschart, Severino Correia Dias, Cecília Camargo e Lexy Soares. “Juntamos tudo para montar o roteiro e fazer o trabalho com base nisso tudo”, afirma Ton Albuquerque.
Segundo o ilustrador, a escolha de abordar a Gruta de Santa Luzia nasceu de um acordo com Jorge de Barros. A amizade dos dois vem desde a adolescência, somando mais de 30 anos. Para Ton, o formato dos quadrinhos tem essa ambivalência de ser acessível sem perder densidade: “História em quadrinhos é tão leve e complexo ao mesmo tempo, tão acessível… Mais uma forma de se comunicar, de passar a ideia de forma simples”, avalia.
Ele diz ainda ter se reconhecido na postura de coragem dos personagens, que atravessam um período sombrio e arriscado vivido em todo o país. “Enfrentado a vida do jeito que pode e sem recuar”, afirma.
Jorge também comenta como a parceria nasceu de interesses que se complementavam: “A gente resolveu fazer uma história em quadrinhos juntos. Eu gostava de contar histórias, narrava RPG e ele sempre desenhando os personagens”, explica. Ele lembra que a dupla tem outros trabalhos em conjunto, reunidos no site jorgedebarros.com.br.
Entre as figuras retratadas, Jorge ressalta uma identificação pessoal: “Pelo fato de ser poeta, eu particularmente me identifico mais com a Léa Aparecida de Oliveira, o trabalho dela como sindicalista. Eu fui do Sindicato dos Professores do ABC durante dois mandatos, sei como é difícil o trabalho de militância sindical, e a história dela é extraordinária pelo pouco que ela viveu. Vida muito intensa, com arte e política”, afirma.
Por fim, o roteirista aponta um tema que atravessa a HQ: a dificuldade de reconhecer a trajetória dos “heróis anônimos” que dão nome a ruas e escolas. “Tem uma questão nos heróis anônimos da cidade. No final da HQ, tem o nome das ruas e colégios que trazem o nome deles. Fernando Zanella, o prefeito Enio Brancalion, Raimundo Eduardo da Silva, Olavo Hansen, a própria Leia, Francisco Okama – que parece que não tem um logradouro com o nome dele. Os nomes estão gravados nas placas, na frente das escolas… Mas quem são eles? Qual é a história deles? O que eles fizeram? O nome gravado sem a compreensão da história é um problema e as pessoas passam por essas ruas, estudam nessas escolas, não sabem quem é. É um empobrecimento. Faz parte da cidadania! A gente tem o direito de conhecer essas histórias, de saber sobre esse passado”, defende Jorge de Barros.
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