Ratos desestabilizaram ecossistemas insulares
Na ilha de Ulong, em Palau, cientistas já registram sinais claros de que as aves marinhas estão voltando, que os nutrientes voltaram a circular da terra para o mar e que os recifes próximos começam a reagir para melhor.
O que chama atenção é a velocidade: essas mudanças apareceram apenas um ano depois da remoção dos ratos invasores da ilha.
Por muito tempo, especialistas em conservação acreditaram que os ganhos da restauração de ilhas levariam muitos anos para alcançar os ecossistemas marinhos ao redor. Os novos resultados indicam que esse processo pode começar bem antes.
Ratos invasores causam danos ecológicos graves em ilhas do mundo todo. Eles comem ovos e filhotes de aves, sementes e fauna nativa, desequilibrando ecossistemas que evoluíram sem predadores mamíferos.
Quando as populações de aves marinhas diminuem, as ilhas perdem um de seus sistemas naturais mais importantes de entrega de nutrientes.
As aves marinhas passam grande parte da vida se alimentando no oceano e depois retornam à terra, onde seus dejetos - o guano - enriquecem o solo com nutrientes valiosos. A chuva e o escoamento natural podem levar parte desses nutrientes para as águas costeiras próximas.
Essa conexão foi o centro de um grande esforço de restauração em Ulong.
A pesquisa foi conduzida por meio do Island-Ocean Connection Challenge, uma iniciativa colaborativa criada pela Island Conservation, pelo Scripps Institution of Oceanography da UC San Diego e pela Re:wild.
O projeto busca restaurar e “rewild” 40 ecossistemas ilha-oceano globalmente relevantes até 2030.
Aves marinhas começam a voltar
Os primeiros sinais de recuperação apareceram nas populações de aves da ilha.
Pesquisadores registraram mais avistamentos da rara e ameaçada pomba-terrestre de Palau (Palau Ground Dove). A atividade de aves marinhas também aumentou de forma acentuada.
Os chamados das andorinhas-do-mar (Bridled Terns) cresceram 286%, enquanto os de Brown Noddy e White Tern subiram cerca de 50% em comparação com Ngeruktabel, uma ilha próxima onde os ratos invasores ainda permanecem.
Essas mudanças indicam que as aves marinhas estão retornando e começando a retomar seu papel como elo natural entre a terra e o mar.
As equipes de monitoramento acompanharam as condições antes e depois da remoção dos ratos. Também compararam os resultados com dados da ilha controle próxima, onde nenhuma ação de restauração foi realizada.
Esse método, conhecido como modelo Before-After-Control-Impact, ajuda os cientistas a separar os efeitos das ações de conservação das variações ambientais naturais.
Nutrientes voltam a circular
O retorno das aves marinhas parece estar desencadeando mudanças que vão além da própria ilha.
Os cientistas observaram que as quedas nas assinaturas de nitrogênio ocorreram mais lentamente em Ulong do que nos locais de comparação. Esse padrão é compatível com o guano das aves marinhas começando a influenciar os solos e as águas próximas.
As populações de peixes também responderam.
Os pesquisadores registraram aumentos significativos na biomassa de peixes ao redor de Ulong, sugerindo que a entrada de nutrientes já está ajudando a sustentar a produtividade do recife.
Em um dos pontos monitorados, os efeitos foram especialmente marcantes. Os cientistas observaram aumentos em várias espécies de aves marinhas, uma alta de aproximadamente 80% no nitrogênio nas folhas e um crescimento de 183% na biomassa total de peixes.
Respostas ecológicas tão rápidas surpreenderam os pesquisadores.
“Seeing measurable ecological change just one year after restoration is extraordinary. It demonstrates the power of local leadership and science working together to heal island ecosystems from ridge to reef,” said Coral Wolf, Conservation Impact Program Manager at Island Conservation.
Benefícios para recifes e pessoas
Os recifes de corais dependem de um fluxo constante de nutrientes, mas poluição em excesso pode prejudicá-los.
A entrada natural de nutrientes trazida pelas aves marinhas cria uma dinâmica diferente, ajudando a sustentar cadeias alimentares que mantêm peixes e outras formas de vida marinha ao redor dos recifes.
Esses resultados trazem novas evidências de que restaurar ilhas pode fortalecer os sistemas recifais do entorno. Recifes saudáveis, por sua vez, apoiam a pesca, o turismo e comunidades costeiras em todo o Pacífico.
“For the first time in Palau, we’re seeing measurable evidence of seabird-driven nutrient flow returning to the land and sea,” said Nathaniel Hanna Holloway, a marine ecologist at Scripps Institution of Oceanography.
“It’s powerful proof that terrestrial action spills over into benefits for surrounding reef communities, which people rely on for their livelihoods.”
O trabalho também transformou Ulong em um destino livre de pragas, onde visitantes têm mais chance de ver a esquiva pomba-terrestre de Palau, uma ave encontrada apenas na região.
Um conjunto de dados de restauração em expansão
O projeto envolveu mais de 100 integrantes de equipes locais, estudantes e participantes da comunidade.
Esse esforço gerou um dos maiores conjuntos de dados ecológicos já reunidos em Palau, incluindo mais de 30.000 horas de gravações acústicas e mais de 11 terabytes de imagens do fundo do mar.
Os pesquisadores continuarão monitorando Ulong e outros locais do Island-Ocean Connection Challenge pelo Pacífico.
O objetivo é entender até que ponto esses benefícios podem ser reproduzidos e com que rapidez ilhas restauradas podem ajudar os oceanos ao redor a se recuperar.
O que Ulong revela
Os resultados de Ulong se somam ao crescente corpo de evidências científicas de que a restauração de ilhas pode melhorar ecossistemas marinhos.
À medida que as mudanças climáticas aumentam a pressão sobre os recifes de corais no mundo todo, ilhas ricas em nutrientes graças às aves marinhas podem ajudar os recifes a se recuperar mais rápido e a manter seu funcionamento ecológico.
Por enquanto, Ulong deixa um recado direto: elimine uma grande ameaça, e a natureza pode responder mais rápido do que qualquer um imaginava.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário