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Nexora Tech: 25% quer sair após o fim do trabalho remoto na volta ao escritório

Mulher segurando planta enquanto trabalha em laptop em escritório moderno com colegas ao fundo.

Numa manhã cinzenta de segunda-feira, no começo do outono, os elevadores da Nexora Tech paravam em todos os andares. A empresa estava cheia de novo. Malas de rodinhas batiam no piso, mochilas gastas voltavam aos ombros, e telas acendiam em áreas abertas que tinham ficado meio vazias por dois anos. O RH tinha encomendado croissants e canecas com a marca; o CEO circulava pelos corredores com um sorriso ensaiado. No papel, aquele dia de “Volta ao Escritório” deveria inaugurar um novo capítulo.

Mesmo assim, o clima era estranhamente pesado. Na máquina de café, as conversas pareciam artificiais; os olhos iam tempo demais para o relógio; e metade das piadas girava em torno do tempo de deslocamento.

Até o fim da semana, um número começou a aparecer baixinho em canais do Slack e em conversas sussurradas perto das saídas.

25%.

Um quarto da equipe estava procurando a porta.

Quando o escritório deixa de parecer uma escolha

Na Nexora Tech, o fim do trabalho remoto chegou na caixa de entrada como um banho de água fria.

Num e-mail para toda a empresa, na noite de uma quinta-feira, veio a determinação: a partir do mês seguinte, todos os funcionários teriam de voltar ao escritório cinco dias por semana. “Em nome da cultura, da colaboração e da inovação”, dizia a mensagem. Sem pesquisa. Sem alternativas. Sem transição.

Naquela mesma noite, prints do e-mail começaram a circular em chats de grupo.

Na sexta, muita gente já estava cronometrando o trajeto outra vez, estimando o custo de estacionamento e fazendo aquela conta mental entre salário e a nova fatia de vida que precisaria ser sacrificada para se sentar numa mesa que já não era necessária.

Uma gerente de projetos, Olivia, tinha entrado na empresa no meio da pandemia.

Ela nunca tinha pisado no escritório antes daquele primeiro dia de “retorno obrigatório”. A equipe dela estava espalhada por três cidades, com rituais que existiam no digital: reuniões rápidas de segunda por vídeo, threads de piadas no Slack, check-ins curtos em horários estranhos quando as crianças finalmente dormiam. Eles entregaram dois lançamentos grandes de produto sem se encontrar presencialmente uma única vez.

Quando a regra mudou, Olivia passou a colocar duas horas de trem na rotina diária. Saía de casa antes de o filho acordar e voltava quando ele já estava de pijama. Três semanas depois, ela atualizou discretamente o título do LinkedIn.

Multiplique a história dela por centenas e você chega aos 25%.

O que atingiu a Nexora não foi preguiça nem uma súbita falta de lealdade.

Foi um choque duro entre duas realidades: uma liderança com saudade do escritório e profissionais que tinham reconstruído a vida em torno da flexibilidade. Durante a pandemia, o trabalho remoto deixou de ser um benefício e virou base. As pessoas se mudaram, tiveram filhos, passaram a cuidar de pais idosos, encontraram um ritmo em que o trabalho se costurava ao resto da existência sem rasgar tudo.

Trazer todo mundo de volta em tempo integral, de um dia para o outro, rompeu esse equilíbrio frágil. A empresa via mesas; os funcionários viam horas de vida perdidas.

É exatamente nesse descompasso de percepção que as demissões começam.

O que as empresas não enxergam ao cortar o trabalho remoto de um dia para o outro

O primeiro erro da Nexora foi tratar o trabalho remoto como se fosse uma torneira que dá para fechar e pronto.

Por dois anos, a empresa contratou prometendo flexibilidade. Em reuniões gerais, elogiou autonomia; no Instagram, publicou fotos de pessoas trabalhando “de qualquer lugar”; e construiu a marca empregadora em cima de confiança. Aí, um e-mail apagou toda essa narrativa.

Um caminho mais pé no chão teria começado com uma pergunta simples e desconfortável: o que o escritório realmente oferece que as pessoas não conseguem ter em casa?

A partir daí, poderia ter surgido uma política diferente: dias definidos para colaboração, dias silenciosos para foco e negociação de verdade com as equipes - e não um retorno bruto a 2019.

Do lado dos funcionários, o impacto foi prático antes de ser ideológico.

Um engenheiro tinha se mudado para 90 minutos da sede para conseguir comprar uma casa. Uma profissional de marketing matriculou a filha numa creche perto de casa, apostando que o remoto seria permanente. Outro funcionário começou a cuidar do pai entre consultas e exames. Para esse grupo, a ordem de retorno não era sobre “voltar a se arrumar direito”. Era aluguel, logística, carga mental, e a sensação súbita de que a vida real deles não importava.

Todo mundo já viveu aquele instante em que você percebe que uma decisão que virou sua vida de ponta-cabeça foi, para quem decidiu, só uma linha em um slide de PowerPoint.

Pela ótica da gestão, a lógica parecia quase óbvia.

Eles viam salas de reunião vazias e concluíam que “ninguém colabora mais”. Ouviam sobre queda de criatividade e culpavam as telas - não o esgotamento ou prioridades confusas. Deixaram passar uma verdade simples, que doeu quando as saídas começaram a se acumular: presença não é engajamento.

Dá para obrigar alguém a entrar num prédio, mas não dá para obrigar a pessoa a recolocar o coração no trabalho.

Vamos ser honestos: ninguém faz isso todos os dias de verdade - acordar animado para ficar horas no trânsito só para responder os mesmos e-mails que daria para responder na mesa da cozinha. A fantasia do escritório vibrante costuma pertencer mais à alta liderança do que a quem ocupa as cadeiras.

Como evitar o cenário “25% querem pedir demissão”

As empresas que estão escapando do destino da Nexora normalmente começam com passos pequenos, não com declarações grandiosas.

Antes de mudar qualquer coisa, elas aplicam pesquisas anônimas. Perguntam: quais tarefas você prefere fazer presencialmente, quais prefere fazer remotamente e por quê? Testam um ou dois “dias âncora” por semana para os times se encontrarem fisicamente, mantendo os dias de foco flexíveis. Depois, ajustam com base no comportamento real das pessoas - não apenas no que os líderes imaginam que deveria acontecer.

Um movimento útil é inverter o roteiro: em vez de forçar o funcionário a justificar por que quer ficar em casa, a liderança explica por que um dia específico no escritório melhora o trabalho de forma concreta.

Essa mudança sutil transforma uma ordem em uma escolha compartilhada.

Os funcionários também têm um papel nessa dança delicada.

Muita gente que adorou o remoto nunca conseguiu colocar em palavras o que fazia aquilo funcionar: limites claros, um espaço dedicado, ou rituais simples como fechar o notebook num horário fixo. Quando a empresa anuncia o fim da flexibilidade, a reação imediata costuma ser raiva e, em seguida, pânico.

Antes de disparar um e-mail de demissão em fúria, o mais inteligente é pedir uma conversa de verdade. Que opções híbridas existem? Dá para ajustar horários? Há possibilidade de mudança de função?

O erro comum - dos dois lados - é transformar um problema de organização do trabalho num julgamento moral sobre “motivação” ou “lealdade”. Quando isso acontece, todo mundo perde.

No meio do vendaval, uma gerente de RH da Nexora tentou desacelerar as coisas.

Ela passou a reunir citações anônimas de entrevistas de desligamento e de permanência e, depois, compartilhou uma compilação crua com a liderança:

“Desde que o trabalho remoto acabou, sinto que minha vida voltou a pertencer à empresa.”
“Eu não me importo de ir, eu me importo de ouvir que minha produtividade em casa nunca valeu.”
“Eu faço meu melhor trabalho no silêncio. O escritório é só barulho e interrupções.”
“Se vocês tivessem perguntado, a gente teria desenhado algo melhor juntos.”

Para tornar impossível ignorar, ela resumiu os temas principais numa caixa simples:

  • Perda de confiança: as pessoas se sentiram controladas, não apoiadas.
  • Promessas quebradas: a flexibilidade tinha sido usada como argumento de contratação.
  • Custos invisíveis: deslocamento, cuidados com crianças, cansaço, saúde mental.
  • Cultura mal interpretada: líderes confundiram corpos em cadeiras com espírito de equipe.
  • Compromisso não aproveitado: muitos aceitariam 2–3 dias por semana no escritório.

Essas cinco linhas fizeram mais para acordar o conselho do que qualquer relatório polido de engajamento.

Depois da reação negativa: o que acontece agora?

Hoje, a Nexora Tech vive num estranho meio-termo.

Recrutadores trabalham além do horário para preencher vagas que não precisariam existir. As equipes que ficaram lidam com mais trabalho com menos gente, tentando não deixar claro que também atualizam o currículo à noite. O escritório está mais cheio, sim, mas a sensação de pertencimento ficou mais rala.

Outras empresas observam em silêncio, se perguntando se serão as próximas. Algumas já são: bancos, startups, grupos de mídia - todos tentados a “trazer as pessoas de volta” com um único e-mail abrangente.

A história real não é remoto contra escritório. É quem decide como usamos nosso tempo, nossa atenção, nossas manhãs e nossas noites.

Se existe uma lição aqui, talvez seja esta: a “cultura” do local de trabalho não dá para ser definida apenas do último andar de um prédio de vidro.

Ela é negociada, todos os dias, em deslocamentos feitos ou evitados, em crianças beijadas na despedida ou vistas no café da manhã, em cabeças que chegam ao trabalho já exaustas ou estranhamente calmas.

É aí que a próxima onda de pedidos de demissão - ou de lealdade - está sendo escrita agora.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Trabalho remoto não é mais um benefício As pessoas reorganizaram a vida em torno de flexibilidade e estabilidade Ajuda a entender por que mudanças abruptas de política provocam saídas em massa
Comunicação é tudo Decisões tomadas sem pesquisa ou diálogo são percebidas como traição Mostra como conduzir mudanças sem quebrar a confiança
Híbrido, não binário Dias âncora, regras por equipe e negociação real funcionam melhor do que “remoto total” vs “escritório total” Dá um modelo prático para conversar com seu empregador ou seu time

FAQ:

  • Pergunta 1 Por que tantos funcionários estão prontos para pedir demissão quando o trabalho remoto é cancelado?
  • Resposta 1 Porque a mudança atinge a vida inteira, não só o emprego. Deslocamento, cuidados com crianças, saúde e carga mental mudam de repente, e as pessoas sentem que a realidade delas foi ignorada depois de anos provando que conseguiam performar remotamente.
  • Pergunta 2 Isso é só um problema em empresas de tecnologia?
  • Resposta 2 Não. Finanças, marketing, atendimento ao cliente, design e até partes da indústria são afetadas. Qualquer função que possa ser feita parcialmente online levanta as mesmas questões de autonomia e confiança.
  • Pergunta 3 O que a Nexora poderia ter feito diferente?
  • Resposta 3 Pesquisar os funcionários primeiro, testar modelos híbridos, explicar com clareza por que a presença presencial era necessária e implementar mudanças ao longo de vários meses, em vez de virar de “qualquer lugar” para “todo mundo no escritório” de um dia para o outro.
  • Pergunta 4 Como funcionário, como posso reagir se minha empresa encerrar o trabalho remoto?
  • Resposta 4 Comece pedindo uma conversa individual. Leve propostas concretas (dias híbridos, horários ajustados), apresente dados do seu desempenho e explique o impacto pessoal com calma. Se não houver nenhuma abertura para discutir, isso também é uma informação valiosa sobre seu futuro ali.
  • Pergunta 5 Empresas totalmente remotas são apostas mais seguras para o futuro?
  • Resposta 5 Não automaticamente. Algumas empresas 100% remotas são sólidas e transparentes, outras podem mudar de direção depois. O que realmente importa é como elas falam sobre flexibilidade, como registram isso em contrato e se as decisões são compartilhadas cedo e com honestidade.

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