Na Europa, os híbridos ainda enfrentam um caminho cheio de obstáculos. A baixa participação nesse mercado vem, em grande parte, da concorrência pesada dos motores a diesel - mesmo com a oferta de modelos híbridos tendo aumentado bastante nos últimos anos.
Ainda assim, a tendência é de virada. A combinação entre o encarecimento das soluções a diesel e a necessidade de atender às normas de emissões pode tornar esse tipo de motorização pouco viável economicamente para as fabricantes nos segmentos mais acessíveis. Com isso, híbridos e, principalmente, os semi-híbridos devem ocupar esse espaço no começo da próxima década.
É nesse pano de fundo que entra o Kia Niro 1.6 GDI HEV. O novo crossover da marca coreana fica posicionado entre o menor Soul e o maior - e bem-sucedido - Sportage. Não há opção a diesel: por enquanto, ele é oferecido somente com um conjunto híbrido e, no fim do ano, a gama deve ganhar também uma versão híbrida plug-in. No momento, na prática, ele tem apenas um rival direto: o aguerrido Toyota C-HR 1.8 HSD.
Curiosamente, parece que o mundo virou do avesso: é a Toyota que traz no C-HR o crossover de visual mais marcante e original, mesmo que esteja longe de agradar a todos. Já o Kia Niro, considerando o padrão ao qual Peter Schreyer (diretor de design de todo o grupo Hyundai) nos acostumou, deixa uma leve frustração nesse quesito. Ele aparenta estar um degrau abaixo de outros crossovers da marca, como o “funky” Soul ou o Sportage, mais bem resolvido no estilo. Do Sportage, aliás, seria interessante herdar as proporções e a postura mais assertiva. No fim, o Niro soa conservador e, visto de certos ângulos, causa estranhamento - mas não chega a conquistar pelo desenho.
O que é, afinal, o Kia Niro?
O Kia Niro divide sua base estrutural com o Hyundai Ioniq. Foi o Ioniq que inaugurou na Hyundai uma plataforma exclusiva voltada a modelos híbridos e elétricos. Os dois mantêm os mesmos 2,7 m de entre-eixos. Ainda assim, o Kia Niro é mais curto e mais estreito, e adota justamente a carroceria que pretende dominar o mundo: o crossover.
No conjunto mecânico, a herança do Ioniq também é direta. A função de mover o carro fica com dois motores. O motor a combustão é um quatro cilindros 1.6 a gasolina, que usa o mais eficiente ciclo Atkinson e entrega 105 cavalos. Para completar, há um motor elétrico síncrono de ímã permanente com 44 cavalos, capaz de disponibilizar 170 Nm de torque a partir de zero rotações. A energia vem de um pacote de baterias de íons de lítio de 1,56 kWh.
Com a atuação combinada dos dois, o resultado é de 141 cv e 265 Nm - números suficientes para levar com competência as quase 1,5 tonelada do Kia Niro. A transmissão é de seis marchas, com câmbio de dupla embreagem. Aqui está uma diferença central entre o Niro e outros híbridos, como o C-HR, que utiliza uma CVT (transmissão continuamente variável).
Complexo, mas com muito bons resultados
A integração entre o motor a combustão e o elétrico funciona de forma bem afinada. Na prática, a alternância entre as duas fontes de força é, na maior parte do tempo, quase impossível de notar - e isso ajuda a construir uma experiência mais refinada. A boa vedação acústica do modelo coreano também colabora bastante.
Pelo painel de instrumentos e pela tela central, dá para acompanhar qual motor está efetivamente movendo as rodas. Em muitos momentos, só observando esse gráfico é que se percebe quando o motor a combustão está ligado. A exceção aparece quando resolvemos afundar o pé de maneira “menos ecológica”: nessas horas, a transmissão mantém o 1.6 girando bem alto quando é preciso.
O Kia Niro, oficialmente, permite 2-3 km em modo exclusivamente elétrico. Pela vivência deste teste, porém, a sensação é de que dá para rodar bem mais - o motor elétrico permanece ativo por períodos longos. Talvez seja questão de percepção, mas, por conta da geografia acentuada de Lisboa e arredores, tirando as subidas ou um uso mais agressivo do acelerador, o motor a combustão se destaca principalmente… pela ausência.
Para isso acontecer, é essencial manter a carga das baterias em um patamar razoável. Sempre que aparece oportunidade, vemos o fluxo de energia sendo revertido para recarregá-las. Em frenagens, descidas e até no simples alívio do acelerador ao se aproximar de um cruzamento ou semáforo, a energia volta em direção às baterias. Quando a carga cai demais, o motor a combustão passa a atuar como gerador.
Como em outros híbridos, o Niro se sobressai sobretudo no uso urbano. É no trânsito que surgem mais chances de aproveitar os elétrons - e, assim, quanto maior o congestionamento, maior tende a ser a economia. O consumo ao final do teste - 6,1 l/100 km - considerou rodovia e trechos mais sinuosos, em ritmo mais forte. Já no uso comum, no tráfego da manhã e do fim do dia, foi possível registrar médias entre 5,0 e 5,5 l/100 km.
Guerreiro ecológico?
No Niro, a comunicação do carro gira em torno de eficiência e consciência ambiental. Ele chega a propor pequenos “desafios” para alcançar os melhores números de consumo e emissões. Um deles é a evolução de nível na condução ecológica: a cada avanço, uma parte de uma árvore pontilhada vai “acendendo”. Outro recurso avalia o nosso estilo ao volante e o classifica em três faixas: Econômico, Normal e Agressivo. Ao lado de cada categoria aparece um percentual - e, quando Agressivo é o maior, fica claro que algo está saindo do planejado.
Esse foco torna curiosa a escolha de pneus do Niro. Em Portugal, o Kia Niro sai de fábrica com Michelin Pilot Sport 4 nas medidas 225/45 R18… Pneus “verdes”? Nada disso. Aqui há borracha com padrão de esportivo. Vale lembrar: estamos falando de um crossover voltado ao uso urbano, com 140 cv e beirando 1,5 tonelada. É o tipo de pneu que normalmente encontramos em cupês, roadsters e hot hatch, muitas vezes com 50-70 cavalos a mais do que o Niro.
Se viesse com o conjunto adotado em outros mercados - pneus mais modestos, 205, com rodas de 16 polegadas - seria possível economizar preciosas décimas de litro e, ainda, reduzir as emissões oficiais para abaixo de 100 gramas de CO₂ (101 g/km oficiais). Com as rodas mais “modestas”, o Kia Niro registra 88 g/km.
E não é que isso seja motivo de reclamação. Esses pneus entregam aderência excelente e acabam moldando o comportamento dinâmico do carro. Só dirigindo como alguém sem nada a perder dá para chegar ao limite. Mas o Kia Niro não tem essa proposta. Em dinâmica, ele é competente e previsível, segura bem o subesterço e mantém a compostura mesmo quando exigimos mais.
O chassi traz os ingredientes certos: suspensão independente nos dois eixos, amortecedores a gás e esquema traseiro multilink. O conjunto controla bem os movimentos e a rolagem da carroceria. A sensação é, sem dúvida, de segurança. A rodagem pende um pouco para o firme, e as rodas 18 com perfil 45 provavelmente influenciam nesse ponto. Mesmo assim, ele lida muito bem com as imperfeições do asfalto.
Espaço para quase todas as necessidades
Como carro familiar, o Niro oferece bons índices de espaço interno e acesso aos lugares. No banco traseiro, as medidas se aproximam das do Sportage, que é maior. O porta-malas, embora seja largo por dentro, fica em 347 litros no total - um número razoável. A visibilidade é boa no geral, mas a traseira deixa a desejar - um problema típico dos carros atuais. A câmera de ré no Niro, mais do que um gadget, começa a parecer indispensável.
O interior, assim como o exterior, segue uma linha mais conservadora. Ainda assim, a ergonomia é correta, a sensação de solidez é muito boa e os pontos de contato receberam atenção. O Niro traz, por exemplo, volante e apoio de braço revestidos em couro. Encontrar uma posição de dirigir ideal é fácil graças à ampla regulagem do volante e do banco do motorista, que tem ajuste elétrico.
Isso nos leva a um ponto forte: a ótima lista de equipamentos de série. A oferta é ampla e os únicos opcionais se resumem à pintura metálica (390 euros) e ao Pack Safety (1250 euros) - ambos presentes no carro testado. O pacote inclui frenagem autônoma de emergência, cruise control adaptativo, sensor de ponto cego e alerta de tráfego traseiro. Como em outros modelos da Kia, o Niro também conta com sete anos de garantia.
Fotografia: Diogo Teixeira
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