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Kimera K39: um novo hipercarro italiano com V8 da Koenigsegg

Carro esportivo vermelho Kimera K39 estacionado em showroom com iluminação natural e piso branco.

Quando duas marcas realmente grandes se juntam, o resultado pode virar assunto por anos - tipo Aerosmith x Run-D.M.C, Louis Vuitton x Supreme… ou até Top Gear x Twiglets (RIP Stiglets). E, convenhamos, Christian von Koenigsegg não sai por aí emprestando o “coração” da empresa para qualquer um. Então, se o novo hipercarro italiano da Kimera - o K39 - leva um V8 da Koenigsegg, é porque o projeto tem credenciais.

E afinal, o que é o K39? Quem acompanha a Kimera sabe que essa não é a primeira aventura da marca. Os dois primeiros modelos - EVO37 e EVO38 - são restomods (daí o sufixo “EVO”) que homenageiam o Lancia 037 do Grupo B. Os dois são incríveis; o primeiro, inclusive, levou uma vitória de peso no TG Performance Car of the Year em Portugal no último verão. Só que aqui a conversa muda: o K39 é um hipercarro totalmente novo, do zero, com monocoque de fibra de carbono, motor V8, câmbio manual e tração traseira.

O “mood board” segue aquele automobilismo raiz, meio bruto, mas a inspiração sai do rally e aponta mais para desempenho em estrada e pista, com referências ao mundo das provas de endurance dos anos 1980. Em especial, ao Lancia Beta Montecarlo Turbo Group 5 de 1981, que foi o antecessor técnico e a base de engenharia do Lancia 037 do Grupo B. Já a escolha de um V8 é mais um aceno ao Lancia LC2 de 1983, a resposta da Lancia ao então dominante Porsche 956.

Essa colaboração de cinema gira em torno do V8 biturbo de 5,0 litros do K39. Ele entrega 986 bhp e 885 lb ft de torque (cerca de 1.200 Nm), com linha vermelha a 8.250 rpm, levemente “amansado” em relação ao motor original - que chega perto de 1.600 bhp rodando com etanol E85 no Koenigsegg Jesko. Como a ideia aqui é um carro menor, mais leve e mais ágil, ele recebe turbos menores e mais responsivos vindos do Agera, software sob medida, admissão revisada e foi pensado para despejar seus nada modestos 986 bhp usando gasolina de bomba de 95 octanas (RON). O peso-alvo é o mesmo do EVO38, por volta de 1.100 kg, apesar de ter 400 bhp a mais.

À primeira vista, parece a definição de “todo mundo ganha”: a Kimera coloca as mãos num motor de primeira sem arcar com os custos de P&D - e ainda ostenta o emblema Ghost Squadron na tampa - enquanto a Koenigsegg faz um dinheiro extra com uma tecnologia que já está paga. Então por que isso não aconteceu antes?

“Entregar nosso coração assim para outro produto é uma jornada muito emocional e é a primeira vez que fazemos isso”, disse Christian von Koenigsegg. “No fim, tudo se resume a quem está por trás do projeto. Qual é a motivação? Que carro é esse? Não teríamos feito isso se não sentíssemos uma conexão tão forte com o Luca e uma grande confiança na capacidade da Kimera de fazer esse produto dar certo.”

Isso abre a porta para a Koenigsegg sair distribuindo V8 como bala para qualquer aspirante a hipercarro que bater na porta? “No futuro, pode haver mais oportunidades de fazer isso com outras marcas, mas não tratamos isso com leveza. Talvez este seja o único, talvez venham outros, mas tudo precisa encaixar, fazer sentido e estar alinhado para algo assim acontecer. Em geral, temos a ideia de espalhar nossa tecnologia um pouco além dos nossos carros, mas até agora priorizamos as nossas próprias necessidades.”

Fora o motor, os detalhes técnicos ainda são poucos - os carros que você vê aqui são modelos, montados para a estreia mundial em Villa d’Este. Luca Betti, fundador e CEO da Kimera, diz que veremos um carro funcional, com interior completo, na Car Week da Califórnia em agosto, e que as primeiras entregas estão programadas para o começo do ano que vem.

O que já dá para cravar: inicialmente, ele virá com câmbio manual Cima de sete marchas, embora uma caixa sequencial com trocas por aletas esteja em avaliação. A suspensão é do tipo pushrod in-board na dianteira e na traseira, como no EVO38, e a estrutura é um monocoque de fibra de carbono super-rígido - mas o fornecedor ainda não foi confirmado. A Dallara está assessorando o pacote aerodinâmico, os freios por enquanto são discos de aço (com carbonocerâmica sendo desenvolvida nos bastidores), as rodas de alumínio usinado são 20" na frente e 21" atrás com pneus Pirelli Trofeo RS, e a carroceria é toda em carbono.

Falando em carroceria, não dá para chamar esse desenho de discreto. O parentesco com os dois EVO é evidente na frente, com os quatro faróis em homenagem à Lancia e a grade larga e dividida. Os faróis retráteis mais insanos/geniais do mundo ficam escondidos atrás dos anéis de LED e - num toque de puro teatro - surgem para preencher o centro do círculo. A grade é totalmente aberta, alimentando o ar por dentro e por cima do capô com “S-duct”, enquanto respiros com lâminas ao estilo GT3 RS aliviam a pressão nos paralamas dianteiros. O gesto visual mais marcante, porém, são os paralamas “caixa” estourando para fora da carroceria e dando a impressão de um carro esguio que foi engolido por outro mais parrudo.

As entradas nas janelas traseiras laterais alimentam o motor; duas maiores nas laterais refrigeram o sistema, assim como outra integrada ao suporte do aerofólio traseiro - uma referência à asa peculiar do Beta Montecarlo Turbo. A traseira não poderia ser mais reta, abrupta e deliciosamente simples, com duas lanternas circulares, escapamento central da Koenigsegg e um difusor profundo acomodado por baixo.

Agora, repare nos quatro “cortes” atrás das rodas traseiras. Lembra alguma coisa? Talvez seja o mais perto que já chegamos de uma encarnação moderna da Ferrari F40 - e não é só na proporção: temos um V8 turbinado, câmbio manual, aquela pegada analógica de “se vira” e o Luca é assumidamente fanático pela F40.

Onde ainda estamos mais no escuro é no interior. Depois de um pouco de insistência e “suborno”, o Luca mostrou alguns esboços do que esperar, incluindo o trambulador do câmbio manual exposto, um painel com formato parecido, mas com mais níveis do que o do EVO37, e um conta-giros projetado preso à coluna de direção - um aceno ao cockpit (bem menos sofisticado) do Lancia Beta Montecarlo Turbo.

Mas as ambições do K39 não param em devorar estradas e mandar bem em track days. A Kimera também planeja correr com ele rumo às nuvens em Pikes Peak (meta para 2027, embora isso possa escorregar, considerando o tamanho do trabalho) com uma versão muito mais extrema, espertamente batizada de K39 Pikes Peak. Só 10 clientes - sadicamente - poderão comprar esse bicho exclusivo de pista, com splitter dianteiro tipo prancha de surf, tomada de ar no teto e uma asa traseira do tamanho de um Boeing A380.

Os números de produção ainda não foram confirmados, mas espere uma tiragem curtíssima - provavelmente mais de 50 e menos de 100 - com cerca de 20 já vendidos enquanto escrevemos. Sobre preço, é aquele esquema de “sob consulta”, mas não conte com troco de £2 milhões depois de se empolgar na lista de opcionais.

E gastar essa grana toda com um ex-restomodder que agora virou fabricante de hipercarro… é sensato? Bem, considerando o quão brilhantes, bem acabados, robustos e cheios de personalidade são o EVO37 e o EVO38, a gente entraria nessa sem hesitar. Sinceramente, não me surpreende que o Christian tenha abraçado a chance de apostar desde cedo numa empresa com todos os sinais de que pode ser a próxima grande coisa.

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