Em menos de uma década, a indústria automotiva já teve de atravessar uma crise no mercado de semicondutores e, agora, começa a sentir um novo tipo de pressão. Se, na primeira vez, o gatilho esteve ligado à pandemia de Covid-19, a tensão mais recente vem do avanço acelerado da Inteligência Artificial (IA) nos últimos anos.
Além de fabricantes de smartphones e computadores, as montadoras passaram a disputar chips com as gigantes de tecnologia, que estão direcionando milhares de milhões de euros para centros de dados voltados à IA. Com essa corrida por componentes, o valor dos semicondutores tende a subir.
Semicondutores essenciais nos carros modernos
Os semicondutores são uma peça-chave nos automóveis atuais. Por isso, quando esses componentes encarecem, o custo de fabricação também aumenta. Mantida essa pressão por tempo suficiente, parte da alta pode acabar chegando ao preço final pago pelos consumidores no momento de trocar de carro.
DRAM e HBM: preços em disparada
Um exemplo claro é o das memórias DRAM, um tipo de memória presente em servidores, computadores e também em diversos sistemas eletrônicos embarcados nos veículos, que vem registrando aumentos relevantes.
De acordo com um relatório da consultoria Kearney, citado pela Carscoops, o preço desses tipos de memória - especialmente das HBM (High Bandwidth Memory) - subiu cerca de 450% entre setembro de 2025 e janeiro de 2026, elevando os custos de produção em vários setores, incluindo o automotivo.
Mesmo que os automóveis utilizem versões diferentes dessas memórias, o aumento de preços acaba pressionando toda a cadeia de fornecimento de semicondutores.
É preocupante?
Diferentemente da crise associada à pandemia, desta vez o problema não tem como origem fábricas paradas nem cadeias logísticas quebradas. O obstáculo, agora, está no descompasso entre oferta e demanda.
Com a expansão rápida da IA, a procura por determinados tipos de semicondutores essenciais à fabricação de automóveis cresceu. Como a capacidade global de produção desses componentes é limitada, os fabricantes de semicondutores tendem, naturalmente, a priorizar quem paga mais - e esses compradores, cada vez mais, são as empresas de tecnologia.
O cenário piora porque o mercado é bastante concentrado. No segmento de memórias DRAM, por exemplo, cerca de 90% da produção mundial está hoje nas mãos de apenas três empresas: Samsung, SK Hynix e Micron.
O que dizem os construtores
Por enquanto, as montadoras afirmam que o quadro está bem distante da crise vivida durante a pandemia. Embora admitam que os custos estão avançando, dizem que, ao menos neste momento, as cadeias de abastecimento seguem estáveis e não há efeitos sobre a produção.
A Ford e a General Motors já aumentaram em várias centenas de milhões de euros os orçamentos destinados à compra de matérias-primas neste ano. A Volkswagen, por sua vez, afirma ter intensificado o acompanhamento da cadeia de abastecimento depois da crise de semicondutores de 2020 e diz estar pronta para reagir caso apareçam dificuldades.
A Stellantis declara que está se antecipando à pressão no mercado, planejando compras maiores para 2026 e 2027, embora acredite que o cenário possa se estabilizar a partir de 2028. A Renault também avalia que o setor vai se ajustar conforme a capacidade de produção de semicondutores crescer, enquanto a BMW garante que, graças a contratos de longo prazo com seus fornecedores, não enxerga riscos para a produção.
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