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Intestino e língua dos manaquins: a dieta de frutas veio antes da dança

Pássaro colorido com penas azul, vermelho e verde segurando uma fruta vermelha em um galho com outras frutas.

Os manaquins parecem passarinhos tropicais pequenos com algo a provar. Os machos deslizam para trás sobre os galhos em passos rápidos, batem as asas como se fossem castanholas minúsculas e exibem plumagens tão vivas que chegam a parecer quase artificiais.

Antes de escolher um parceiro, as fêmeas se juntam para assistir a essas apresentações.

Toda essa exibição custa energia de verdade, e o combustível por trás dela vem principalmente das frutas - que essas aves colhem e engolem inteiras pelas florestas quentes da América Central e da América do Sul.

Um grupo de pesquisadores que incluiu biólogos do Instituto de Ciência de Tóquio (Ciência Tóquio), no Japão, decidiu colocar os acontecimentos em ordem.

A pergunta era direta: o “equipamento” para encontrar e digerir frutas surgiu primeiro, ou o cortejo chamativo evoluiu ao mesmo tempo?

A resposta passa pelo intestino e pela língua.

Alterações ligadas ao paladar e à digestão apareceram cedo na história desse grupo, muito antes dos espetáculos e das cores que hoje tornam os manaquins tão conhecidos.

Por que as frutas bancam o espetáculo

Em termos energéticos, o cortejo de um manaquim não sai barato. Batidas de asa em alta velocidade e giros no ar exigem picos de potência que um corpo tão pequeno só consegue sustentar com uma fonte de alimento rica e constante.

E, na floresta, poucas coisas cumprem esse papel tão bem quanto as frutas. Elas concentram açúcares e gorduras e, nos trópicos, muitas ficam maduras nos galhos praticamente o ano inteiro - um tipo raro de refeição previsível.

Essa regularidade alimentar pode até mexer com a dinâmica familiar. Se a fêmea consegue alimentar os filhotes com pouca ajuda do macho, os machos acabam livres para passar o dia disputando atenção, em vez de dividir os cuidados parentais.

Há muito tempo se suspeitava dessa ligação entre dieta e comportamento. O que faltava era evidência sólida conectando o que eles comem aos mecanismos biológicos por trás disso.

Comparando cinco genomas de aves

A pesquisa foi liderada pela Dra. Maude W. Baldwin, do Instituto Max Planck. Ela trabalhou em parceria com o professor Christopher N. Balakrishnan, da Universidade da Carolina do Leste.

Os cientistas compararam os genomas de cinco espécies de manaquins.

Além da genética, eles sustentaram as conclusões com experimentos de laboratório e com reconstruções que acompanharam a evolução de traços-chave ao longo de milhões de anos.

Nas varreduras genômicas, o mesmo padrão voltava a aparecer.

Genes associados ao consumo de frutas eram sinalizados repetidamente - aquele tipo de marca recorrente que a evolução costuma deixar quando uma característica é realmente importante para a espécie.

“Nossas análises revelaram evidências de seleção positiva em genes relacionados a receptores de gosto, enzimas digestivas e outras funções fisiológicas associadas ao consumo de frutas”, observaram Baldwin e Balakrishnan.

Um sensor para detectar açúcar

As aves carregam uma lacuna curiosa no seu repertório de paladar. Em algum ponto profundo do passado, perderam o receptor de doce que os mamíferos ainda usam para perceber açúcar.

Os manaquins, porém, deram um jeito de contornar essa ausência. Eles pegaram um receptor que, em geral, reconhece sabores salgados e “carnudos” e o reajustaram para captar a doçura presente nas frutas.

“Além disso, experimentos funcionais revelaram que as aves – após terem perdido seus receptores de gosto doce, provavelmente durante a era dos dinossauros carnívoros – reaproveitaram um receptor de umami, conhecido como receptor T1R1-T1R3, para detectar açúcares”, disse a professora Yasuka Toda.

“Essa adaptação melhorou a capacidade das aves de detectar frutas ricas em energia.”

Digerindo frutas arriscadas com segurança

O paladar era apenas metade do problema. Muitas frutas silvestres, especialmente as verdes, trazem defesas químicas capazes de transformar uma refeição promissora em um risco real para quem as consome.

Nessas aves também foi observada uma atividade reduzida de uma enzima digestiva chamada hidrolase lactase-florizina.

Essa única mudança pode ter permitido que elas lidassem com frutas verdes ou quimicamente protegidas sem serem intoxicadas.

Em vez de quebrar esses compostos tóxicos, tudo indica que as aves os deixem passar diretamente pelo intestino.

O resultado foi um cardápio muito mais amplo de frutas que elas conseguem comer com segurança - inclusive algumas que concorrentes mais exigentes preferem evitar.

Essa mudança digestiva é ainda mais antiga do que a mudança de paladar. Ela remonta ao ancestral do grupo maior que reúne manaquins, cotingas e papa-moscas tiranos.

Qual característica veio primeiro

A equipe posicionou cada transformação ao longo da árvore genealógica dos manaquins. A reconstrução que eles montaram revelou uma sequência surpreendentemente nítida.

Entre tudo o que foi rastreado, a alteração digestiva apareceu primeiro. Em seguida veio o “sensor” de açúcar, que já existia no ancestral comum compartilhado por todos os manaquins atuais.

Só depois desse alicerce surgiram as acrobacias, juntamente com a plumagem brilhante dos machos que torna a diferença entre os sexos tão marcante.

Em outras palavras, a dança entrou relativamente tarde nessa história.

“Adquirir a capacidade de explorar uma dieta rica em frutas pode ter sustentado as condições energéticas que mais tarde permitiram uma forte seleção sexual, impulsionando o comportamento elaborado dos manaquins”, observou Toda.

Quando a dieta muda tudo

O recado aqui é sobre o tempo. Uma mudança discreta no paladar ou na digestão pode empurrar uma linhagem inteira para um novo rumo evolutivo, abrindo oportunidades que, de outro modo, talvez nunca aparecessem.

Sistemas sensoriais e digestivos, ao que parece, não ficam apenas assistindo à evolução acontecer.

Um acesso mais eficiente às frutas garantiu a energia excedente que, com o tempo, o cortejo complexo dessas aves passaria a consumir.

Agora, o grupo de pesquisa espera rastrear outras características complexas - em manaquins e em animais muito além deles - até origens fisiológicas igualmente pequenas.

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