Quando a Apollo 11 pousou na superfície lunar em 20 de julho de 1969, aquele momento passou a definir um antes e um depois na relação da humanidade com a Lua.
Quase todo mundo lembra dos símbolos mais óbvios: a bandeira dos Estados Unidos. As pegadas bem marcadas. Os sacos de dejetos humanos abandonados no pó cinza-escuro, com aspecto metálico.
O que costuma ficar fora da memória coletiva são as caixas de rochas.
Entre 1969 e 1972, o programa Apollo trouxe para a Terra 382 quilogramas (842 libras) de rochas e poeira lunar.
Esses materiais resolveram dúvidas antigas, encerraram discussões e abriram trilhas inteiras de investigação. Ainda hoje, as amostras coletadas nas missões Apollo seguem moldando o que sabemos sobre a Lua.
Segundo o geólogo David Kring, do Instituto Lunar e Planetário (LPI), antes da missão Apollo 11 não havia consenso: "Em vez de terem certeza sobre qualquer coisa, os cientistas discutiam diferentes possibilidades para a origem e a evolução geológica da Lua antes da missão Apollo 11", disse ele ao ScienceAlert.
Entre as hipóteses consideradas, estavam perguntas básicas e controversas: se a Lua seria um corpo primitivo que permaneceu relativamente inalterado desde o início do Sistema Solar; se as crateras teriam sido "explodidas" por vulcões ou escavadas por impactos; e se a atividade geológica lunar pertenceria apenas ao passado distante ou se ainda estaria em curso.
O que as amostras lunares da Apollo revelaram
As amostras da Apollo responderam a essas questões de forma imediata. Elas mostraram um mundo com um núcleo que, no passado, abrigou um oceano global de magma, confirmaram que a craterização por impactos domina a superfície lunar e ajudaram a fixar a idade da Lua em cerca de 4,5 bilhões de anos.
"Costuma-se dizer que as amostras lunares são o presente que não para de oferecer." Geólogo David Kring, LPI
Esses resultados também deram impulso à Hipótese do Grande Impacto, a explicação mais aceita para a origem da Lua. A proposta defende que, em vez de terem se formado separadamente, a Lua teria nascido a partir da própria Terra depois que uma colisão colossal lançou detritos derretidos para a órbita do planeta recém-formado.
Com isso, a relação entre a Terra e a Lua ganhou um significado completamente novo. Sob a Hipótese do Grande Impacto, a Lua deixou de ser apenas um corpo que "por acaso" acompanha a Terra: ela passou a ser entendida como um vestígio preservado dos primeiros capítulos da história terrestre.
Kring resumiu essa ligação de forma direta: "Nós vamos à Lua para entender melhor a sua evolução e os processos geológicos que continuam a moldá-la hoje, mas – ao fazer isso – também estamos aprendendo mais sobre o nosso próprio lar, a Terra".
A Lua como arquivo da história da Terra
Investigar a história inicial da Terra é notoriamente difícil. Tectônica de placas, vulcanismo, vento e água remodelaram a superfície sem parar, apagando e escondendo grande parte do que aconteceu nos primórdios do planeta.
Na Lua, a situação é outra.
Cada impacto e cada escoamento de lava permanecem registrados na superfície. Marcas de eventos posteriores se acumulam sobre as anteriores, formando um arquivo intrincado e estratificado da história lunar que recua bilhões de anos - e esse registro estava ali, ao alcance, esperando que astronautas o trouxessem para casa.
Nas palavras de Kring: "Ciência verdadeiramente transformadora se esconde naquelas amostras".
Entre os insights mais importantes obtidos a partir do material da Apollo está a ideia de que a Lua pode guardar evidências do bombardeio de asteroides que atingiu a Terra por volta de 4 bilhões de anos atrás.
Kring explicou como chegou a essa hipótese: "Desenvolvi essa hipótese enquanto analisava amostras lunares para determinar a magnitude e a duração do bombardeio de impactos que recobriu novamente a Lua bilhões de anos atrás".
Ele acrescentou que os mesmos eventos, ainda mais frequentes na Terra, tiveram um efeito duplo: "Esses mesmos eventos de impacto, ocorrendo ainda mais frequentemente na Terra, vaporizaram os mares da Terra, tornando as condições de superfície inviáveis para a vida. Ainda assim, os eventos de impacto também criaram vastos sistemas hidrotermais subterrâneos que eram cadinhos perfeitos para a origem e a evolução inicial da vida".
Apresentada pela primeira vez em 2000, essa hipótese passou a ser uma peça importante na forma como cientistas interpretam feições de impacto na superfície terrestre - embora a pista tenha vindo de uma caixa de rochas cinzentas e pouco chamativas, trazidas de centenas de milhares de quilômetros da Terra.
Para Kring, isso ajuda a explicar por que o material continua valioso décadas depois: "Continuamos a extrair informações das amostras da Apollo porque a tecnologia analítica está em constante evolução e porque as nossas ideias, com base nesses resultados, continuam a evoluir", afirmou. "Costuma-se dizer que as amostras lunares são o presente que não para de oferecer."
Por que cientistas querem voltar com a Artemis
Essa é uma das razões pelas quais tantos pesquisadores desejam retornar à Lua.
A ciência, porém, não foi o principal motor do programa Apollo. A corrida lunar foi impulsionada pela rivalidade da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. O programa terminou em 1972, após apenas seis pousos tripulados bem-sucedidos, e desde então nenhum ser humano voltou a pisar na Lua.
Ainda assim, nessas seis missões, o impacto científico foi profundo: elas reformularam o entendimento sobre a Lua, sobre a Terra, sobre como a Terra se formou e até sobre as origens da própria vida.
Se foi possível aprender tudo isso com um punhado de missões de mais de 50 anos atrás, é difícil não imaginar o que pode ser alcançado com novos equipamentos, novas técnicas e o legado da Apollo como base.
Kring apontou o próximo passo como algo essencialmente comparativo: "Precisamos esclarecer alguns tipos de processos geológicos com amostras recuperadas em outros lugares da Lua. A Artemis vai oferecer essa oportunidade. Quando entendermos essas amostras, poderemos voltar às amostras da Apollo e começar a extrair ainda mais informações delas", explicou.
Ele também destacou que esse tipo de investigação raramente acontece de uma só vez: "A ciência de exploração costuma ser um processo iterativo. Isso certamente será verdade à medida que resultados da Artemis sejam usados para aumentar ainda mais o valor da coleção da Apollo".
É fácil reduzir o legado da Apollo a uma bandeira fincada, uma mensagem gravada em áudio crepitante e um conjunto de pegadas.
Mas talvez o maior legado seja menos glamoroso: algumas centenas de quilogramas de rochas cinzentas e discretas, das quais cientistas continuam aprendendo mais de meio século depois.
Kring lembrou que a inspiração gerada pelo programa foi além da academia: "[Apollo] inspirou muitos a se tornarem cientistas e engenheiros. Mas quando faço palestras públicas, as pessoas se aproximam de mim e dizem que a Apollo inspirou elas também, a perseguirem seus sonhos. Ouvi isso de um neurocientista. Ouvi isso de um encanador. Ouvi isso de pessoas de muitas profissões", disse.
E completou: "Espero que a Artemis inspire uma nova geração".
Este artigo passou por verificação factual feita por Clare Watson e foi editado por Fiona MacDonald. Embora tenhamos orgulho do nosso processo, somos humanos. Se você encontrar algum erro, por favor, avise.
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