Pesquisadores descobriram que, há mais de 16.000 anos, já existiam florestas numa porção de terra hoje submersa que, no passado, unia a Grã-Bretanha ao continente europeu.
A constatação muda a forma de enxergar a planície inundada entre a Grã-Bretanha e a Europa continental: em vez de um espaço inóspito, ela pode ter funcionado como um refúgio acolhedor para plantas, animais e, possivelmente, comunidades humanas no fim da última era glacial.
Florestas antigas em Doggerland
Sob o sul do Mar do Norte, entre a Grã-Bretanha e a Europa continental, sedimentos ligados a um sistema fluvial desaparecido guardaram sinais de uma paisagem que sustentou um bosque primitivo.
Ao analisar esses sedimentos, o professor Robin Allaby, da University of Warwick, registrou evidências genéticas indicando que carvalho, olmo e avelã já cresciam ali milhares de anos antes do que se imaginava.
Essas espécies surgem bem antes de sinais equivalentes de floresta se tornarem frequentes nos registros de pólen da Grã-Bretanha.
Esse cronograma inesperadamente antecipado abre uma questão: de que maneira florestas temperadas conseguiram se estabelecer tão ao norte durante os estágios finais da era do gelo?
DNA antigo em lama
Nos testemunhos coletados, o DNA antigo sedimentar - rastros genéticos preservados em lama e areia antigas - reteve vestígios locais de plantas e animais.
Siltes finos e areias finas ofereceram o registro mais nítido, já que a água mais lenta permitiu que o DNA local se depositasse próximo de onde os organismos viviam.
Em contrapartida, areias grossas frequentemente misturaram material mais antigo a camadas mais recentes, um risco que a equipe modelou antes de tirar conclusões.
Essa verificação foi importante porque, nas camadas consideradas seguras, 95 a 98 por cento do DNA recuperado parecia ter origem nas proximidades.
Florestas surgiram muito cedo
Carvalho, olmo, avelã e amieiro foram identificados no sul de Doggerland - a faixa hoje submersa entre o leste da Grã-Bretanha e a Europa continental - muito antes de essas árvores se tornarem comuns na Grã-Bretanha.
Camadas posteriores também trouxeram Tilia (tília), uma árvore que prefere calor, sugerindo bolsões localmente mais amenos mesmo em períodos mais frios.
A presença de DNA de javali reforçou a ideia de algo além de mudas esparsas, já que esses animais dependem de cobertura vegetal e de alimento confiável.
Em conjunto, os indícios apontam para um ambiente mais rico, com água, recursos para forrageio e abrigo muito antes da inundação.
Árvore rara sobreviveu ali
Outra surpresa veio de Pterocarya, parente da nogueira que hoje não ocorre no noroeste da Europa, mas apareceu claramente em sedimentos considerados seguros.
Os pesquisadores descartaram uma simples contaminação porque o padrão de danos do DNA era compatível com o de outros DNAs antigos de árvores recuperados nos mesmos testemunhos.
Evidências anteriores sugeriam que essa árvore teria desaparecido da região há cerca de 400.000 anos, muito antes do sinal agora detectado.
Isso não comprova uma sobrevivência contínua em toda parte, porém aproxima bastante a história local da espécie de tempos mais recentes.
Por que o momento importa
Há décadas ecólogos tentam explicar como árvores de clima temperado avançaram tão rapidamente para o norte após o gelo começar a recuar.
Uma hipótese para esse enigma são os microrefúgios: pequenos bolsões protegidos em que espécies atravessam fases de clima hostil.
Doggerland se encaixa nessa ideia porque a presença de mata madura aparece cedo demais para ser resultado de um avanço lento a partir dos refúgios meridionais clássicos.
Um abrigo próximo teria acelerado a chegada de sementes, animais e, depois, pessoas ao norte da Europa.
Humanos viveram em Doggerland
Em torno daquele sistema fluvial, alimento e água doce provavelmente eram abundantes, tornando a planície arborizada atraente muito antes de o nível do mar subir.
Esse cenário remonta a um período anterior ao Mesolítico - a fase intermediária da Idade da Pedra - que está documentado com firmeza na região.
Evidências posteriores da cultura Maglemosiana, uma tradição inicial de caçadores-coletores do norte da Europa, indicaram o uso de áreas úmidas setentrionais por volta de 10.300 anos atrás.
Assim, o novo cronograma amplia a janela de tempo em que grupos humanos poderiam ter circulado, caçado e se estabelecido ali.
Doggerland foi inundada lentamente
Por volta de 8.150 anos atrás, um enorme deslizamento submarino ao largo da Noruega desencadeou o tsunami de Storegga, uma onda gigante que atravessou o Atlântico Norte e entrou na bacia do Mar do Norte, atingindo a região.
Sedimentos seguros depositados após o tsunami ainda continham DNA terrestre, o que indica que havia terra seca próxima o suficiente para continuar alimentando os depósitos locais.
“Encontramos inesperadamente árvores milhares de anos antes do que qualquer um esperava – e evidências de que o Mar do Norte se formou totalmente mais tarde do que se pensava”, disse o professor Allaby.
Na prática, a inundação parece ter ocorrido em mosaico, mantendo algumas áreas acima da água até aproximadamente 7.000 anos atrás.
DNA melhor do que pólen
O pólen antigo já havia sugerido a existência de algumas árvores precoces, mas tinha dificuldade em associá-las a um local pequeno e específico.
Já o DNA preservado em sedimentos finos de rio tende a ficar próximo de onde foi depositado, registrando o que de fato crescia ao longo do sistema fluvial que atravessava Doggerland.
Essa distinção é relevante porque o pólen transportado pelo ar pode viajar grandes distâncias, enquanto sinais carregados por sedimentos mais pesados costumam refletir a vegetação nas imediações.
Quando se enxerga com mais precisão um único vale, podem surgir refúgios que registros regionais amplos simplesmente diluem.
A Grã-Bretanha perdeu a história inicial
O registro inicial escasso da Grã-Bretanha passa a parecer menos um enigma de ausência e mais um efeito de território perdido.
Com o avanço do mar, rotas, acampamentos e margens que antes ficavam em Doggerland foram engolidos, tornando-se parte do fundo do Mar do Norte.
Isso ajuda a entender por que a Grã-Bretanha continental preserva tão pouco das comunidades mais antigas do pós-era do gelo em comparação com períodos posteriores.
Allaby afirmou que a paisagem arborizada provavelmente sustentou comunidades mesolíticas iniciais e pode explicar por que tão poucas evidências desse período sobreviveram na Grã-Bretanha continental hoje.
Doggerland é a mítica Atlântida?
Muita gente hoje está convencida de que Atlântida não passa de um mito fascinante: palácios perdidos, tecnologia avançada, uma cidade engolida pelo mar. Ainda assim, Doggerland dá a essa narrativa um giro com base no mundo real.
As pessoas viveram e caçaram em Doggerland antes de a elevação do mar afogá-la lentamente. Só isso já a aproxima, de forma inquietante, da Atlântida.
A associação fica mais instigante quando se observa a descrição de Platão. Ele escreveu sobre uma grande planície com montanhas ao norte. Doggerland era uma vasta planície fértil, com as terras altas da Escócia e da Escandinávia situadas ao norte.
Alguns pesquisadores também citam a escala. Estimativas do Dogger Bank chegam surpreendentemente perto das dimensões indicadas por Platão para a Atlântida.
E há o desastre em si. Por volta de 6200 a.C., o Deslizamento de Storegga, ao largo da Noruega, gerou um tsunami de cerca de 4,9 m de altura. É provável que essa onda tenha atingido os últimos trechos de Doggerland.
Platão escreveu que a Atlântida desapareceu em um “único dia e noite de infortúnio”. Essa frase mantém a teoria em circulação.
No entanto, Platão descreveu uma civilização poderosa com bronze, carruagens, templos e guerra. Doggerland, por sua vez, só revelou ferramentas mesolíticas, arpões de osso e outros vestígios de caçadores-coletores. Nada de cidade gigantesca. Nada de império.
Até hoje, há bastante espaço para discussão dos dois lados.
O que vem a seguir
O novo conjunto de dados transformou Doggerland de uma rota afundada em mapas antigos em um núcleo ecológico efetivamente habitado.
Agora, dragagens e novas coletas de testemunhos, mais direcionadas, podem ajudar a testar onde as pessoas acampavam, por quanto tempo os refúgios persistiram e quais espécies conviveram nesses ambientes.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário