Dá para dizer que o público britânico tem um faro apurado - pelo menos desta vez. O Ford Focus é o carro mais vendido no Reino Unido e, sem exagero, é excelente. Essa mistura chama atenção porque, no passado, os britânicos já se apaixonaram por umas escolhas bem duvidosas: Cortina, Cavalier, o Fiesta em algumas fases bem fracas, o Nissan Bluebird, o primeiro Corsa meio sofrível… em algum momento, todos eles já - para usar aquela linguagem de “parada” - estiveram no topo.
E, correndo o risco de soar como um pregador de beira de estrada a serviço da Ford (FoMoCo), eu realmente acho que o Focus de hoje dá aquela sensação boa de estar vivo e ao volante. Para começar, ele entrega praticamente tudo o que você pode precisar ou querer de um carro. E, além disso, ele fica cravado naquele ponto em que o gráfico de preços de carro novo começa a subir íngreme: se você quiser algo só um tiquinho melhor do que isso, prepare-se para pagar bem mais. Especialmente depois de negociar aquele desconto típico da Ford.
Claro, dá para fazer o mesmo argumento sobre outros modelos. Um Peugeot, um VW, ou então Hyundai e Kia, por exemplo. Mas no Focus essa lógica parece valer um pouco mais.
Estou em um 2.0 TDCi. É ótimo de dirigir e anda o suficiente, mas faz mais de 14 km/l em uso real. Também é silencioso e confortável o bastante para viagens longas. Seguro, inclusive. Se você foi “abençoado” com filhos, os pestinhas e toda a parafernália deles cabem no banco de trás e no porta-malas. Você pode até achar que seus amigos adultos vão te admirar mais se você comprar um BMW Série 1, mas essa admiração some na hora em que eles pegam carona e descobrem o aperto lá atrás. Se fosse um Focus, sua reputação social seguiria intacta.
Quanto a este Focus “novo”, as mudanças são principalmente as que você vê nas fotos. O visual ficou mais “Kinetic”. A Ford fez isso porque o Mondeo e o Ka e Fiesta do ano que vem têm essa cara, e eles queriam alinhar o Focus, que é o campeão de vendas. É caro mexer nisso, mas, por outro lado, desta vez eles não gastaram muito com motor, chassi ou espaço interno. Justo: nesses quesitos, ainda não há nada que bata um Focus.
E, de fato, a escolha de mexer no que aparece e manter a base acabou se provando certa, porque nenhum dos hatches deste ano (os coreanos, o 308, o Auris, o Qashqai) chega ao Focus em qualidade de condução. E como há muita “inteligência” vazando entre montadoras, a Ford também sabia que o “novo” Golf do ano que vem seria, em grande parte, um tapa no visual, preservando estrutura e vidros. A Ford deu o troco antes.
Sim: todos os painéis externos deste Focus são novos, com exceção do teto e dos vidros. A frente lembra tanto o Mondeo que, no primeiro instante, dá uma sensação de escala errada - como uma cabeça grande em ombros pequenos. Há caixas de roda mais marcadas na frente e atrás, laterais mais esculpidas e um vidro traseiro mais profundo, levemente hexagonal. A tampa do porta-malas e o para-choque agora têm mais linhas horizontais, então o carro parece mais largo, e as versões de topo ganham lanternas traseiras em LED bem chamativas.
A cabine também passou por uma mexida. O mais óbvio é o painel de instrumentos mais “Mondeo”: iluminação vermelho-e-branco nítida no lugar daquele verde antigo e sem graça, e umas molduras prateadas meio exibidas em volta dos mostradores, tipo escotilha. Existe um console mais caprichado para qualquer versão que esteja mais da metade do caminho na lista de equipamentos, além de material mais macio na parte superior das portas. Mas, como a Ford dá, a Ford também tira. Essas partes melhores contrastam de um jeito meio cruel com os plásticos duros no restante da metade inferior das portas e do painel. Aceita, gente: é por isso que você não está pagando preço de VW. E agora é tudo “alumínio” fake: o velho acabamento Ghia com falso-madeira de subúrbio finalmente foi aposentado.
A lista de opcionais de navegação, comunicação e entretenimento é coisa de carro grande - só que você paga por isso. Nos itens de série, há o sistema esperto de abastecimento: um bocal sem tampa que impede você de enfiar a pistola de gasolina se o carro for diesel, e vice-versa. Também vem de fábrica o ESP, calibrado de forma sutil para não acabar com a diversão.
Outro opcional novo é o PowerShift, o primeiro rival de verdade para o brilhante DSG da VW. Ele chega no ano que vem, então, por enquanto, a Ford não tem carro de teste. A gente conta quando tiver.
Todos os motores são os mesmos (então o ST continua - ainda bem), mas há pequenas mudanças. Os diesels ganharam um novo pacote de isolamento acústico que deixa tudo mais silencioso sem adicionar peso. Todo 1.6 diesel fica abaixo de 120 g/km, e existe um modelo de baixo CO₂ com 115 g/km chamado ECOnetic, que pode valer a pena porque mantém os 110 bhp completos e as mesmas relações de marcha do normal - então não deve vir “capado”. Uma das mudanças para melhorar o consumo é um novo óleo de câmbio - parece chato, mas deixa as trocas mais suaves, então eles espalharam isso pela linha inteira.
E, sim, este 2.0 TDCi é realmente silencioso e tem um câmbio de seis marchas bem gostoso, para você usar o torque como quiser: seja num rodar tranquilo, seja numa tocada mais animada. A direção do Focus continua tão progressiva quanto sempre, e é impressionante como ele é divertido de jogar para lá e para cá. Sinceramente, ele se comporta como carro esportivo. O problema é que, como qualquer carro com essa lataria “encorpada” e cheia de volumes (Audis e BMWs sofrem do mesmo), ele pede rodas grandes para ficar bem. Isso me colocou em rodas 17", e aí ele seguiu as canaletas do asfalto e piorou o conforto em pequenas irregularidades, mandando uma tremidinha para a coluna de direção. Fora isso, a suspensão trabalha bem, especialmente em velocidade de rodovia, onde você tem conforto e silêncio de carro maior. Só um pouco de ruído de vento atrapalha.
Com esse visual de Mondeo, é interessante ver como os dois Fords agora se comparam. O ponto é que o novo Mondeo é, de fato, um carro muito grande - a perua tem porte de Volvo V70. Todo esse inchaço e peso fazem com que, no interior, ele possa parecer meio lento e, na cidade, um tanto desajeitado. O Focus escapa dessas armadilhas com folga, mas hoje, mais do que nunca, entrega vantagens de carro grande. Para que pagar mais?
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