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Cultura magdaleniana usou ossos de baleia há 20.000 anos na Baía da Biscaia

Pessoa esculpindo uma faca de madeira com outras peças de madeira em um rochedo à beira-mar.

Há cerca de 20.000 anos, pessoas que viviam nas proximidades da Baía da Biscaia já transformavam ossos de baleia em ferramentas, segundo uma nova pesquisa.

Ao reexaminar peças que ficaram por anos guardadas em coleções de museus por toda a Europa, os cientistas concluíram que a cultura magdaleniana não apenas trabalhou e utilizou ossos dos maiores animais vivos do planeta, como também recorreu a diferentes espécies - muito antes de existir tecnologia para caçar baleias de forma ativa.

A constatação traz pistas valiosas sobre os próprios magdalenianos e, ao mesmo tempo, ajuda a reconstruir a ecologia mutante da Baía da Biscaia, ao largo das costas da França e da Espanha.

"Sou um arqueólogo mais acostumado a faunas terrestres. Estou habituado a escavar sítios em cavernas no sopé dos Pireneus, e trabalho com o período magdaleniano, que deixou uma arte rupestre bem conhecida mostrando sobretudo ungulados (cavalo, bisão, cervídeos etc.)", disse ao Alerta de Ciência (ScienceAlert) o arqueólogo Jean-Marc Pétillon, da Universidade Toulouse-Jean Jaurès, autor sênior do estudo.

"O mais empolgante para mim é lançar luz sobre o quanto o mar, e os animais marinhos, também podem ter sido importantes para as pessoas daquela época."

Cultura magdaleniana e as evidências arqueológicas no interior

A cultura magdaleniana ocupou áreas costeiras e interiores da Europa Ocidental e floresceu aproximadamente entre 19.000 e 14.000 anos atrás, quando o planeta se aproximava do fim do último período glacial. Embora tenha deixado um registro arqueológico relativamente rico, esse registro tem limitações.

Ambientes costeiros antigos são especialmente vulneráveis à ação do tempo e do oceano. Por isso, grande parte do que se sabe sobre o uso de recursos do litoral chega até nós por sítios no interior, para onde objetos foram levados.

Foi justamente nesses locais afastados da costa que arqueólogos escavaram artefatos magdalenianos: "mais de 150 ferramentas e pontas de projéteis feitas de osso de baleia, presumivelmente de origem atlântica, encontradas em sua maioria dispersas das Astúrias até a parte central da cordilheira dos Pireneus do norte", escreve uma equipa liderada por Krista McGrath, da Universidade Autônoma de Barcelona, e por Laura G. van der Sluis, da Universidade de Viena.

Ossos de baleia como matéria-prima: recolha oportunista e pontas de projéteis

Técnicas de navegação e de caça capazes de atingir baleias só apareceriam milhares de anos depois. Assim, os ossos disponíveis aos magdalenianos teriam vindo de oportunidades ocasionais, como encalhes na faixa costeira. A partir desse material recolhido, eles produziram ferramentas - sobretudo pontas de projéteis, segundo explicou Pétillon.

"A principal matéria-prima usada para fabricar as pontas naquele período é a galhada (de rena ou de cervo-vermelho), porque é menos quebradiça e mais maleável do que o osso de mamíferos terrestres", afirmou.

"O fato de algumas pontas serem feitas de osso de baleia mostra que esse material foi preferido em certos casos. Provavelmente por causa das suas grandes dimensões: algumas das nossas pontas de osso de baleia tinham mais de 40 centímetros (cerca de 16 polegadas) de comprimento, algo difícil de obter com galhada."

Métodos: paleoproteômica e microdatação por carbono

Para compreender melhor quando esses ossos passaram a ser usados e de que forma serviram como matéria-prima, os pesquisadores aplicaram duas abordagens relativamente recentes.

A primeira foi um método de paleoproteômica, que examina peptídeos de colágeno preservados em amostras antigas para identificar a espécie. A segunda foi a microdatação por carbono, uma variação da datação por radiocarbono que exige menos material.

Com o uso criterioso dessas técnicas, a equipa datou as ferramentas de osso entre 16.000 e 20.000 anos atrás.

Diversidade de baleias na Baía da Biscaia e sinais ecológicos

Os resultados indicam que pelo menos cinco espécies diferentes de grandes baleias forneceram ossos que acabaram incorporados à tecnologia magdaleniana - o que também informa sobre a ecologia regional durante o último período glacial.

"Nosso estudo mostra que havia uma grande diversidade de espécies de baleias no Golfo da Biscaia, no nordeste do Atlântico Norte, naquele período. A maioria das espécies que identificamos (cachalote, baleia-azul, baleia-comum) está presente no Atlântico Norte hoje; nessa perspetiva, a presença delas não é surpreendente", disse Pétillon.

"O que foi mais surpreendente para mim - como arqueólogo mais acostumado a faunas terrestres - foi que essas espécies de baleias permaneceram as mesmas apesar da grande diferença ambiental entre o Pleistoceno Tardio e hoje. No mesmo período, as faunas continentais são muito diferentes: os ungulados caçados incluem renas, antílopes-saiga, bisões etc., todos ausentes da Europa Ocidental hoje."

De forma interessante, a análise de isótopos de carbono e nitrogênio, incorporados a partir do ambiente conforme os animais se alimentavam, indica que essas baleias tinham uma dieta ligeiramente diferente daquela observada hoje nas mesmas espécies.

Não é possível estabelecer com precisão o que isso significa - talvez rotas migratórias distintas, talvez diferenças na disponibilidade de alimento -, mas o achado aponta para uma capacidade de adaptação às condições em mudança, sejam elas quais forem.

A presença de baleias na Baía da Biscaia, na interpretação dos pesquisadores, teria sido um atrativo para a cultura magdaleniana, oferecendo uma oportunidade de recurso valiosa demais para ser ignorada. Ainda que encalhes não fossem necessariamente frequentes, eles teriam entrado na lista de vantagens da vida no litoral e influenciado padrões de mobilidade humana na região.

O resultado, com várias camadas de interpretação, também reforça a importância de revisitar materiais recolhidos no passado e verificar o que novas técnicas podem revelar.

"Mesmo coleções antigas, escavadas há mais de um século com métodos de campo hoje ultrapassados e guardadas por muito tempo em museus, podem trazer novas informações científicas quando abordadas com as ferramentas analíticas certas", disse Pétillon.

A pesquisa foi publicada na revista Comunicações da Natureza.

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