Charles Lieber, um dos nomes mais influentes da nanotecnologia no mundo - e que muitos consideravam fora do cenário científico após ser condenado nos Estados Unidos - voltou a aparecer. E não foi em qualquer lugar: em Shenzhen, o chamado Vale do Silício chinês, onde agora comanda um projeto que pode mexer com os rumos da humanidade.
De Harvard ao caso com o FBI
Há alguns anos, Lieber chefiava o departamento de química de Harvard e era visto como um forte candidato ao Nobel por suas pesquisas em nanotecnologia. Esse caminho, porém, mudou quando uma investigação do FBI apontou uma vida paralela: ao mesmo tempo, o cientista mantinha ligação com o programa chinês “Mil Talentos”, criado por Pequim para atrair especialistas estrangeiros de alto nível.
De acordo com as apurações, a China pagava valores em segredo: um salário mensal de 50 000 dólares, 150 000 dólares em despesas de subsistência e, sobretudo, mais de 1,5 milhão de dólares para montar um laboratório de pesquisa na Universidade de Tecnologia de Wuhan. O caso acabou nos tribunais.
Em 2021, o Departamento de Justiça o condenou por seis acusações, incluindo declarações falsas e fraudes fiscais. A pena final foi de dois dias de prisão - cobertos pelo período inicial de custódia - e seis meses de prisão domiciliar, além de multa de 50 000 dólares e devolução de 33 600 dólares ao fisco.
Na época, sua defesa pediu clemência citando um linfoma incurável e afirmando que o pesquisador “luta pela própria vida”.
Charles Lieber em Shenzhen e o i-BRAIN
Hoje, porém, Lieber está à frente do i-BRAIN (Institute for Brain Research, Advanced Interfaces and Neurotechnologies)… na China.
Sua meta é criar interfaces cérebro-máquina (BCI) altamente avançadas, em linha com a proposta da tecnologia da Neuralink, empresa de Elon Musk. Em abril de 2025, já livre das restrições judiciais, Lieber viajou para a China - segundo revelou a Reuters em uma investigação extensa. Em uma conferência governamental em Shenzhen, no mês de dezembro anterior, ele declarou: “Cheguei em 28 de abril de 2025 com um sonho e nada mais, talvez apenas duas malas de roupas. Pessoalmente, meus próprios objetivos são fazer de Shenzhen um líder mundial”.
Pesquisas para aumentar soldados
Lieber é reconhecido por conseguir introduzir componentes eletrônicos flexíveis tão finos que podem se integrar aos neurônios sem provocar resposta imunológica. Se, por um lado, esse tipo de solução pode devolver a fala a pacientes com esclerose lateral amiotrófica (ELA), por outro, interessa a Pequim por motivos bem mais estratégicos.
Em março de 2026, o governo chinês colocou oficialmente os implantes cerebrais como prioridade nacional, avaliando que o setor equivaleria a criar “um novo setor de alta tecnologia chinês em 10 anos”.
Nesse cenário, Lieber passou a contar com recursos gigantescos. O laboratório tem 2 000 gaiolas para macacos, o que facilita testes considerados cruciais para validar os implantes - algo que, hoje, seria inviável de financiar ou de justificar eticamente nos Estados Unidos. Além disso, o i-BRAIN se equipou com máquinas de litografia da ASML capazes de gravar circuitos em escala nanoscópica.
Segundo Glenn Gerstell, ex-conselheiro da NSA, o caso deixa claro que as ferramentas jurídicas norte-americanas não dão conta da situação, ainda mais no contexto geopolítico atual. Já o Pentágono acompanha com preocupação pesquisas voltadas a aumentar a agilidade mental de tropas ou a controlar drones diretamente pelo pensamento. Nessa nova corrida armamentista, Charles Lieber pode acabar entregando a Pequim uma vantagem decisiva.
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