Por que não vemos vans esportivas por todo lado, tão comuns quanto poste de rua ou um Fiat 500 com adesivo “movido a pó de fada” na tampa do porta-malas? É sério. Principalmente vans apimentadas da Ford. Pensa bem: o Oval Azul vive acertando a mão em carros de compras com mais desempenho, e a Transit é a van mais vendida do Reino Unido. Do mesmo jeito que “hoover” ou “Sellotape”, o nome virou quase sinônimo do produto. E qualquer um que já tenha visto uma Transit crescendo rápido no retrovisor confirma: muitas vezes elas estão com pressa.
Texto: Ollie Kew / Fotografia: Oli Tennant
Por que a Ford Transit quase já é “rápida o bastante”
Minha teoria é que, com um motor diesel moderno, uma Ford Transit já anda o suficiente para tirar a maioria dos carros comuns do caminho - e ainda custa tostões para um profissional autônomo manter no dia a dia. Mas hoje a proposta é visitar um universo paralelo: um em que o carro esportivo não foi enxertado no pacato carrinho de família para criar o hot hatch.
E se o Golf GTI nunca tivesse existido? E se, no lugar dele, o utilitário veloz preferido fosse… uma van? Uma caixa com rodas e potência de sobra.
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Transit Courier com motor do Fiesta ST: a nova receita
A Ford está, justamente, preparando uma releitura dessa ideia: uma Transit Courier empurrada pelo foguete de três cilindros e 200hp do brilhante Fiesta ST. Hoje, ela foi trazida discretamente para a pista de testes ultrassecreta da Ford em Basildon, Essex, logo ali fora da A127. Se você passar o McDonalds à esquerda, passou do ponto.
A TG recebeu acesso exclusivo ao complexo para uma missão de apuração. O objetivo: descobrir se a ideia de uma “Transit ST” faz jus ao selo de Fast Ford de verdade. Só que, antes, precisamos de referência - um painel de clima, um pouco de contexto sobre quatro rodas. E isso vem das tentativas anteriores da Ford de apresentar ao mundo o conceito de “veículo comercial de performance”.
Transit Connect com coração de Focus ST: rápido e surpreendentemente polido
Antes de chegar neles, todos cheios de grafismos do tipo “olhem para mim”, eu só vou tirar da pista este banal Transit Connect que ficou largado no circuito… e M-e-u D-e-u-s, isso aqui é rápido.
Este exemplar cinza, com rodas suspeitamente exibidas (meio floco-de-neve, meio “tuning discreto”), na verdade carrega o coração do antigo Focus ST. Ou seja: um 2.0-litros turbo de 247bhp. É o mesmo conjunto que deixou o último Focus apimentado mais indisciplinado do que uma criança depois de tomar M&Ms e espresso. Era um briguento: puxava no volante com torque steer, tinha turbo lag, bebia demais. Ótimo para uma esticada, mas fazê-lo se comportar numa estrada secundária era como pedir com educação ao torcedor já bem abastecido, sentado na sua frente, para maneirar um pouquinho no palavreado.
O mais óbvio é que a Ford deveria ter feito desde o começo um Transit Connect ST. Porque isto aqui é fácil. Quase não há puxões nem contorções no volante quando a turbina enche, e, quando está com pressão de verdade e o “boombox” de ruído de motor tenta imitar o velho Focus ST de cinco cilindros, o som sai bem encorpado - com aquele borbulhar gostoso. E anda. Anda muito.
O câmbio também é esperto, e não aparece um pomo de câmbio em carbono tão de bom gosto quanto este desde o opcional do Porsche Carrera GT. Excelente começo, então: van pode ser tão rápida quanto um hot hatch - e ainda mais precisa.
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2004 e o Transit X-press: a era do Focus RS e dos exageros
Agora, volta para 2004. Um mundo sem YouTube; um mundo em que “twitter” ainda era só barulho de passarinho. A Ford tinha encerrado no ano anterior a produção de um dos hot hatches mais absurdos do início do novo milênio: o Focus RS mk1.
Que carro. Só existia em azul. Era amplamente retrabalhado em relação ao Focus padrão (que já era brilhante). Tinha 212bhp, 229lb ft (cerca de 310Nm) e, em piso ruim, era tão briguento que podia deslocar seus dois ombros se a calibragem dos pneus estivesse minimamente fora do ponto. Um dos hot hatches mais bonitos já feitos - e, por dentro, um dos menos elegantes.
E dá para adivinhar para onde isso vai. Lá dentro da Ford, a coceira do “e se a gente…” precisava ser coçada - e o resultado foi a mistura do hot hatch mais malvado da marca com sua menor van. Nascia a Transit X-press. E, por favor, repare na cara de anos 2000 que aqueles grafismos têm.
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O que torna este exemplar único especial é o nível de montagem e acabamento. A atenção aos detalhes é padrão Pagani - se a Pagani tivesse um orçamento de dez reais e só o Microsoft ClipArt para trabalhar.
Ainda assim, quinze anos atrás a gente era mais inocente. Babávamos por painéis totalmente flocados, admirávamos volantes de metal cru com botões vermelhos de nitro (brincadeira, é a buzina), e a ideia de bancos concha Recaro em couro branco, montados tão altos que quase pediam cilindro de oxigênio, povoava os sonhos torturados de qualquer adolescente. Isto aqui não é uma van. É um personagem de TOWIE com uma alavanca de câmbio.
Ela é um pouco espalhafatosa, sim, mas ao volante funciona como um sleeper respeitável. Quase não faz barulho para anunciar a intenção. Você gira a chave normal, aperta o botão verde de partida e… praticamente nada acontece, em termos de som.
O engate é um pouco duro. Você sai em primeira, e parece que não vai. Em algum momento, o manômetro de pressão acorda, vem um assobio distante do turbo e a X-press dispara para frente como se alguém tivesse ligado um eletroímã gigante lá na frente. É esquisito. Quase sem drama, sem aquele aviso de velocidade chegando - e, de repente, pronto: você já está em outro lugar.
Sem patinar e sem torque steer para atrapalhar. Fica a lição: uma van turbinada pode ser não só rápida e civilizada, como também fácil de conduzir e discreta - desde que você fuja do couro branco.
Supervan 3: a lenda mais barulhenta e menos sensata
Com esse diagnóstico em mãos, eu estava pronto para provar o que a Ford acha que deveria ser uma Transit ST moderna, com especificação de 2019. Só que, no complexo secreto ao lado da A127, ainda havia mais uma variação para apresentar: a mais doida, mais malvada e mais “não se aproxime” van já construída. Sim: a Supervan de verdade está aqui.
Essa coisa começou a vida nos anos 1980 como uma réplica de Transit em fibra de vidro com sete oitavos do tamanho, com um V8 de Fórmula 1 montado na traseira. Depois, a estética foi ajustada para lembrar a Transit Mk3 e, quando cansaram de levar uma equipe inteira de F1 toda vez que queriam ligar o brinquedo esquisito, a Ford trocou o motor. Hoje ela roda com um V6 2.9-litros supercharged, vindo de um protótipo de corrida da Ford.
Com cerca de 300bhp, manda força para os pneus traseiros por um câmbio de competição Hewland de cinco marchas, tem “uns 8 onças” de peso para deslocar e é a coisa mais barulhenta do planeta. “Você vai precisar de protetores auriculares”, o Trevor me avisou. Trevor é um veterano da Ford e é quem mantém a Supervan funcionando.
“QUE?”
"PROTORES AURICULARES!"
"LESMA DO MEDO? NÃO, ELAS SÃO INOFENSIVAS"
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A única coisa que ela compartilha com uma Transit ali de 1990 e poucos são os faróis, mas não pense que a Ford colocou o motorista tão baixo quanto colocou o motor. Os dois bancos concha ficam bem no meio da cabine; os pedais estão lá em cima, numa prateleira na altura dos joelhos; e o volante se impõe, empurrando para dentro do espaço como se quisesse dominar a sala.
No painel, nada de rádio, nada de jornal sensacionalista. Só comandos para a ignição, para as bombas de combustível de baixa e alta pressão e, então, o botão de partida que acorda até defunto.
Esta van não é como as outras. Ela é um psicopata. Já dirigi carros em que eu amarelei de acelerar por serem rápidos demais ou por terem pouca tração. Mas isto aqui é a primeira coisa que eu pilotei em que eu simplesmente não consegui pisar fundo porque é… barulhento demais.
O BRRRRAAAAP do V6 é afiado e grosseiro, e parece interferir em órgãos vitais. A Ford fez um trabalho e tanto mantendo isso vivo por tantos anos - já era para ela ter gritado até virar um monte de peças décadas atrás.
“Sim, eu me arrependi de ter vindo com esse suéter. Suei tanto que agora ele só serve para um boneco de ação.”
A Supervan 3 é um lunático. Quando você se acostuma com o estalo do motor, sobra encarar a velocidade bruta - porque isso aqui é rápido. Rápido no nível de um BMW M3, só que com a complicação extra de trocar marchas com precisão de lâmina enquanto você está encolhido numa posição que parece um scrum de rúgbi relaxado.
O pedal de freio é de carro de corrida raiz: completamente duro e exigindo força de verdade, de “pescoço grosso”, para segurar essa coisa. A direção devolve pancadas com raiva. O chassi inteiro quica nas emendas do concreto do autódromo de testes.
Sim, eu me arrependi de ter vindo com esse suéter. Suei tanto que agora ele só serve para um boneco de ação.
Aprendizado feito: dá para criar uma van esportiva decente. Também dá para transformar uma van em carro de corrida - ou criar um carro de corrida que herda todas as desvantagens de uma van e não entrega nenhuma praticidade.
Fico feliz - e honrado - por ter dirigido, ou melhor, “sobrevivido” à Supervan 3, mas, sinceramente, nunca, nunca mais. Ainda assim, continuo convencido de que a Ford acertou alguma coisa com a ideia do utilitário comercial com motor ST. Hora de ver como é uma van-foguete novinha. Assim que meus ouvidos pararem de sangrar.
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