Durante anos, os prejuízos climáticos foram apresentados a partir do que o planeta já perdeu - de eventos extremos a economias enfraquecidas. Só que um novo estudo indica que essa forma de olhar pode estar reduzindo o tamanho real do problema.
De acordo com a pesquisa, emissões de carbono liberadas décadas atrás ainda seguem atuando na atmosfera e na economia global, e os efeitos mais caros dessa conta ainda estão por vir.
Com essa mudança de perspectiva, a mudança climática deixa de ser apenas um custo do passado e passa a parecer uma fatura contínua e crescente, diretamente ligada a decisões antigas.
Onde o prejuízo climático se concentra
No levantamento país a país do artigo, as emissões dos Estados Unidos, sozinhas, já haviam provocado mais de $10 trilhões em danos climáticos até 2020.
A partir desse total, Marshall Burke, professor de ciências sociais ambientais na Universidade Stanford, estimou que cerca de $3 trilhões do prejuízo permaneceram dentro dos próprios Estados Unidos.
A Índia absorveu aproximadamente $500 bilhões, o Brasil cerca de $330 bilhões e a Europa por volta de $1.4 trilhões, repetindo o mesmo padrão além das fronteiras.
Esses números conectam os resultados a economias concretas e levam diretamente à questão central: por que a parte maior da conta aparece mais tarde.
Quem realmente paga pelo carbono
As perdas futuras pesam mais porque o dióxido de carbono permanece na atmosfera por tanto tempo que cada emissão continua aquecendo - e onerando - as economias ao longo dos anos.
Uma tonelada emitida em 1990 gerou cerca de $180 em danos climáticos descontados até 2020 - e a projeção é que cause mais $1,840 até 2100. Esse “rastro longo” ajuda a entender por que os resultados mais recentes ficam muito acima de estimativas anteriores.
“Vemos nos dados que os efeitos de um ano realmente quente podem persistir por muito tempo”, disse Marshall Burke. Em vez de um impacto único, esses efeitos viram um freio duradouro ao crescimento econômico.
É nesse ponto que entra a ideia de “perdas e danos” - prejuízos que continuam existindo mesmo quando cortes de emissões e esforços locais de adaptação não dão conta.
Em vez de tratar a mudança climática como um custo de fundo compartilhado por todos, o estudo associa danos de emissões específicas a emissores específicos.
Essa virada é relevante tanto na diplomacia quanto nos tribunais, onde discussões sobre responsabilidade costumam travar porque ninguém consegue colocar um preço claro no dano. Os números não encerram a culpa legal, mas fornecem um ponto de partida muito mais preciso para reivindicações futuras.
Emissões corporativas também carregam custos
O estudo também chama atenção para o quanto do prejuízo pode ser rastreado até grandes emissores corporativos. A Saudi Aramco, maior empresa estatal de petróleo do mundo, teria causado cerca de $3 trilhões em danos econômicos globais até 2020.
Se essas emissões permanecerem na atmosfera até 2100, esse total pode subir para aproximadamente $64 trilhões - mais de 20 vezes acima.
“Enquanto uma tonelada de dióxido de carbono emitido estiver lá em cima, ela está causando aquecimento e esse aquecimento está causando danos”, afirmou Burke.
Essa permanência também impõe limites ao que ações de limpeza conseguem fazer quando chegam tarde demais. Tecnologias de remoção de dióxido de carbono da atmosfera podem reduzir prejuízos futuros, mas o momento de agir é decisivo.
O estudo concluiu que, se as emissões ficarem 25 anos no ar antes de serem removidas, cerca de metade do dano climático esperado já aconteceu.
Limpar ainda faz diferença, porém os resultados deixam claro que a velocidade define se a remoção evita danos ou se, em grande parte, ocorre depois que eles já se materializaram.
Escolhas do dia a dia também acumulam custos
Os pesquisadores também trouxeram o cálculo para a escala individual. Comportamentos rotineiros podem gerar custos que se estendem muito além do instante em que acontecem.
Por exemplo, fazer um voo internacional de longa distância a mais por ano, durante uma década, adiciona cerca de $25,000 em danos futuros descontados até 2100. A viagem termina em poucas horas, mas as emissões seguem influenciando o clima - e a economia - por décadas.
O exemplo dá dimensão humana aos achados, sem sugerir que escolhas individuais, sozinhas, substituam políticas climáticas mais amplas.
A importância de 1990
O estudo adota 1990 como marco inicial, em parte porque pesquisas anteriores mostraram que a mudança climática já ampliou a desigualdade econômica entre países ao longo da metade do século passado.
Esse pano de fundo ajuda a entender por que as estimativas mais novas atingem com mais força, em proporção do PIB, países mais quentes e de menor renda.
Os autores escolheram 1990 como um parâmetro conservador, apesar de evidências indicarem que cientistas já compreendiam riscos climáticos antes disso. A decisão evita inflar os totais e torna os números finais mais difíceis de descartar.
O que os totais ainda não capturam
Mesmo essas estimativas gigantescas não representam o custo completo da mudança climática. Vários impactos não aparecem de forma clara nas estatísticas econômicas nacionais.
A análise não inclui perdas como a queda da biodiversidade - a variedade de vida nos ecossistemas - nem danos a territórios culturais.
Ela também subestima a elevação do nível do mar e parte dos efeitos de eventos extremos; por isso, prejuízos costeiros e perdas por desastres entram apenas parcialmente.
Por causa dessas lacunas, os autores tratam suas estimativas como conservadoras - mesmo antes de considerar debates éticos ou jurídicos sobre responsabilidade.
Uma nova forma de medir o dano climático
Tribunais e negociadores ainda enfrentam decisões difíceis sobre tempo, responsabilidade e se produtores ou consumidores deveriam carregar uma parcela maior da culpa.
Um elemento central é a taxa de desconto - a regra que economistas usam para valorar dinheiro ao longo do tempo -, que pode diminuir o peso de danos futuros ou aumentar a relevância de perdas passadas que ficaram sem pagamento. Essas escolhas podem alterar a conta final, mas não mudam a principal conclusão do estudo.
A pesquisa oferece uma ferramenta para orientar ações, não uma resposta definitiva sobre quem deve pagar. Ela reinterpreta emissões antigas como um passivo econômico “vivo”, já que alguns dos maiores custos aparecem muito depois de o combustível ter sido queimado.
Essa mudança eleva o grau de urgência do que vem a seguir. Qualquer resposta séria precisa equilibrar compensação, limpeza mais rápida e proteções mais fortes, porque atrasos reduzem os danos que ainda é possível evitar.
Comentários
Ainda não há comentários. Seja o primeiro!
Deixar um comentário