Uma visita ao biotério do Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S) revelou o que acontece em um dos ambientes mais controlados e menos acessíveis do instituto, no Porto. A utilização de animais segue restrita aos estudos em que modelos alternativos ainda não conseguem reproduzir toda a complexidade de um organismo vivo.
Por bons motivos, quase ninguém entra ali. No biotério do i3S, o dia a dia é marcado por silêncio, temperatura rigidamente regulada, rotinas estritas de higienização e monitoramento contínuo. Nesse espaço, camundongos são observados todos os dias por uma equipe ciente de que cada gaiola corresponde a um projeto em andamento - e a uma responsabilidade ética que vai além do simples cumprimento das normas.
Essa exigência dupla - produzir ciência e assegurar o bem-estar animal - pautou a visita guiada por Sofia Lamas, coordenadora do biotério, realizada no contexto de uma iniciativa da Associação Europeia de Investigação Animal. "Há um acompanhamento diário, incluindo durante os fins de semana, para garantirmos que estes animais têm tudo aquilo que é necessário para poderem viver com o mínimo stress e com o mínimo impacto do ponto de vista do bem-estar", explica a veterinária. Além do acompanhamento direto dos animais, ela dá suporte aos pesquisadores na elaboração de protocolos experimentais e faz a coordenação da equipe de cuidadores.
Todo o funcionamento é supervisionado pela Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, responsável por licenciar as instalações, autorizar os projetos e certificar os profissionais que atuam com animais de laboratório. No instituto, nenhum pesquisador inicia procedimentos sem antes passar por treinamento específico.
Antes do animal: uma hierarquia de métodos
Antes de qualquer uso de animais, cada estudo percorre uma hierarquia de abordagens. O i3S, que desenvolve pesquisas nas áreas de câncer, infecção e neurociências, dá prioridade a alternativas como culturas celulares, organoides e sistemas órgão-em-chip. "Todos eles são explorados intensivamente antes de passarmos para o modelo do animal vivo. O animal vivo é utilizado como último recurso, com regras muito bem definidas", resume Sofia Lamas.
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A evolução dessas tecnologias já permitiu substituir parte da experimentação animal, mas elas ainda não dão conta de todas as questões científicas. É possível responder a muitas perguntas com organoides - inclusive os produzidos a partir de células de pacientes -, porém, quando o objetivo é analisar um organismo inteiro, com resposta imunológica e a interação entre órgãos e tecidos, os métodos alternativos ainda não conseguem replicar esse nível de complexidade.
Da tuberculose ao câncer
Durante a visita, a aplicação concreta dessa estratégia foi ilustrada por dois projetos de pesquisa. A equipe liderada por Margarida Saraiva investiga a tuberculose para entender por que, em alguns pacientes, o sistema imunológico consegue conter a bactéria, enquanto em outros a resposta acaba gerando lesões graves no pulmão. Para acompanhar a progressão da doença e orientar o desenvolvimento de vacinas e terapias mais eficazes, o trabalho combina culturas celulares, organoides pulmonares e modelos animais.
No campo do câncer, Catarina Gomes apresentou a pesquisa do grupo Glycobiology and Cancer, voltada principalmente para tumores gástricos e colorretais. Os pesquisadores analisam mudanças na glicosilação das células tumorais e identificaram uma molécula com capacidade de reduzir a invasão e o crescimento das células cancerígenas. A confirmação dos resultados ocorreu em etapas: primeiro em culturas celulares, depois em organoides derivados de tumores de pacientes, em modelos de membrana de embrião de galinha e, apenas mais tarde, em animais.
O uso desses modelos segue os princípios internacionais dos três "erres": substituir animais sempre que possível, reduzir o número ao mínimo indispensável e aperfeiçoar procedimentos para diminuir o sofrimento.
O peso emocional de trabalhar com animais
Há um aspecto desse trabalho que quase nunca aparece em apresentações institucionais: o impacto emocional de conviver diariamente com o sofrimento e a morte de animais usados para fins científicos. Ao ser questionada sobre a preparação psicológica da equipe, Sofia Lamas afirma que o tema ainda está em debate. "A fadiga de compaixão é algo que se continua a discutir. Não temos internamente ainda estratégias muito bem definidas", reconhece. Ainda assim, diz que o assunto é conversado com os cuidadores, que são os profissionais com contato mais direto e frequente com os animais.
Talvez essa franqueza - admitir uma dificuldade para a qual ainda não há respostas fechadas - seja o retrato mais fiel de um biotério em 2026: um ambiente regulado nos mínimos detalhes, em que o avanço científico caminha junto de uma reflexão ética contínua e em que a dimensão humana também segue em permanente adaptação.
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