Os hábitos mais citados para proteger mulheres mais velhas da osteoporose costumam passar pelo básico: suplementação de cálcio, vitamina D e exercício com impacto e carga. Chá e café quase nunca entram na lista - a bebida da manhã é vista como conforto, não como estratégia de saúde.
Um acompanhamento de 10 anos com quase 10.000 mulheres norte-americanas mais velhas, porém, indica que o esqueleto pode “discordar” disso. Ao final do período, quem bebia chá apresentou quadris mensuravelmente mais fortes, enquanto o consumo muito elevado de café apontou tendência na direção oposta.
Chá, café e osteoporose
A osteoporose está entre as condições mais frequentes na fase avançada da vida. O organismo não consegue repor o tecido ósseo antigo na mesma velocidade em que ele é reabsorvido, deixando os ossos mais frágeis e com cicatrização mais lenta. Uma em cada três mulheres com mais de 50 anos recebe esse diagnóstico.
Depois da menopausa, a perda óssea costuma acelerar: com a queda do estrogénio, o “turnover” ósseo - o ciclo em que o osso é degradado e depois reconstruído - fica mais rápido. Com o passar dos anos, a reposição vai ficando para trás e, no fim dos 60 anos, até influências pequenas sobre a densidade mineral óssea começam a somar.
É precisamente esse espaço que a nutrição procura entender melhor. Se uma bebida diária alterar discretamente esse equilíbrio, o risco de fraturas pode mudar ao longo de décadas, mesmo que isso não apareça de forma evidente num exame clínico.
Uma década de dados
O estudo foi conduzido na Universidade Flinders, em Adelaide, na Austrália. O epidemiologista Enwu Liu liderou a análise usando dados do Estudo de Fraturas Osteoporóticas, uma coorte extensa que acompanhou mulheres norte-americanas idosas por duas décadas.
Nesta avaliação, foram incluídas 9.704 participantes com 65 anos ou mais. Elas responderam às mesmas perguntas sobre bebidas em quatro visitas clínicas ao longo de aproximadamente 10 anos. A densidade óssea foi medida no quadril e no colo do fémur - um segmento curto do osso da coxa logo acima da articulação do quadril - por meio de duas feixes de raios X de baixa dose.
Segundo os autores, até esta análise não havia um estudo que combinasse medições repetidas de consumo de ambas as bebidas e de densidade óssea nas mesmas mulheres ao longo de uma década. Pesquisas anteriores, em geral, dependiam de um único questionário e de uma única densitometria por participante.
Onde o chá ajudou
Ao longo do período, as consumidoras de chá terminaram com densidade mineral óssea total do quadril ligeiramente maior do que a das não consumidoras. Em média, a diferença foi de cerca de 0,003 g/cm² - discreta para uma pessoa, mas relevante quando se olha para milhares de mulheres.
“Mesmo pequenas melhorias na densidade óssea podem se traduzir em menos fraturas em grandes grupos”, afirmou Liu. O sinal foi mais forte entre mulheres com excesso de peso, e as participantes com obesidade que bebiam chá apresentaram os ganhos mais nítidos entre os subgrupos.
O que os dados não permitem concluir é qual tipo de chá teria maior influência. Verde, preto ou oolong? Os questionários incluíam chá comum e chá gelado, mas não abordavam variedades de ervas nem versões descafeinadas.
Os sinais mistos do café
No caso do café, a leitura foi menos direta. Considerando todas as participantes, tomar café diariamente não mostrou efeito claro na densidade do quadril nem no colo do fémur - um resultado tranquilizador para os milhões de mulheres mais velhas que mantêm esse hábito.
Já nos níveis mais altos de consumo, o padrão mudou. As mulheres que bebiam mais de cinco xícaras por dia tenderam a apresentar densidade óssea menor do que as que consumiam menos, em linha com uma revisão anterior que associou ingestão elevada de cafeína a ossos mais fracos em idosos.
A explicação biológica ainda não é totalmente definida, embora há muito se suspeite que grandes doses de cafeína alterem o equilíbrio do cálcio - o corpo acabaria a perder mais do que absorve. A maioria das pessoas não chega perto de cinco xícaras diárias e, para quem fica em uma ou duas, os dados não apontaram motivo de preocupação.
Quando os hábitos se combinam
O cenário também mudou quando as pesquisadoras e os pesquisadores dividiram as mulheres conforme o uso de álcool ao longo da vida. Entre aquelas que, além do café, também consumiram álcool de forma pesada durante anos, foi observada perda óssea mensurável no colo do fémur; entre consumidoras leves, o café não mostrou esse mesmo efeito.
Isoladamente, cada comportamento parecia pouco problemático, mas, juntos, sugeriram um impacto mensurável. Esse tipo de interação pode passar despercebido em estudos convencionais, nos quais álcool e café normalmente são avaliados em separado.
Em outras palavras, uma rotina com quantidades generosas de ambos pode ter um custo que nenhum dos dois expõe sozinho. Do lado do chá, o padrão apareceu ao contrário: mulheres com maior peso corporal pareceram beneficiar-se mais de uma xícara diária do que o restante da coorte.
O que há dentro da xícara
A vantagem observada do chá pode estar relacionada às catequinas - um grupo de compostos vegetais presentes em folhas de chá verde, preto e oolong. Experimentos em laboratório sugerem que pelo menos uma dessas substâncias consegue estimular as células que formam osso e, ao mesmo tempo, reduzir a atividade das células responsáveis pela reabsorção óssea.
A cafeína, por sua vez, parece agir no sentido inverso. Em estudos laboratoriais, ela aparenta bloquear a adenosina - um mensageiro químico que normalmente ajuda a sustentar a formação óssea - e também pode interferir na forma como a vitamina D sinaliza para as células formadoras de osso.
Ainda se discute até que ponto esses achados de laboratório se traduzem em perda óssea real em uma consumidora típica de café.
Considerados em conjunto, os resultados sugerem que as catequinas estão a exercer algum efeito útil nos ossos de mulheres pós-menopausa, enquanto a cafeína se associa a densidade menor sobretudo em doses altas ou quando combinada ao uso pesado de álcool.
Próximos passos da pesquisa
O impacto do chá em qualquer osso individual é realmente muito pequeno - três milésimos de grama por centímetro quadrado - e, sozinho, não seria suficiente para alterar um diagnóstico de osteoporose. As autoras e os autores reconhecem esse limite.
Em escala populacional, porém, a conta muda. Com uma em cada três mulheres mais velhas a caminho do diagnóstico, um aumento discreto na densidade óssea média se converteria em milhares de fraturas a menos todos os anos.
A análise também não consegue afirmar se o padrão se mantém fora desta coorte, composta majoritariamente por mulheres brancas nos Estados Unidos. A biologia óssea, a alimentação e as preferências de bebidas variam entre populações, e o passo seguinte é repetir o trabalho em grupos mais diversos.
“Os nossos resultados não significam que você precise parar de beber café ou começar a beber chá aos litros”, disse Liu. Para ele, uma xícara por dia pode entrar numa lista curta de hábitos que favorecem ossos mais saudáveis com o envelhecimento, ao lado de cálcio, vitamina D e exercício.
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