Já sentimos tédio - aquela sensação de que o interesse vai diminuindo e a mente deixa de ser estimulada. Com o tempo, a concentração cai, a gente se desliga. O relógio parece andar mais devagar e pode surgir uma inquietação. Seja ao ver um filme que frustra, uma criança reclamando que "não tem nada para fazer", ou um adulto "desligando" numa reunião, o tédio é uma experiência humana comum.
Em geral, o tédio é descrito como a dificuldade de sustentar atenção ou interesse na atividade do momento. Por isso, costuma ser encarado como um estado negativo que deveríamos evitar - ou impedir que aconteça.
Mas e se for possível enxergar o tédio por outro ângulo, como algo potencialmente útil? Será que aprender a acolher o tédio pode trazer benefícios?
O cérebro no tédio
As redes cerebrais formam um conjunto de áreas interligadas que atuam em conjunto para sustentar diferentes funções. Dá para comparar com uma cidade: os bairros (regiões do cérebro) se conectam por vias (caminhos neurais), permitindo que as informações circulem de forma eficiente.
Quando entramos em tédio - por exemplo, ao assistir a um filme - o cérebro aciona redes específicas. A rede de atenção, que dá prioridade aos estímulos relevantes e filtra distrações, tende a estar ativa no início, quando começamos a assistir.
À medida que o interesse vai enfraquecendo, a atividade dessa rede de atenção diminui, refletindo a queda na capacidade de manter o foco em um conteúdo pouco envolvente. Algo semelhante ocorre com a rede frontoparietal, ou rede de controle executivo: sua atividade também cai porque fica mais difícil sustentar o engajamento com o filme que não prende.
Ao mesmo tempo, a rede de modo padrão entra em ação e a atenção migra para pensamentos internos e autorreflexão. Essa é uma função central da rede de modo padrão, chamada de introspecção, e indica uma estratégia que o cérebro pode usar para lidar com o tédio.
Essa dinâmica entre redes envolve várias regiões importantes "trabalhando em conjunto" durante o estado de tédio. A ínsula é um centro relevante para o processamento sensorial e emocional. Ela pode apresentar aumento de atividade ao detectar sinais internos do corpo - como a percepção de tédio - sugerindo que o filme deixou de engajar. Esse processo é frequentemente chamado de "interocepção".
A amígdala pode ser entendida como um sistema interno de alarme. Ela processa informações emocionais e participa da formação de memórias emocionais. No tédio, essa região lida com emoções negativas associadas, enquanto o córtex pré-frontal ventromedial nos impulsiona a procurar alternativas mais estimulantes.
Tédio versus superestimulação
Vivemos em uma sociedade marcada por excesso de informação e altos níveis de estresse. Não por acaso, muitas pessoas adotaram um ritmo acelerado, preenchendo a agenda para permanecer ocupadas. Na vida adulta, é comum equilibrar trabalho e família. Para quem tem filhos, ocupar o dia com escola e atividades extracurriculares também pode significar a possibilidade de trabalhar por mais horas.
Entre um compromisso e outro, quando sobra um intervalo, é fácil cair no hábito de ficar na tela o tempo todo - organizando, atualizando ou rolando conteúdos - apenas para continuar ocupado. Sem perceber, os adultos acabam modelando para as gerações mais novas a ideia de que é preciso estar sempre "ligados".
Esse nível constante de estímulo pode sair caro, especialmente para o sistema nervoso. O excesso de compromissos pode alimentar a superestimulação. O sistema nervoso simpático, responsável pela resposta de luta ou fuga, existe para nos ajudar a atravessar momentos de estresse.
Só que, quando a pessoa fica continuamente tensionada - absorvendo informações novas e alternando entre tarefas - o sistema nervoso simpático pode permanecer ativado por tempo demais, devido aos efeitos cumulativos da exposição repetida a diferentes estressores. Isso às vezes é chamado de "sobrecarga alostática". É quando o sistema nervoso se sobrecarrega e mantém o organismo em um estado elevado de alerta, o que pode aumentar o risco de ansiedade.
Ao eliminarmos o tédio, também nos privamos de uma maneira simples e natural de ajudar a redefinir (ou "reiniciar") o sistema nervoso simpático.
O tédio pode ser bom para nós?
Em doses pequenas, o tédio funciona como um contrapeso necessário para o mundo superestimulado em que vivemos. Ele pode trazer benefícios específicos para o sistema nervoso e para a saúde mental. Isso é diferente de períodos longos de tédio, nos quais o aumento da atividade da rede de modo padrão pode estar associado à depressão.
Existem várias vantagens em nos darmos permissão para ficar entediados de vez em quando:
- melhora da criatividade, permitindo construir um "fluxo" de pensamentos
- desenvolvimento de independência para pensar e incentivo a buscar outros interesses, em vez de depender o tempo todo de estímulos externos
- apoio à autoestima e à regulação emocional, porque momentos não estruturados ajudam a permanecer com os próprios sentimentos - algo importante no manejo da ansiedade
- incentivo a períodos sem dispositivos e ruptura do ciclo de gratificação imediata que contribui para o uso compulsivo de telas
- reequilíbrio do sistema nervoso e redução de estímulos sensoriais, ajudando a acalmar a ansiedade.
Abrace a pausa
Os níveis de ansiedade vêm aumentando no mundo, especialmente entre os jovens. Vários fatores ajudam a explicar essa tendência. Permanecemos "ligados" o tempo todo, tentando garantir que cada minuto esteja ocupado. Ao fazer isso, porém, podemos estar tirando do cérebro e do corpo o descanso de que precisam para se reorganizar e recuperar energia.
É preciso abraçar a pausa - um espaço em que a criatividade pode florescer, as emoções podem ser reguladas e o sistema nervoso pode se reajustar.
Michelle Kennedy, pesquisadora em Saúde Mental de Jovens, University of the Sunshine Coast; e Daniel Hermens, professor de Saúde Mental de Jovens e Neurobiologia, University of the Sunshine Coast
Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.
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