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Corvette Z06: o V8 aspirado de 670bhp que desafia a era elétrica

Carro esportivo vermelho Chevrolet Corvette Z06 V8 Legend em showroom moderno.

E se eu dissesse que, ainda neste ano, alguém vai lançar um novo supercarro sem nenhuma ajuda elétrica. Nada de híbrido. Nada de turbos. E que, nestes últimos suspiros do motor a combustão, ele trará o V8 aspirado de produção mais potente do mundo. De todos os tempos.

Você ficaria de queixo caído, não ficaria? Talvez até confuso. Ainda mais depois de ler que o supercarro “arroz com feijão” da Ferrari consegue rodar só na eletricidade. A pergunta seria inevitável: que marca teria a ousadia de ir na contramão, de nadar contra a maré do clube dos supercarros? E qual país sustentaria, com vendas suficientes, a “cobertura” necessária para esse projeto sair do estúdio e virar realidade.

Só que você já sabe a resposta - porque um Corvette é inconfundível. E, por mais difícil que pareça acreditar, ainda este ano você deve conseguir comprar um no Reino Unido. Com o volante no “lado certo” e 670bhp a 8,600rpm, mais toda a fúria de um V8 aspirado, com válvulas de admissão de titânio e sem indução forçada. A Lamborghini, dá para imaginar, vai acompanhar isso de perto enquanto decide o próximo passo do Huracán.

Achou esses números… estranhos? Porque este não é o Corvette C8 “normal” de 495bhp. Este é o Z06. Se o Corvette é o Porsche 911 dos Estados Unidos, o Z06 é o equivalente ao GT3. E, no folclore dos esportivos americanos, não existe notícia maior do que essa.

1. ELE TEM O MOTOR “DE ACABAR COM TODOS OS MOTORES”...

Estou no topo de um estacionamento de vários andares desbotado pelo sol, em Los Angeles, apertando os olhos contra o clarão. Um rugido de T-rex sob os meus pés denuncia a chegada de dois Corvettes: um Z06 e um Z06 com o pacote Z07. Pense em GT3 e GT3 RS. Lá em cima, o estalo e o rosnado perdem um pouco da agressividade por causa do eco do concreto, mas não muito. São carros brutos, irritados.

O Corvette de oitava geração é o primeiro a colocar o motor atrás do motorista, virando de cabeça para baixo quase 70 anos de tradição com “cavalos na frente”. As enormes entradas de ar atrás das portas não deixam dúvida. O que você acha do visual fica por sua conta. Para mim, ele parece meio desajeitado, com cara de “Meu Primeiro Supercarro”, mas dá para relevar - afinal, em certa medida, é exatamente isso. Por consequência, não tem as laterais fluidas de um McLaren, nem as curvas controladas da Porsche ou as referências históricas da Ferrari.

Só que a história aqui é o que está por baixo. Porque, assim como num GT3, o motor do Z06 não tem nada a ver com o do modelo de entrada. O C8 comum usa o famoso V8 small block de 6.2-litre. Já este aqui esconde um conjunto totalmente novo, o LT6: um V8 de 5.5-litre com cárter seco e virabrequim plano, derivado do carro de corrida C8R GTLM. São 670bhp e 459lb ft, suficientes para fazer 0–60mph em 2.7secs (com aquele esquema de one-foot roll-out).

Mais reveladora é a relação peso/potência: 429bhp/tonne aqui, contra 360 no GT3 mais recente de 500bhp. O torque máximo aparece a 6,300rpm - então vai exigir dedicação para aproveitar tudo. Dirigir, infelizmente, fica para depois. Mas acelerar de giro? Isso dá para fazer agora.

2. ... E O SOM É ASSUSTADORAMENTE ITALIANO

Existe um quê de Ferrari no jeito como ele acorda. É objetivo e rápido, sem “blub-blub-blub”. Você puxa o seletor D no console para engatar, aperta M para manual e, então, puxa e segura as duas borboletas: esse é o “código secreto” que libera o V8 para girar até a lua e voltar.

A comparação com a Ferrari continua fazendo sentido. Ele não é tão estridente e teatral quanto uma 458, nem parece que está “atuando”. O som vem duro e sem filtro, com uma pureza de carro de corrida e uma resposta imediata: o giro sobe num estalo e cai de volta num instante. Quer mais participação? Se você quiser, pode ir até a fábrica de Bowling Green, se juntar ao time de 10 ou 12 pessoas e ajudar a montar o seu próprio motor.

3. A SUSPENSÃO, AS RODAS E OS FREIOS FORAM... “AJUSTADOS”

Claro que a suspensão foi retrabalhada - embora não no mesmo nível de revolução do V8. O Z06 é 90mm mais largo no total, e isso é uma mudança enorme, puxada sobretudo pela decisão de calçar pneus capazes de “arrancar a grama” de SW19 para aumentar a aderência lateral.

Atrás, são 345-width, 40mm a mais do que no carro padrão, o que obrigou a criar painéis de carroceria completamente novos para cobrir essa largura. Entram rodas e freios maiores, e o e-diff (normalmente opcional) e os amortecedores magnetorreológicos viram item de série. As molas são mais rígidas e há um novo transaxle com relação final mais curta para melhorar as arrancadas.

4. ELE VEM EM DUAS “VERSÕES”

Os EUA adoram números: “força g”, testes de slalom, 0–60 e por aí vai. Este carro tem os ingredientes certos para tirar nota alta nessas provas. Mas, se você quiser ter certeza em dobro, vai precisar gastar mais (provavelmente algo em torno de $10,000) no pacote Z07.

Ele traz uma nova asa traseira, dobrando a força aerodinâmica no máximo de 186mph para 333kg. Só que downforce em velocidade máxima é só estatística - não é lá que você quer downforce; você quer entre 90–130mph. E, pelo jeito que downforce funciona (raízes quadradas de alguma coisa, etc.), 333kg com o pé embaixo vira “na prática, nem é tanto assim” nas velocidades que importam. Um pouco de ciência de TG para você.

Então não é um carro “de downforce”. Mas o seu dinheiro também compra uma suspensão 15 per cent mais rígida, freios de cerâmica de carbono e pneus Michelin Cup 2R. Ainda mais aderência para “arrancar a sua cara”. E ainda existe a opção de gastar mais um tanto nas rodas de carbono que você vê aqui, reduzindo 18kg. Provavelmente vale a pena - apesar de o Z06 não ser exatamente obcecado por emagrecer.

Com 1,560kg, ele pesa 150kg a mais do que um GT3 e mantém vários atributos úteis do carro padrão. O principal é o painel de teto removível. Você pode escolher o Z06 como um conversível com capota elétrica (o Z07 laranja das fotos), mas, de série, todo Corvette já te dá acesso ao sol. O painel vai guardado no porta-malas atrás do V8, sem sacrificar demais a bagagem, porque ainda existe um frunk na dianteira.

5. O INTERIOR NÃO É UM HORROR

Por dentro, ele é bom. Deus sabe o que a pessoa que configurou este exemplar vermelho sobre vermelho tinha na cabeça, mas o desenho é acertado e a qualidade está bem acima do que eu aposto que você está imaginando agora. Só não espere uma alavanca no meio: o Z06 pode insistir no motor aspirado, mas a transmissão é única - um câmbio de dupla embreagem de oito marchas.

Ele empolga? Essa é a pergunta central. Contra o meu próprio bom senso, empolga, sim. Eu sempre quero abraçar tecnologia nova, mas mais tecnologia - a menos que você seja a Ferrari, a julgar pela 296 GTB - costuma significar mais complexidade e mais distância entre o motorista e a diversão. O Z06, em vez disso, promete emoção com acesso fácil.

Será que ele encontra público fora dos Estados Unidos? Lembre do que a Ford fez com o Mustang: trouxe para cá em 2016 e, por um tempo, ele foi o esportivo mais vendido da Europa, à frente do Audi TT. Tomara que este encontre o mercado global que merece. É até apropriado que os EUA - o país que se move ao som de um V8 - estejam entregando algo tão grandioso bem quando o sol está se pondo.

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