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Por que dizemos "preciso de férias das férias": 5 dicas da psiquiatra Maria Moreno

Mulher sentada à mesa organizando fotos e conchas, com laptop e caderno em ambiente iluminado por luz natural.

Por que surge a sensação de "preciso de férias das férias"

À medida que o fim do descanso se aproxima, uma frase volta e meia aparece nos atendimentos clínicos. A psiquiatra Maria Moreno explica por que esse sentimento é tão frequente entre tantas mulheres e propõe cinco recomendações para tentar driblá-lo. A ideia passa por preparar a mente antes mesmo de arrumar a mala para viajar - e também por cuidados durante e depois do período de pausa.

Segundo a médica, o problema costuma começar na maneira como muitas pessoas fazem a transição entre os dois mundos: "O tal corte radical entre férias e trabalho que as pessoas tentam funciona como um verdadeiro 'desmame': primeiro do trabalho, depois das próprias férias. E, qual desmame, vem com sintomas de abstinência 'clássicos". Este é o verdadeiro quê que tenho de desmontar uma e outra vez em consulta com a pessoa que tenho à minha frente", descreve a psiquiatra Maria Moreno.

Ela conta que a expressão "preciso de férias das férias" está entre as mais repetidas por pacientes quando a rotina recomeça - e que isso faz sentido, porque, afinal, "o cérebro habitua-se rapidamente a um compasso diferente - mais lento para uns e mais caótico para outros". O que pesa vem na volta: "Voltar à vida normal é como passar da quinta para a segunda mudança no carro, é preciso tempo, jeito e suavidade para não sentirmos um grande solavanco."

Diante disso, fica a pergunta: como evitar o desespero de quem gastou a maior parte dos dias de descanso e ainda tem um ano de trabalho pela frente, com a sensação de que mal aproveitou?

"Delegar não é falhar, pedir ajuda não é incompetência, dizer 'não consigo' não é fraqueza", diz psiquiatra

Cinco recomendações da psiquiatra Maria Moreno

Maria Moreno reúne cinco orientações que envolvem trabalho e preparo mental - mas que não se limitam a isso.

  • Gerir: "Não esperar pelas férias para descansar. O descanso tem de entrar na semana normal, mesmo em doses pequenas", afirma a médica psiquiatra.

  • Sono: "Quantos me dizem: 'Deitei-me tarde o mês inteiro e agora não consigo adormecer antes da uma da manhã.' Aqui não vale a pena querer mudar tudo de um dia para o outro. O nosso corpo detesta grandes choques. Vale mais ajustar meia hora por noite, até que o relógio interno volte ao ritmo certo. O cérebro adora consistência", avisa.

  • Práticas saudáveis: a psiquiatra chama atenção para alimentação e atividade física, mas sempre com progressão. "A vontade de compensar tudo de uma vez é o erro clássico, a chave não é intensidade (mais uma vez), é a regularidade", recomenda.

  • Trabalho: para quem volta e se depara com a caixa de entrada lotada - "'Cheguei e tinha duzentos e tal e-mails por ler.' Claro que a ansiedade dispara" -, ela sugere começar pelo que é mais simples, definir prioridades e aceitar que não vai dar para “zerar” tudo logo no primeiro dia. E reforça: "A primeira semana serve para arrumar gavetas."

  • "Dividir a carga": Maria Moreno considera que esta pode ser a recomendação mais difícil de colocar em prática. Por isso, faz questão de deixar claro que "delegar não é falhar, pedir ajuda não é incompetência, dizer 'não consigo' não é fraqueza". A partir daí, ela defende a força dos pequenos rituais, que, segundo a especialista, todos deveríamos cultivar: beber um café sem o celular, dar uma volta no quarteirão no intervalo do almoço, trocar algumas palavras com o colega que sempre arranca um sorriso, fazer uma caminhada até o trabalho em que registramos uma coisa que vemos, duas coisas que ouvimos, três coisas que cheiramos, quatro coisas que sentimos e cinco coisas que, naquele dia, nos fazem sentir particularmente bem.

Ela pede que esses gestos sejam cumpridos por parecerem simples, mas por atuarem como freios do estresse - e por servirem de base para os termos atuais que aparecem com frequência quando se fala (muitas vezes “com ar entendido”) de "mindfulness", "self-care" ou higiene mental. Para a psiquiatra, não é preciso buscar soluções grandiosas: "Não precisamos de retiros na montanha nem de incensos exóticos: basta repararmos no valor dos pequenos gestos no nosso dia a dia", reitera.

Criar pontes entre trabalho e descanso

Na avaliação de Maria Moreno, o fundo dessa ideia de “férias das férias” costuma estar ligado a hábitos que precisam existir muito antes de pensar em fazer as malas. "Quando tentamos alternar entre trabalho a 200% e férias a 250%, desligar de um lado e ligar do outro não resulta", invoca a especialista, porque "o choque emocional é inevitável".

Para reduzir esse impacto, ela aponta um caminho: "O segredo está em criar pontes: permitir algum contacto com o trabalho durante as férias para suavizar o regresso e investir em pequenos pedaços de férias diárias que caibam na rotina trabalho-casa e casa-trabalho para evitar a exaustão. Mini-pausas espalhadas ao longo da semana."

Ela lembra que o cérebro responde bem a recompensas e sensação de progresso: "O cérebro adora pequenas recompensas e vitórias. Nas primeiras, cabem o café saboreado devagar, o cheiro do pão quente, o trautear uma música que gostamos no carro, um jantar ao ar livre, uma ida inesperada ao cinema". Já no campo das vitórias, entram decisões como "vou inscrever-me no curso que sempre quis, ir ao ginásio todas as semanas, ler um livro que estava esquecido", enumera a psiquiatra, reforçando que, no fim das contas, trabalho e férias não precisam se chocar.

"Não somos gavetas separadas. Somos por inteiro. E esse equilíbrio - feito de pausas regulares, pequenos prazeres, os limites possíveis e vitórias consistentes - é o verdadeiro segredo para nunca mais precisar de férias das férias", termina.

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