Pular para o conteúdo

A invasão da lampreia-do-mar nos Grandes Lagos e o controle com TFM

Pessoa segura peixe de boca aberta na dársena com barco, gaiola, kit de análise e mapa sobre o cais de madeira.

Quando a maioria das pessoas percebeu a gravidade do que estava ocorrendo, as valorizadas trutas e os peixes‑brancos dos Grandes Lagos já estavam desaparecendo, frotas comerciais encerravam atividades, e um invasor com aparência de enguia estava no centro de uma crise de bilhões de dólares.

O que exatamente é a lampreia-do-mar

A lampreia-do-mar tem mais cara de criatura de filme de terror do que de peixe de pesca esportiva.

Trata-se de um peixe antigo e sem mandíbulas, pertencente a uma linhagem que surgiu antes mesmo dos dinossauros.

Na fase adulta, lembra uma enguia comprida e fina e, com frequência, ultrapassa 30 centímetros de comprimento.

O que mais impressiona está na cabeça: uma boca circular em forma de ventosa, com anéis concêntricos de dentes afiados e uma língua áspera, feita para raspar.

Essa estrutura permite que a lampreia se prenda a outros peixes, perfure a pele e se alimente de sangue e de fluidos corporais.

A lesão pode matar diretamente ou deixar o animal hospedeiro fraco demais para suportar os estresses normais do ambiente.

"Ao longo de uma única fase de alimentação, uma lampreia-do-mar adulta pode matar ou ferir de forma fatal o equivalente a até 18 quilogramas (40 lb) de peixes."

Em mar aberto, muitas espécies hospedeiras evoluíram junto das lampreias e conseguem tolerar um certo nível de parasitismo.

Já em um sistema mais fechado como o dos Grandes Lagos - onde os peixes nativos não tinham histórico evolutivo com esse predador - o efeito se tornou devastador em pouco tempo.

Como o invasor atravessou a barreira dos Grandes Lagos

Por milênios, as Cataratas do Niágara funcionaram como uma muralha natural.

Nativa do Oceano Atlântico, a lampreia-do-mar não conseguia subir além das quedas d’água para alcançar os Grandes Lagos superiores.

Esse cenário mudou no fim do século XIX e no início do século XX, quando obras humanas detonaram rochas e dragaram canais de navegação contornando as cataratas.

Rotas criadas para facilitar o comércio acabaram, sem intenção, abrindo passagem para a lampreia.

No começo dos anos 1900, a espécie já tinha chegado ao Lago Erie e, em seguida, avançou ainda mais rio acima.

Na década de 1930, registros indicam que a infestação já atingia todos os Grandes Lagos superiores: Huron, Michigan e Superior.

A expansão ocorreu em grande parte fora da vista do público - submersa e ao longo de décadas - enquanto os barcos de pesca continuavam saindo como sempre.

O colapso de uma pescaria de vários bilhões de dólares

Antes da invasão, os Grandes Lagos sustentavam pescarias de água fria reconhecidas mundialmente.

Trutas-do-lago, peixes‑brancos (coregonos) e outras espécies de grande porte eram a base de uma pesca comercial e recreativa altamente lucrativa.

Na década de 1940, só a truta-do-lago rendia, em algumas áreas, capturas comerciais médias de cerca de 7.000 toneladas por ano.

Com o aumento do número de lampreias, o quadro se inverteu.

Cada lampreia adulta, ao se alimentar de trutas e salmões grandes, funcionava como um “torpedo biológico”.

Os hospedeiros morriam ou chegavam às áreas de desova muito debilitados.

O sucesso reprodutivo despencou, e novas coortes de trutas deixaram de repor os indivíduos mais velhos.

"Em 1962, as populações de truta-do-lago haviam caído tanto que temporadas inteiras foram suspensas em partes dos Grandes Lagos."

O baque financeiro se espalhou por pequenos portos e cidades costeiras.

Fábricas de processamento fecharam, famílias de pescadores abandonaram licenças mantidas por gerações, e o turismo associado a peixes‑troféu encolheu.

Atualmente, a pesca nos Grandes Lagos é avaliada em mais de US$ 7 bilhões por ano - um número que evidencia o tamanho do que estava em jogo.

A invasão deixou claro como uma única espécie é capaz de desestabilizar não apenas um ecossistema, mas também uma economia regional inteira.

A guerra química que virou o jogo

Em meados do século XX, a crise obrigou governos e cientistas a reagirem.

A Comissão de Pesca dos Grandes Lagos, um organismo binacional de Canadá e Estados Unidos, liderou uma resposta coordenada.

Pesquisadores passaram a avaliar milhares de substâncias em busca de algo que atingisse as lampreias sem eliminar o restante do sistema.

Depois de testar quase 6.000 compostos, os cientistas chegaram ao 3‑trifluorometil‑4‑nitrofenol, que logo ficou conhecido pela sigla TFM.

O TFM se mostrou especialmente tóxico para as larvas de lampreia que vivem nos sedimentos de riachos, enquanto a maioria de outros peixes e invertebrados resistia aos tratamentos.

Biólogos começaram a aplicar o TFM em afluentes onde as lampreias se reproduzem e onde as larvas permanecem por vários anos antes de migrarem para os lagos.

"Ao longo da década de 1960, tratamentos sistemáticos com TFM reduziram as populações invasoras de lampreia-do-mar em cerca de 90% em muitas partes dos Grandes Lagos."

Com menos pressão de predação, trutas-do-lago nativas e outras espécies ganharam fôlego.

Programas de repovoamento e restauração de habitat contribuíram para reconstruir populações autossustentáveis, sobretudo nos lagos superiores.

À medida que os estoques se estabilizaram, a pesca comercial e recreativa se recuperou gradualmente, ajudando a sustentar o valor de vários bilhões observado hoje.

Como funciona hoje o programa de controle

O TFM já é utilizado há mais de 60 anos.

Ele se degrada de forma natural, o que limita o acúmulo de longo prazo no ambiente.

A Agência de Proteção Ambiental dos EUA considera o TFM aceitável quando aplicado sob diretrizes rigorosas, embora possa afetar alguns peixes sensíveis, insetos e plantas de folhas largas.

Como a erradicação total é improvável, o controle virou uma tarefa permanente de manejo, e não uma ação pontual.

As estratégias atuais combinam diferentes ferramentas:

  • Aplicações regulares de lampricida em afluentes infestados
  • Barreiras mecânicas e elétricas que impedem lampreias adultas de alcançar áreas de desova
  • Monitoramento intensivo do número de lampreias e dos estoques de peixes nativos
  • Pesquisa contínua sobre armadilhas, iscas com feromônios e abordagens genéticas

A Comissão de Pesca dos Grandes Lagos coordena a maior parte das ações, enquanto o Pesca e Oceanos do Canadá conduz o manejo no lado canadense.

Por que você quase não as vê, mas o risco continua

Hoje, visitantes podem pescar, navegar ou nadar nos Grandes Lagos sem notar uma lampreia.

A cena chocante de trutas sangrando e marcadas por ventosas é muito menos comum do que nos anos 1950.

Essa falta de sinais visíveis pode gerar uma sensação enganosa de segurança.

A lampreia-do-mar ainda ocupa muitos rios e afluentes menores que desembocam nos lagos.

Ano após ano, adultos tentam subir para se reproduzir, e os gestores correm para interceptá-los com barreiras e tratamentos.

Se o financiamento ou a vigilância falharem, as populações podem se recuperar em poucos ciclos reprodutivos.

"A história da invasão não terminou; ela apenas entrou em um longo e caro modo de contenção."

Nem toda lampreia é vilã

Os Grandes Lagos também abrigam espécies nativas de lampreia, que exercem papéis bem diferentes.

Algumas são menores e parasitam peixes em níveis muito mais baixos; outras nem chegam a se alimentar quando adultas.

Essas lampreias nativas fazem parte da biodiversidade natural da região e convivem com os peixes locais há milhares de anos.

As ações de controle miram a lampreia-do-mar invasora, e não suas parentes nativas.

Por isso, os biólogos precisam planejar os tratamentos com cuidado para não eliminar lampreias locais junto com a invasora atlântica.

No outro lado da América do Norte, inclusive, gestores tentam restaurar uma espécie nativa - a lampreia-do-Pacífico - em rios onde ela entrou em declínio.

Esse contraste reforça que “lampreia” não é um rótulo simples de praga.

Termos-chave e como eles moldam a história

Termo Significado Por que isso importa aqui
Espécie invasora Organismo não nativo que se espalha e causa danos a ecossistemas, economias ou à saúde A lampreia-do-mar é invasora nos Grandes Lagos, mas nativa no Atlântico
Lampricida Substância química feita para matar lampreias, especialmente larvas O TFM é a principal ferramenta que mantém as populações de lampreia sob controle
Parasita Organismo que vive em ou sobre um hospedeiro, retirando nutrientes às custas dele A lampreia-do-mar se fixa aos peixes e se alimenta do sangue e de tecidos
Afluente Rio ou córrego menor que deságua em um corpo d’água maior As lampreias desovam e se desenvolvem como larvas em afluentes antes de irem para os lagos

O que isso ensina a outras regiões diante de espécies invasoras

A saga da lampreia nos Grandes Lagos virou um exemplo clássico para gestores do mundo todo que lidam com peixes, caranguejos ou mexilhões invasores.

Ela mostra que obras de engenharia - como canais e corredores de navegação - podem rearranjar barreiras naturais que antes mantinham ecossistemas separados.

Depois que um nadador eficiente como a lampreia-do-mar atravessa essa barreira, as espécies locais podem não ter defesas.

Para cidades costeiras, projetos hidrelétricos ou novos caminhos de navegação em planejamento hoje, a experiência dos Grandes Lagos levanta perguntas bem objetivas:

  • De que forma novos canais podem conectar bacias antes isoladas?
  • Quais espécies, de maneira realista, conseguiriam circular por essas rotas?
  • Quem arca com o controle de longo prazo se um invasor se estabelecer?

Há também dimensões sociais que costumam passar despercebidas na fase de projeto.

Culturas de pesca, comunidades indígenas e pequenos portos podem perder não apenas renda, mas também tradições e identidades locais associadas a determinados peixes.

Modelagens feitas para outras regiões já incluem, de forma rotineira, perdas econômicas, custos de controle e impactos culturais - não apenas contagens de espécies.

Com as mudanças climáticas aquecendo as águas e alterando vazões, alguns cientistas esperam que o risco de novas invasões aumente.

Condições mais quentes podem ampliar a distribuição de espécies como a lampreia-do-mar, acelerar ciclos de vida e elevar o número de larvas que chegam à fase adulta.

A trajetória dos Grandes Lagos - do colapso à recuperação parcial - antecipa como pode ser o manejo de longo prazo em outros lugares: décadas de ciência coordenada, monitoramento constante e disposição para gastar todos os anos apenas para evitar que o invasor volte a disparar.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário