Um pequeno pássaro castanho guia uma pessoa pela mata africana, chamando enquanto voa, até que os dois chegam a um ninho de abelhas selvagens.
No mar do sul do Brasil, um golfinho arqueia o dorso e, exatamente nesse instante, um pescador lança a rede.
Nada disso acontece por acaso. Em ambos os casos, trata-se de uma parceria entre espécies diferentes, sustentada por um fluxo constante de informação partilhada.
Uma ampla revisão publicada na revista Comportamento Animal reúne exemplos assim vindos de todo o reino animal.
A pesquisa parte de uma pergunta que parece simples, mas não é: como animais de espécies totalmente distintas conseguem, afinal, trabalhar em conjunto?
Parcerias e cooperação entre espécies estão por toda parte na natureza
A cooperação entre espécies aparece onde pouca gente espera. Há aves que conduzem pessoas até ao mel, peixes pequenos que removem parasitas de peixes maiores e formigas que protegem insetos que, em troca, lhes fornecem açúcar.
A revisão reúne casos envolvendo aves, peixes, insetos e mamíferos. Em todos eles, os parceiros trocam sinais para sincronizar ações e manter o acordo a funcionar.
“Pelos exemplos que conhecemos, indivíduos coordenam as suas ações para aceder a recursos partilhados, como alimento, ou para trocar recursos por serviços, como proteção contra predadores”, afirmou a Dra. Katie Dunkley, autora principal e investigadora em Oxford.
“Ficámos particularmente interessados em como a partilha de informação permite uma coordenação tão próxima entre espécies.”
Como os parceiros se encontram
Antes de qualquer coisa, um animal precisa identificar um parceiro disposto a colaborar. Alguns peixes-limpadores exibem cores vivas e de alto contraste, que os distinguem como “limpadores” - e não como presa.
Os peixes “clientes” respondem de imediato. Eles assumem uma postura com a cabeça ou a cauda para cima ao lado do limpador, sinalizando que querem o serviço; a partir daí, o limpador decide se se aproxima.
Animais escolhem o melhor parceiro
Além de encontrar alguém disponível, os animais também avaliam a qualidade do parceiro. No Brasil, pescadores tendem a preferir golfinhos que já conhecem como confiáveis, reconhecendo-os por marcas no corpo e pelo comportamento.
Os peixes-limpadores também carregam pistas sobre a sua qualidade. Os peixes clientes costumam preferir bodiões com um azul mais intenso, o que pode indicar um serviço de limpeza melhor.
Quando os parceiros já estão próximos, é comum que um deles dê o sinal de arranque. Garoupas e trutas-dos-corais fazem um rápido “treme-treme” do corpo para chamar enguias ou polvos e iniciar uma caça conjunta.
O risco aumenta quando o parceiro pode ser perigoso. Alguns camarões-limpadores balançam o corpo em direção a peixes predadores, “anunciando” que são limpadores que vale a pena manter por perto - e não uma refeição fácil.
Como impedir que o parceiro trapaceie
A cooperação pode ruir quando um dos lados engana. Peixes clientes perseguem limpadores que os mordem em vez de os limpar, e um polvo pode dar um soco num peixe que não faz a sua parte durante uma caçada.
Essas correções parecem ajudar a manter a parceria. Elas deixam claro ao parceiro que o mau comportamento tem um custo real.
Alguns sinais permanecem estáveis e previsíveis em toda a distribuição de uma espécie. Outros variam de uma comunidade para outra - como os movimentos de golfinhos que diferentes cidades pesqueiras interpretam à sua maneira.
A autora sénior do estudo, Dra. Jessica van der Wal, é investigadora afiliada ao Instituto FitzPatrick de Ornitologia Africana, da Universidade da Cidade do Cabo.
“Em algumas formas de cooperação interespecífica, pistas e sinais variam conforme o contexto ecológico, as espécies envolvidas e se o sinal é herdado ou aprendido”, disse a Dra. van der Wal.
“Isso destaca o quão flexível e adaptável pode ser a comunicação entre espécies.”
Visão, som, toque e olfato
Visão e som dominam os exemplos já descritos, em parte porque são fáceis de observar. Ainda assim, o toque, a química e a vibração têm um papel tão importante quanto em muitas parcerias.
Camarões e peixes góbios partilham uma toca e mantêm contacto por meio do toque e de pistas químicas. Já as formigas “leem” o revestimento químico específico dos insetos que protegem, distinguindo um parceiro verdadeiro de um estranho.
Sinais muito abertos podem atrair o público errado. O chamamento alto de uma ave-guia-do-mel ao conduzir pode chamar aves rivais, que comem a cera sem fazer qualquer parte do trabalho.
Algumas espécies trapaceiam imitando outras. Certos peixes blénio copiam as cores de bodiões limpadores e, depois, mordem justamente os clientes que atraem.
De onde vêm os sinais
Muitos sinais provavelmente começaram como simples pistas. O som de madeira a ser cortada pode ter indicado, no início, à ave-guia-do-mel que havia uma pessoa perto do mel; com o tempo, as pessoas passaram a produzir esses sons de propósito para chamar as aves.
Outros sinais foram “emprestados” de comportamentos mais antigos. Uma postura de peixe que antes servia para resolver disputas com indivíduos da própria espécie pode ter sido reaproveitada para se aproximar de um limpador de forma pacífica.
Algumas dessas capacidades parecem vir de fábrica. Filhotes de ave-guia-do-mel aproximam-se de pessoas e chamam sem que ninguém os ensine, e peixes clientes adotam a postura para limpadores sem treino prévio.
A aprendizagem, então, refina o resto. Pescadores e caçadores de mel aprendem os sinais dos seus parceiros observando outras pessoas, e formigas aprendem a associar certos insetos a uma recompensa.
Quando a cooperação desaparece
Sinais aprendidos podem sumir quando o conhecimento deixa de ser transmitido. No sudeste da Austrália, uma parceria célebre fazia com que orcas conduzirem grandes baleias na direção de caçadores, em troca de uma parte da carcaça.
Essa cooperação acabou depois que a comunidade indígena local foi deslocada, uma orca-chave foi morta e a presa se tornou escassa. O saber partilhado que sustentava o sistema simplesmente se perdeu.
Essas parcerias são mais do que uma coleção de curiosidades. Elas mostram como um sinal pode nascer, passar de uma espécie para outra e, ao longo do tempo, remodelar ambos os parceiros.
“Estudar como a informação flui entre espécies dá-nos uma janela poderosa para entender como os sistemas de comunicação se originam, mudam e, por vezes, coevoluem”, disse a Dra. Dunkley.
O que vem a seguir
A revisão surgiu a partir de uma oficina realizada em Cambridge, em 2023, e reuniu 58 autores de áreas como antropologia, biologia e linguística.
Os autores defendem que a maior parte da atenção se concentrou em poucos sistemas bem conhecidos, deixando grandes lacunas no resto do campo.
“Ainda temos muito a aprender sobre como esses sistemas funcionam e evoluem”, disse a Dra. van der Wal.
“Esperamos que pesquisas futuras revelem tanto essas interações quanto outras formas de cooperação entre espécies que ainda não foram descobertas.”
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