Cliques curtos e ritmados emitidos por cachalotes podem soar, para ouvidos humanos, como um simples ruído de fundo. Ainda assim, uma nova análise indica que esses sons talvez façam parte de um sistema de comunicação com um grau de complexidade que se aproxima do nosso.
Pesquisadores do Project CETI - uma organização sem fins lucrativos dos EUA dedicada a compreender os cachalotes - afirmam que os cliques conhecidos como "codas" têm uma sofisticação maior do que a sugerida por um estudo de 2024. Naquele trabalho, os autores observaram que os sons apresentavam semelhanças acústicas com vogais humanas.
Cachalotes, vida social e a necessidade de comunicação
Os cachalotes (Physeter macrocephalus) são mamíferos marinhos de grande porte que vivem em clãs matrilineares muito coesos, marcados por vínculos fortes e relações cooperativas - algo que lhes dá vantagem competitiva em mares implacáveis. Estruturas sociais desse tipo, em geral, exigem habilidades de comunicação igualmente refinadas.
Há tempos se suspeita que a comunicação dos cetáceos envolva muito mais do que conseguimos perceber, especialmente no caso dos cachalotes. Seus encontros frequentemente vêm acompanhados por uma paisagem sonora de cliques que pode se propagar pelo oceano por muitos quilómetros.
O que o estudo de 2024 mostrou sobre as "codas"
Em 2024, cientistas do Project CETI examinaram 8.719 vocalizações de codas de pelo menos 60 cachalotes, gravadas entre 2005 e 2018, e concluíram que elas eram "mais expressivas e estruturadas do que se acreditava anteriormente". O estudo também apontou que certas características desses sons podem ser combinadas de maneiras comparáveis a elementos da fala humana.
Aquela pesquisa sugeriu que a comunicação dos cachalotes é formada por componentes flexíveis e combináveis, mas não investigou como esses componentes se organizam internamente.
Nova análise do Project CETI: regras internas e paralelos com fonologia humana
Agora, um novo artigo que avalia cinco propriedades das codas indica que esses sons aparecem em padrões que obedecem a regras estruturadas, semelhantes às observadas na fala humana.
"Todas as cinco propriedades têm paralelos próximos na fonética e na fonologia das línguas humanas, sugerindo evolução independente", escreve uma equipa liderada pelo linguista Gašper Beguš, do Project CETI e da Universidade da Califórnia, em Berkeley.
"As vocalizações de codas dos cachalotes são, portanto, altamente complexas e representam um dos paralelos mais próximos à fonologia humana entre todos os sistemas de comunicação animal analisados."
Para revelar pelo menos parte dessas estruturas internas, Beguš e colegas analisaram 3.948 codas de 15 indivíduos, registadas entre 2014 e 2018 no âmbito do Projeto de Cachalotes de Dominica, no Caribe Oriental.
O grupo observou que as codas de cachalotes se distribuem em categorias distintas que se comportam de forma semelhante a sons vocálicos na fala humana, exibindo diferenças consistentes de duração, padrões e interações com sons vizinhos.
Os autores identificaram dois tipos de codas com estruturas de formantes diferentes - isto é, com diferenças na organização das frequências ressonantes do som. Eles chamaram de "a-codas" as codas com um formante e de "i-codas" as codas com dois formantes.
Essas a-codas e i-codas não apenas lembram vogais humanas do ponto de vista acústico: em vários aspetos, elas também se comportam como vogais. Por exemplo, as a-codas tendem a durar mais do que as i-codas, e as i-codas também apresentam versões mais curtas e mais longas.
Além disso, cada indivíduo parece ter a sua própria cadência ao empregar essas codas, e sons próximos podem influenciar uns aos outros - de modo parecido com combinações na fala humana, como quando um a e um u se juntam para formar um som au.
"Mostramos que o sistema de comunicação dos cachalotes tem características, até então não documentadas, que o tornam semelhante à fonologia humana", escrevem os pesquisadores.
Os autores evitam ir além e classificar o fenómeno como uma língua, preferindo o termo "sistema de comunicação" - uma categoria mais ampla de transmissão de informação, na qual a linguagem se insere. Um sistema de comunicação passa a ser uma língua quando consegue combinar sons em mensagens estruturadas e com significado. Como ainda não sabemos o que as codas dos cachalotes querem dizer, não é possível defini-las com segurança como linguagem.
Mesmo assim, a análise aproxima a ciência do objetivo central do Project CETI: decodificar a comunicação desses animais. A colaboração está a usar aprendizagem de máquina para decompor a comunicação dos cachalotes até o nível mais minucioso, numa tentativa de entender de fato o que eles podem estar a "dizer" uns aos outros.
As consequências disso seriam enormes. O avanço ajudaria a responder se a linguagem é exclusiva dos humanos e traria pistas sobre como ela evoluiu. Também poderia abrir um caminho para nos comunicarmos com outra espécie nos próprios termos dela - uma espécie que vive de maneira dramaticamente distinta das culturas humanas.
E as competências e ferramentas desenvolvidas nesse processo poderiam, depois, ser aplicadas a outros animais, potencialmente inaugurando uma nova forma de aprender sobre o nosso planeta.
Este trabalho é um passo provocador nessa jornada ambiciosa, sugerindo um vasto campo de descobertas que começa a ficar ao nosso alcance.
"Em conjunto", escrevem os pesquisadores, "nossos achados demonstram que as vocalizações dos cachalotes são altamente complexas e provavelmente constituem um dos sistemas de comunicação mais sofisticados do ponto de vista fonológico (atualmente conhecidos) no reino animal."
A pesquisa foi publicada na revista Proceedings of the Royal Society B: Ciências Biológicas.
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