No universo dos SUVs compactos, entrar tarde pode ser um problema - ou uma vantagem, se a marca usar esse tempo para acertar o produto. É exatamente esse o contexto do Toyota Yaris Cross, colocado abaixo do C-HR e pensado para um dos segmentos que mais crescem nos últimos anos na Europa: os B-SUV.
O curioso é que “demorou”, mesmo com a Toyota tendo ajudado a abrir caminho para esse tipo de carro: nos anos 90 com o primeiro RAV4 (sim, começou como um SUV pequeno) e, em 2009, com o «esquecido» Urban Cruiser - lançado um ano antes do Nissan Juke, o B-SUV que acabou por definir o segmento.
Com esse “tempo extra” para preparar o Yaris Cross, fica a pergunta: a nova proposta da Toyota tem argumentos para bater as referências do segmento? Para descobrir, colocámo-lo à prova.
Mais do que um «Yaris de saltos altos»
Apesar de partilhar o nome com o utilitário de sucesso, o Yaris Cross consegue ter personalidade própria - ainda mais na pintura bicolor dourada e preta da unidade ensaiada, que considero particularmente interessante, na minha opinião, claro. Vale também destacar a distância ao solo (160 mm), que reforça um visual mais aventureiro.
Já por dentro, o tabliê é praticamente idêntico ao do Yaris, com destaque para a sensação de robustez e a abundância de espaços para arrumação. Ponto positivo também para a manutenção dos comandos físicos do ar-condicionado e das teclas de atalho do novo sistema de infoentretenimento da Toyota, cujo funcionamento, embora melhor do que o visto em outras propostas da marca, ainda podia ser mais responsivo.
Se até aqui o Yaris Cross joga de igual para igual com a concorrência - tanto na oferta de equipamentos como no capítulo da robustez e dos materiais (maioritariamente duros) -, o mesmo não se pode dizer quando falamos de habitabilidade.
Embora o aumento de dimensões em relação ao Yaris se traduza em mais espaço interno, frente aos rivais o Yaris Cross é mais acanhado no banco traseiro, e não é ajudado pela amplitude reduzida de abertura das portas, o que também complica a tarefa de instalar cadeirinhas de criança nesses lugares.
Ainda sobre os bancos traseiros: apesar de confortáveis, os encostos de cabeça são fixos e altos, o que acaba por prejudicar a visibilidade para trás.
Já na bagageira, o Yaris Cross «redime-se» com 397 litros de capacidade, um número bastante positivo. Soma-se a isso a boa modularidade, com piso duplo - e dividido em dois - que permite baixar apenas um dos lados do porta-malas.
O «novo normal» da Toyota
Cada vez mais focada em fazer automóveis “não aborrecidos” - como Akio Toyoda, presidente da Toyota, tem repetido regularmente -, a marca conseguiu transformar o Yaris Cross numa das propostas mais agradáveis de conduzir dentro do segmento.
A combinação de uma suspensão mais firme (sem chegar a ser desconfortável) com rodas de 18” e pneus de perfil mais baixo dá ao Yaris Cross um comportamento bastante competente e até… divertido.
Ok, a direção é leve e não tão bem conseguida quanto a do Puma, mas é precisa e direta. E a verdade é que o modelo japonês não fica assim tão distante da proposta da Ford no campo dinâmico.
Mas não há «bela sem senão»: a insonorização podia ser superior. Os pneus de perfil mais baixo se fazem ouvir, assim como os ruídos aerodinâmicos e o som do motor a combustão, sobretudo em autoestrada.
O valor da experiência
Falando do motor, o três cilindros 1,5 l aparece associado a um motor elétrico e à transmissão e-CVT, formando o conjunto híbrido. Longe de ser uma referência em desempenho (nem era esperado, com os seus 116 cv de potência combinada), destaca-se principalmente pela eficiência e pela suavidade de funcionamento quando rodamos em meio urbano.
Como prova da experiência da Toyota no «mundo» dos híbridos, este 1.5 Hybrid, já conhecido do Yaris, permitiu-me médias de 4,7 l/100 km (curiosamente em percursos maioritariamente feitos em autoestrada e estrada nacional), enquanto na cidade os valores ficaram entre 5,5 l/100 km e 5,7 l/100 km.
Isso deve-se, em grande parte, ao facto de este motor ser capaz, segundo a Toyota, de circular até +70% em cidade em modo 100% elétrico. Como é óbvio, não consegui contabilizar com exatidão a percentagem de quilómetros feitos em modo elétrico, mas admito que, em meio urbano, raramente ouvi o motor a combustão.
Face à concorrência, que na maioria recorre apenas a motores a combustão (por vezes com um sistema mild-hybrid) ou até híbridos plug-in, o Yaris Cross surge como uma «solução de compromisso» - e atenção, não no mau sentido.
É que esta solução híbrida permite poupanças reais sem «exigir» o carregamento frequente da bateria, como acontece nos híbridos plug-in.
É o carro certo para si?
A Toyota demorou algum tempo para entrar «de cabeça» no segmento dos B-SUV, mas quando o fez aplicou toda a sua experiência em SUVs ao seu «benjamim».
Mesmo não sendo o mais espaçoso da categoria, o Toyota Yaris Cross compensa isso com uma mecânica que o torna uma das propostas mais interessantes para quem se desloca sobretudo em meio urbano.
Fora desse cenário, o SUV japonês também não desilude, sendo apenas «traído» pela insonorização - principalmente do motor - em rotações mais altas. Ainda assim, quando olhamos para o computador de bordo e vemos os consumos registados, rapidamente nos esquecemos desse detalhe.
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