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Estudo de 17 anos mostra como as mudanças climáticas afetam as tartarugas-cabeçudas em Cabo Verde

Tartaruga marinha na areia de praia cuidando de ovos próximos a contador digital e caderno aberto com gráficos.

Todos os anos, fêmeas de tartarugas marinhas atravessam enormes extensões do oceano para regressar às praias de areia onde a vida delas começou. Depois de anos a alimentar-se longe da costa, cada uma sai da água, arrasta-se pela areia, escava um ninho e deposita ovos que, mais tarde, darão origem a tartaruguinhas.

À primeira vista, parece apenas mais um ciclo natural. Só que o aumento da temperatura do mar e a redução da disponibilidade de alimento estão a alterar, de forma discreta, a frequência e o sucesso com que esse ciclo acontece.

Um estudo de 17 anos com tartarugas-cabeçudas em Cabo Verde mostra como as mudanças climáticas estão a remodelar a reprodução numa das maiores populações de nidificação do mundo.

Ao longo do monitoramento, cientistas registaram mais de 178,000 ninhos e marcaram mais de 14,000 fêmeas na Ilha do Sal.

Oceanos mais quentes alteram a nidificação das tartarugas-cabeçudas

As tartarugas marinhas são fortemente influenciadas pela temperatura. Nas áreas de alimentação, temperaturas mais altas da superfície do mar em março e abril estiveram associadas a chegadas mais precoces às praias de desova.

Já a água mais quente perto das praias, entre junho e setembro, esteve ligada a um pico mais antecipado e também a um encerramento mais cedo da temporada de nidificação.

"As tartarugas marinhas estão a ajustar o calendário delas a temperaturas mais quentes, o que mostra uma capacidade notável de flexibilidade", disse Fitra Nugraha, autor principal do estudo na Universidade Queen Mary de Londres.

"Mas, ao mesmo tempo, as partes do oceano Atlântico das quais elas dependem para se alimentar estão a tornar-se menos produtivas – e isso está a desgastar, em silêncio, o rendimento reprodutivo."

Para descrever a estação reprodutiva com mais precisão, os pesquisadores definiram a temporada com base em percentuais - em vez de considerar apenas o primeiro e o último ninho. O início foi estabelecido quando 5% do total de ninhos já tinha sido posto; o ponto médio, quando se atingia 50%; e o fim, quando 95% já estava completo.

Nos anos mais quentes, cada um desses marcos aconteceu mais cedo, deixando evidente a mudança no calendário de nidificação.

Temperaturas elevadas também reduziram o intervalo entre posturas dentro de uma mesma temporada. Em condições quentes, o desenvolvimento dos ovos acelera. Além disso, fêmeas maiores apresentaram pausas ainda mais curtas em água quente, porque corpos maiores retêm calor por mais tempo.

A oferta de alimento determina a energia disponível

A temperatura, por si só, não explica toda a história. As tartarugas-cabeçudas são reprodutoras do tipo "capital": a energia usada para produzir ovos é acumulada durante longos períodos de alimentação no mar.

Para estimar a produtividade oceânica, o estudo usou níveis de clorofila - um indicador da quantidade de vida vegetal que cresce na água.

Os dados mostraram uma queda contínua nos níveis de clorofila nas áreas de alimentação ao longo do período analisado. Com menor produtividade, há menos presas e, consequentemente, menor capacidade de acumular energia.

O intervalo de remigração - o tempo entre uma temporada de nidificação e a seguinte - variou de um a oito anos, com média pouco acima de três anos. Com o passar do tempo, esse intervalo aumentou: as fêmeas passaram a ficar mais tempo nas áreas de alimentação antes de regressar para se reproduzir.

"Da praia, tudo parece um sucesso de conservação – mais ninhos, nidificação mais cedo, muita atividade", disse Kirsten Fairweather, coautora principal e coordenadora científica da Associação Projeto Biodiversidade.

"Mas, quando você acompanha tartarugas individuais por muitos anos, surge um quadro mais complexo. As tartarugas estão a trabalhar mais para obter menos retorno."

A escassez de alimento afetou com mais força as fêmeas menores. Já as maiores conseguiram recompor as reservas energéticas mais rapidamente quando a produtividade do oceano melhorou.

Menos posturas e menos ovos

Em média, a frequência de posturas foi de cerca de 2.3 posturas por temporada - e esse valor diminuiu ao longo dos 17 anos. Níveis mais altos de clorofila nas zonas de alimentação estiveram associados a maior frequência de posturas.

O tamanho médio das ninhadas ficou em torno de 79 ovos, e também caiu com o tempo. As fêmeas maiores depositaram mais ovos, em linha com padrões biológicos observados há muito tempo.

No entanto, em anos muito quentes, a relação entre tamanho corporal e tamanho da ninhada enfraqueceu. Condições térmicas elevadas podem limitar quanta energia é possível investir na reprodução.

O número de ovos também diminuiu ligeiramente à medida que a temporada avançava. Entre as fêmeas menores, essa queda foi mais rápida, provavelmente porque as reservas de energia armazenada se esgotam mais depressa.

O autor sênior do estudo é Christophe Eizaguirre, professor de genética evolutiva e da conservação na Universidade Queen Mary de Londres.

"A temperatura por si só não conta a história completa", disse Eizaguirre. "Você deve proteger as tartarugas marinhas nas praias de nidificação, mas não só."

"O que acontece a milhares de quilômetros de distância, nas áreas de alimentação, determina diretamente quantos ovos elas conseguem produzir e, portanto, a próxima geração de tartarugas."

O tamanho corporal está a mudar

O tamanho das fêmeas variou de 60 a 111.8 cm, com média de cerca de 79.6 cm. Ao longo do tempo, a média diminuiu à medida que mais fêmeas a nidificar pela primeira vez se juntaram à população. Essas novas nidificantes eram menores do que as remigrantes experientes.

O tamanho corporal teve forte influência sobre a reprodução. Fêmeas maiores apresentaram intervalos mais curtos entre nidificações dentro da temporada, intervalos de remigração menores e posturas maiores.

Se a média de tamanho continuar a cair, a produção reprodutiva total pode reduzir ainda mais.

Um futuro complexo para as tartarugas-cabeçudas

Na Ilha do Sal, o número de ninhos atingiu o pico em julho, agosto e setembro. As estimativas indicam que cerca de 9,000 a 17,000 fêmeas nidificam no auge da atividade.

Num primeiro olhar, esses números podem sugerir que tudo está a correr bem. Mas uma análise mais profunda aponta um custo oculto.

A água mais quente acelera o calendário de nidificação. Em paralelo, a queda na oferta de alimento reduz o número de ovos e aumenta o intervalo entre temporadas de reprodução.

As mudanças climáticas atuam por vários caminhos. A temperatura influencia o momento da nidificação. A produtividade do oceano define a capacidade de armazenar energia. O tamanho corporal condiciona como cada fêmea responde. A soma desses fatores determina quantos filhotes entram no oceano todos os anos.

O destino das tartarugas-cabeçudas em Cabo Verde depende não apenas de praias seguras, mas também de áreas de alimentação saudáveis em mar aberto.

A proteção dos ecossistemas marinhos será essencial para que futuras gerações de tartarugas marinhas consigam sobreviver num mundo em aquecimento.

O estudo foi publicado na revista Animals (https://www.mdpi.com/2076-2615/16/4/552).

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