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Vômito fossilizado de 290 milhões de anos do Bromacker revela a refeição terrestre mais antiga

Jovem cientista analisa fóssil em laboratório, com tablet exibindo reconstrução digital ao lado.

Um bloco de vômito fossilizado acabou identificado como o mais antigo já conhecido de qualquer animal terrestre, com cerca de 290 milhões de anos.

No interior, 41 fragmentos ósseos preservam uma única refeição de muito antes dos dinossauros, o que permite aos cientistas redesenhar uma teia alimentar inicial em terra firme.

Encontrado nos arenitos de Bromacker, no centro da Alemanha, um nódulo do tamanho de uma noz chamou a atenção por concentrar ossinhos comprimidos em um só ponto, em vez de espalhados pela rocha.

Na laje que o continha, Arnaud Rebillard, paleontólogo do Museu für Naturkunde Berlim (MfN), encarou o nódulo como uma pista.

Depois, Rebillard e colegas publicaram um estudo detalhado que mapeou os ossos do nódulo e defendeu que eles vieram de conteúdo estomacal regurgitado.

Com essa interpretação, o aglomerado virou um registro direto de um ato de alimentação - algo que os fósseis geralmente não mostram com clareza, por dependerem de esqueletos quebrados e dispersos.

Como o vômito vira fóssil

Os pesquisadores chamam o vômito fossilizado de regurgitalito: restos endurecidos do estômago expulsos pela boca antes de a digestão terminar.

No esforço de regurgitar, muco pegajoso e sucos digestivos podem colar ossos afiados e formar uma massa compacta.

O soterramento rápido, então, sela esse “pacote”, já que sol, necrófagos e água corrente costumam separar fragmentos soltos.

Em ambientes terrestres, essas condições favoráveis são raras; por isso, cada regurgitalito preservado pode revelar comportamentos que esqueletos, sozinhos, deixam escapar.

Separando os ossos com recursos digitais

Para não precisar abrir a amostra à força, a equipa recorreu à microtomografia computadorizada (micro-TC), um exame de raios X de alta resolução adequado a fósseis minúsculos.

Os raios X atravessaram os ossos de modo diferente do arenito, e um programa isolou as partes mais densas, criando um modelo digital limpo.

Com os elementos separados, os cientistas giraram cada osso no modelo e compararam as formas com esqueletos de Bromacker mais bem preservados guardados nas coleções do MfN.

Nada precisou ser retirado da rocha durante a varredura, o que foi crucial porque alguns ossos tinham menos de 2,5 cm e poderiam esfarelar com facilidade.

Três espécies de presas

As comparações com a coleção de fósseis do sítio indicaram que o vômito reunia restos de três animais - e não de uma única vítima.

Um conjunto correspondeu a Thuringothyris mahlendorffae, com cerca de 8,9 cm de comprimento, e outro combinou com Eudibamus cursoris, em torno de 10,2 cm.

A terceira presa veio de um diadectídeo não identificado, aparentado a Diadectes, que chegava aproximadamente a 61 cm de comprimento.

Como não foram encontrados marcas de dentes nem fragmentos de crânio do animal que comeu, os ossos ainda não permitem nomear o predador com certeza.

Pistas vindas da química

A química ajudou a diferenciar vômito de fezes ao acompanhar o fósforo, que com frequência se concentra em coprólitos - fezes fossilizadas endurecidas em rocha.

No aglomerado de vômito, o sedimento imediatamente junto aos ossos tinha pouco fósforo, ao contrário do padrão típico em fósseis fecais.

Os ossos mantinham o seu próprio fósforo, mas o “cimento” ao redor lembrava mais lama de planície de inundação do que resíduos digeridos.

Esse desenho químico reforçou a hipótese de que o animal expeliu uma pelota compacta cedo, antes de o intestino a processar por completo.

Um comedor pouco cuidadoso

A mistura de presas diferentes numa só golfada apontou para alimentação oportunista. Um predador poderia agarrar um pequeno réptil, abocanhar outro logo ao lado e engolir ambos antes que os ácidos amolecessem os ossos.

O alinhamento de ossos longos no interior da massa sugeriu que ela saiu do corpo como uma única peça, e não como sobras soltas. Esse tipo de evidência direta de relação predador-presa continua raro em rochas terrestres tão antigas, onde a maioria dos fósseis mostra corpos após a morte - e não refeições.

À procura do predador

Apenas dois grandes carnívoros de Bromacker combinavam com o tamanho do aglomerado e com a fauna que vivia ali.

Tanto Dimetrodon teutonis quanto Tambacarnifex unguifalcatus eram sinapsídeos, um ramo de vertebrados que mais tarde deu origem aos mamíferos.

Como nenhum dos dois deixou um dente no nódulo, os autores trataram o responsável como um suspeito mais provável, não como uma identificação definitiva.

Mesmo assim, reduzir as possibilidades a uma lista curta é importante, porque limita as opções quando os cientistas reconstroem o topo daquela cadeia alimentar.

Por que Bromacker se destaca

Ao contrário de muitas pedreiras fossilíferas, Bromacker forneceu esqueletos terrestres completos e também trilhas de pegadas, permitindo relacionar corpos a comportamentos.

Escavações repetidas expuseram camadas finas de arenito e lama que enterraram animais rapidamente, diminuindo a distância que ossos poderiam ser arrastados.

Em 1974, Thomas Martens foi o primeiro a retirar ossos da pedreira, e equipas posteriores voltaram durante anos para ampliar o registo.

Esse esforço prolongado colocou o MfN numa posição incomum: um único nódulo regurgitado pode ser confrontado com muitos animais já conhecidos do mesmo local.

Um instante preservado

Riachos temporários cortavam o vale de Bromacker, e coníferas margeavam as margens, onde a lama de cheias podia soterrar restos.

Como o aglomerado registou um único episódio de regurgitação, ele capturou quem comeu quem sem depender de marcas de mordida em um esqueleto fossilizado.

“É como uma fotografia do passado, tirada num momento específico”, disse Rebillard, ao descrever como esses registos diretos são raros em terra firme.

Encontrar mais regurgitalitos ajudaria a testar se esses predadores caçavam de forma seletiva; ainda assim, este exemplar já fixa uma ligação real dentro da teia alimentar.

Para onde isso aponta

Ao juntar ossos dispersos num único acontecimento, o vômito fossilizado permitiu visualizar uma rede predador-presa que os corpos, por si só, costumam esconder.

Novas descobertas em Bromacker e em sítios semelhantes poderão mostrar como predadores terrestres antigos se alimentavam e com que frequência devolviam refeições pela boca.

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