Se a Ford vai mesmo virar 100% elétrica nesta década, o novo Mustang Mach-E precisa entregar, né…
E a boa notícia é que a gente já provou algumas “versões” do Mach-E e curtiu. Só que, até aqui, eram sempre as configurações com tração integral: dois motores, aquele empurrão extra e preços acima de £40.000.
Este aqui é o carro de entrada. £37.350 já com o subsídio do governo britânico. Bateria “Standard Range” e apenas um motor, empurrando só o eixo traseiro. Normalmente, não é o tipo de versão básica que faz nossos olhos brilharem - a não ser que seja algo absurdamente barato, tipo um Dacia Sandero. No geral, a gente costuma concordar que o melhor ponto está em algum lugar no meio do catálogo.
Mas com carro elétrico não é bem assim, certo?
Exato. Tem um padrão aparecendo nessa nova leva de EVs. Começou com a Tesla: a cada cereja ainda mais insana colocada no topo do bolo (leia-se: mais aceleração para arrancar o pescoço), a gente acabava preferindo a versão mais barata - que já é rápida o suficiente - depois que o “olha ISSO” perde a graça.
Eu, por exemplo, ficaria com um Tesla Model 3 Long Range em vez do Performance. E o VW ID.3 também parece fazer mais sentido nas especificações mais simples.
Nem o Porsche Taycan escapa. O Turbo S é daqueles que reorganizam seu rosto mais rápido do que o Pablo Picasso montando um Mr. Potato Head. Parece acelerar mais rápido do que a própria eletricidade que o alimenta. É um absurdo de engenharia.
Mas - você já sabia que esse “mas” vinha - a versão de tração traseira vira e contorna tão bem quanto, por dentro tem a mesma aura de coisa cara, e custa literalmente metade. Com EV, está parecendo que menos = mais.
Até porque os mais “lentos” não trituram sua autonomia com a mesma facilidade.
Até onde a Ford diz que este Mach-E vai com uma carga?
O Mach-E Standard Range tem bateria de 77 kWh, então a boa começa com 120 kg a menos em relação ao Extended Range (96 kWh).
Com tração traseira, como você vê aqui, ele é £6.000 mais barato do que o Standard Range AWD. “Segundo strike”, como eles diriam no críquete americano.
Então, respondendo: com só um motor para alimentar, a estimativa oficial da Ford aponta 273 milhas entre recargas (cerca de 439 km), contra 248 milhas (cerca de 399 km) na versão 4x4.
E na vida real, com um ser humano ao volante?
O painel mostrava 215 milhas (aprox. 346 km). A gente acha que dá para apostar com segurança em 205 milhas (aprox. 330 km). Como em todos os Mach-Es AWD que testamos até agora, o consumo estabilizou num respeitável 3,0 milhas por kWh. Se você teoricamente pudesse usar todos os 76 kWh e seguir até zerar, daria 228 milhas no total (aprox. 367 km).
Quão rápido dá para recarregar?
Bem rápido. Mesmo este Mach-E de entrada aceita recarga a 115 kW. Se você achar um carregador parrudo com 150 kW - aqui não é todo dia, mas já tem alguns instalados a uns 20 minutos de casa - ele volta até 80% em algo como meia hora. E isso não é só texto de release: eu fui lá e fiz.
Chega de planilha elétrica. E ao dirigir, como é?
Este é o primeiro Mach-E que eu dirijo, e as primeiras impressões são… estranhas. Ele é muito mais “Ford americana” do que “Ford europeia”. Parece enorme. Atrai mais olhares e viradas de cabeça do que qualquer Blue Oval desde o Focus Mk1. Os bancos lembram mobiliário de escritório dos anos 1990 - e a textura não está muito distante disso.
Claro que a tela vertical gigantesca de 15,5 polegadas é a estrela da cabine, mas nesta unidade os menus estavam um pouco engasgados, e o pareamento com o celular foi meio errático.
Depois que está tudo conectado, a interface é realmente impressionante e passa a sensação de ter sido desenhada por alguém que entende que esses sistemas precisam ser usáveis enquanto - né - você dirige.
Os “tiles” e botões são grandes e fáceis de acertar de primeira. E a tela fica bem mais ao alcance do que, por exemplo, o display do Golf mais recente. Pena que a Ford economizou naquele controle de volume brilhante. Assim como o seletor giratório de marcha, ele parece metal bacana ao toque, mas é plástico cromado meio “latinha”.
Saindo do lugar, a primeira coisa pouco “Ford” é a suspensão agitada em baixa velocidade. Mesmo nas menores rodas disponíveis - 18", com um pneu de ombro bem alto - ele passa com batidas e pouco assentado. Isso, somado à largura toda, faz o Mach-E parecer mais desajeitado na cidade do que estamos acostumados em um Ford - mesmo num grandão. É mais Edge do que Kuga, saca?
Felizmente, melhora rápido. Com velocidade, a suspensão encontra mais complacência e, com 254 bhp e 317 lb ft (aprox. 430 Nm) a um simples mexer do pé, ele anda forte do jeito liso e contínuo típico de elétrico. A saída inicial é mais calma até o carro “entender” que vai ter tração, mas a retomada útil de 30 a 70 mph é rápida (aprox. 48 a 113 km/h), e ele desliza para longe do seu velho turbodiesel. A Ford fala em 0–62 mph (0–100 km/h) em 6,9 s, o que não fica muito distante de um Fiesta ST - e estamos falando deste “bicho” de quase 2.000 kg, na versão básica.
De novo: é um EV rápido o bastante para qualquer situação, mas não exatamente te chama para andar chutado. Logo, compre este. Ou, melhor ainda, o Extended Range se você é muito ansioso com autonomia. Ele promete 379 milhas por carga (aprox. 610 km). Fico pensando se isso vai parecer pouco, na medida certa ou totalmente exagerado quando o plano mestre “tudo elétrico” da Ford realmente engrenar.
Se for para catar pelo em ovo, eu iria nos freios. Eles dão conta, sim, mas a sensação física do pedal não é das mais tranquilizadoras. “Por que você não usa só a regeneração?”, você pode perguntar.
O problema é que, em vez de um botão decente (como no Nissan Leaf e no Vauxhall Mokka-e) ou as aletas no volante ao estilo Audi e-tron, a Ford só deixa aumentar o re-gen mergulhando fundo nos menus da tela. Estilo Tesla, claro. E copiar todas as bruxarias da Tesla não é necessariamente tão genial quanto certa galera que mora na internet gosta de achar.
No resto… é um bom carro?
É simpático, sim. Ele vira bem. E até “parece” um pouco traseiro. As portas com botão fazem meu cérebro infantil achar que já chegou o futuro, e o espaço atrás é realmente nível executiva.
Tem um pouco de ruído de vento nos retrovisores, que aparece mais quando não existe um V8 preguiçoso para abafar tudo, e rodar com esse capô enorme e esculpido lá na frente escondendo basicamente nada além de um “poço dos desejos” para organizar cabos é meio esquisito. Mas eu ainda gosto deste Mach-E. Será que este, e não o Mach-E GT de 480 bhp, vai acabar sendo o nosso preferido? Os tempos mudam. Nunca me peguei preferindo um Mustang EcoBoost a um Shelby…
Score: 7/10
£37,350 (após subsídio do governo)
1 e-motor, 254 bhp, 317 lb ft
1 marcha, RWD
0–62 mph em 6,9 s, 111 mph
Autonomia declarada: 273 milhas, bateria de 76 kWh
1993 kg
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